segunda-feira, dezembro 5, 2022
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Racionais Mc’s e o labirinto social da década de 90

De um lado, o avanço dos produtos im­portados, shoppings e condomínios fe­chados. Do outro, o desemprego, a pre­carização do trabalho, as privatizações e os ataques aos direitos sociais provoca­dos por essa mesma ideologia. Em meio a essa contradição, eis que sur­ge um grupo de rap que começa a narrar a realidade que até então estava invisível

Por José Coutinho Júnior, José Francisco Neto, Simone Freire e Eduardo Sales, no BdF

Uma contradição entre o discurso e a realidade. É dessa forma que o pesquisa­dor Tiarajú Pablo D’Andrea, autor da te­se de doutorado

A formação dos sujei­tos periféricos: cultura e política na pe­riferia de São Paulo, resume o que foi a década de 1990 com a chegada do neoli­beralismo e os efeitos que esse provocou nos bairros populares.

De um lado, o avanço dos produtos im­portados, shoppings e condomínios fe­chados. Do outro, o desemprego, a pre­carização do trabalho, as privatizações e os ataques aos direitos sociais provoca­dos por essa mesma ideologia, que tinha como objetivo criar um pensamento que glorificava o individualismo.

Para o discurso, a sociedade havia che­gado ao seu melhor momento. A rea­lidade, no entanto, mostrava o contrá­rio. Chacinas se multiplicavam nas peri­ferias paulistas e as formas clássicas de organização política entravam em crise. Em meio a essa contradição, eis que sur­ge um grupo de rap que começa a narrar a realidade que até então estava invisível: o Racionais MCs.

Formado por Mano Brown, KL Jay, Edi Rock e Ice Blue, o grupo, de acordo com Tiarajú, conseguiu, através de su­as canções, fazer toda uma geração ter o autoconhecimento de que a arte era a única maneira de se sobressair diante daquele labirinto social iniciado na dé­cada de 1990.

O pesquisador cita como exemplo a música Fórmula Mágica da Paz, uma das que compõem o CD Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997. Em um dos trechos da música, em que fala “descanse o seu gatilho, meu rap é o trilho”, Tiara­jú explica que esse é o discurso de que ‘a arte me salvou’.

“Eles conseguiram com esse discurso potente fazer toda uma geração dizer pa­ra si mesma ‘pô, vamos fazer arte que é mais legal. Vamos ficar se matando? Va­mos cantarrap’. Esse discurso ajudou a formar uma geração que falou ‘vamos cantar, vamos abrir um sarau, fazer uma comunidade do samba porque aqui tem uma saída interessante’”, explica.

Racionais e o lulismo

Após uma década de desesperança, 2002 renovou os ânimos no país. Lula ganha as eleições, e o Brasil, a Copa do Mundo. Lula assume em 2003 a presi­dência da República. No plano político, o lulismo seria marcado por uma ascen­são social ao consumo nos anos seguin­tes. Fato que o Racionais antecipou um ano antes com o lançamento de seu no­vo – e último – disco Nada como Um dia Após o Outro Dia. Para explicar, Tiarajú cita o exemplo da música Negro Drama que, segundo ele, evidencia a ascensão ao consumo de quem mora nas periferias.

“A música [negro drama] cantou a bola de uma questão subjetiva que ia perpas­sar toda uma geração. É uma obra artís­tica muito louca, porque o cara cantou a bola antes de acontecer. Aí você tem uma rapaziada da periferia de São Paulo que fala que negro drama é a música que fala a trajetória da minha vida”, argumenta.

Por outro lado, Tiarajú também reco­nhece que esse cd causou bastante polê­mica na época.

“Esse cd foi muito criticado no mundo do rap, porque foi um cd que fez várias alusões ao mundo do consumo. É um cd que bate muito numa questão: eu con­segui cantandorap, hoje eu consigo ter um carrão, consigo ter mulheres bonitas, consigo me inserir no mercado de con­sumo. Em vez de brigar com o consumo, eu vou consumir mais que você. É um cd que a todo momento fala deles”, observa.

O pesquisador complementa dizen­do que, por mais que seja contraditório em seus discursos nos últimos 20 anos, o Racionais foi o despertar de uma gera­ção que não via outra saída. Em meio ao mundo do crime, da violência e das dro­gas, o rap veio como uma alternativa pa­ra a juventude da época.

“O papo reto é mais eficaz. A crítica di­reta é mais eficaz. O realismo é mais efi­caz. Eles conseguem elaborar um discur­so sobre o que foi morar e o que é mo­rar na periferia de São Paulo nos últimos 20 anos. Eles elaboram o melhor discur­so. Eles conseguiram falar os anseios de uma população em determinado tempo. É a narrativa legitimada”, conclui.

Foto de capa: Guilherme Perez

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