terça-feira, setembro 21, 2021
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‘Racismo ambiental também é uma forma de genocídio’, diz Amanda Costa, 24 anos, ativista e embaixadora da juventude na ONU

Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, paulistana que é embaixadora da juventude da ONU, explica como os efeitos da crise climática atingem prioritariamente pessoas negras e periféricas e por que é preciso criar políticas pública de combate ao racismo ambiental

Pensando em deslizamentos, queimadas, chuvas fortes e alagamentos, é natural vir à memória os noticiários que mostram as partes mais pobres das cidades destelhadas com os fortes ventos, destruídas pela terra que desliza ou alagadas pela chuva. É que os desastres naturais costumam afetar a população mais pobre de forma muito mais arrasadora.

Um exemplo é o furacão Katrina, que, em 2005, fez mais de 1,3 milhão de pessoas deixarem o estado da Louisiana, 400 mil delas só de Nova Orleans, tornando esta a maior evacuação na história dos Estados Unidos. Mas ainda assim, centenas de milhares de pessoas não conseguiram sair, principalmente nas áreas mais carentes. Muitos dos cidadãos não tinham carros ou dinheiro o suficiente para conseguir pagar o ônibus, e o governo fez muito pouco para tentar tirá-los do caminho do Katrina. O resultado: mais de 1.800 vidas perdidas.

Esse cenário configura o racismo ambiental, um termo não tão mencionado, mas que tem sido debatido principalmente entre os jovens. CELINA conversou com Amanda Costa, 24 anos, ativista e embaixadora da juventude da ONU. Mulher negra, periférica e evangélica, ela é membro dos movimentos pela Coalizão Evangélicos pelo Clima.

CELINA: O que é racismo ambiental?

Amanda Costa: Primeiro, precisamos entender o racismo estrutural, que está impregnado na nossa sociedade. Isso significa que as nossas instituições são racistas, que as pessoas reproduzem comportamentos racistas, não porque são más ou horríveis, mas porque é como se fosse um câncer se espalhando pelo corpo. O racismo atinge a cultura, a burocracia e também o meio ambiente. Quando a gente olha para as cidades, vê que as pessoas pretas e periféricas estão numa condição de vulnerabilidade social.

Quando vemos os desafios ambientais que a gente enfrenta por conta da crise climática, percebemos que um grupo vai sofrer as principais consequências: mulheres pretas, periféricas, mães de família. Quando chove e alaga tudo, não é a galera do centro que fica desabrigada. Quando a temperatura aumenta muito e os idosos morrem, não vai ser quem mora na cobertura que vai se preocupar com isso; vai ser a população mais velha, que mora na periferia com todos os netos em casa. Genocídio é toda política que faz com que o meu corpo seja violentado de alguma forma, então racismo ambiental também é uma forma de genocídio.

De que forma as mulheres negras são afetadas pelo racismo ambiental?

Quando a gente começa a olhar a estrutura da sociedade, percebemos que as mulheres — não só as pretas, mas as que estão em grupos minoritários — estão na base da pirâmide. Depois delas, vêm os homens pretos, depois deles as mulheres brancas e, no topo, estão os homens brancos. As mulheres negras, geralmente, são as líderes das comunidades, e raramente são representadas nos espaços burocráticos de poder.

Quem está no poder? Os homens brancos. Então são eles que legislam para os que são iguais a ele, criam políticas públicas para outros homens brancos. E, assim, as mulheres negras ficam carentes de políticas públicas, apesar de serem as líderes da comunidade. Pelo fato de não serem representadas, as mulheres pretas são as mais afetadas. É como ir a uma guerra sem armamento.

Como surgiu seu interesse pelo ativismo ambiental?

Eu fiz faculdade de Relações Internacionais e, em 2017, fiz parte de grupos de voluntários. Então, recebi uma bolsa para representar o Brasil na COP-23 (Conferência da ONU sobre Mudança do Clima), na Alemanha. A partir do momento em que me vi num espaço de discussão global, comecei a detectar alguns padrões que eu não queria corroborar, que são: a figura do homem branco, hétero, cisgênero, falando a partir do meu lugar sem fazer parte dele. Quando voltei para a minha casa, fiquei muito incomodada porque tive acesso a um conteúdo muito profundo, mas que nunca chegaria na periferia normalmente, mesmo que nós sejamos os principais impactados.

Comecei um projeto de mobilização entre os meus amigos, que foi horrível no começo porque todo mundo achava chato falar sobre clima. É muito complicado falar de uma crise que não é tangível, fica parecendo assunto de gente rica. Pensei em formas de democratizar essas informações e me inscrevi num edital de uma instituição chamada United People Global, que buscava jovens de países periféricos com ideias para transformar suas realidades. Escrevi o “Perifa Sustentável”, que é uma plataforma de democratização dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. O projeto tem três pilares: ação comunitária, educomunicação e participação política.

Quais as principais conquistas desde que você começou a trabalhar com ativismo ambiental?

As conquistas foram coletivas, sozinha eu não teria alcançado nada. Virei jovem embaixadora da ONU, entrei na lista da Forbes Under 30, saí na capa da “Época Negócios”. Mas também gosto de trazer coisas pontuais, como uma memória especial que eu tenho de uma escola aqui do bairro. No Dia do Meio Ambiente, visitei essa escola e plantei sementes de tomate-cereja com as crianças. Eu as vi empolgadas com esse trabalho, felizes por plantarem o próprio tomate. Às vezes, achamos que precisamos fazer grandes coisas para o trabalho ter valido a pena, mas acho que o impacto que aquelas crianças tiveram em mim já fez tudo valer a pena. Tenho consciência de que não plantei apenas sementes de tomate, mas plantei sementes no coração deles.

Como a sua instituição religiosa encara o seu ativismo?

Me dói o coração, mas meus líderes religiosos votaram no Bolsonaro e o defendem até hoje. Mas, olhando para a palavra de Deus, há uma concepção muito forte no meu coração de que Jesus foi o maior ativista da História. Ele era o cara que dava rolê com as prostitutas, que convidava os cobradores de impostos para banquetes. Encarando isso a partir dos meus estudos sobre as Escrituras e do meu relacionamento com o Espírito Santo, eu entendi que Deus dá missões específicas para cada pessoa.

Talvez o que ele colocou no meu coração é que eu preciso lutar e me posicionar pela justiça climática através de uma postura ecofeminista antirrascista, mas isso não quer dizer que essa seja uma verdade absoluta. É a verdade que Ele colocou no meu coração. Eu não admito que dentro da minha igreja meus amigos falem mal do ativismo, ou sejam homofóbicos ou racistas, assim como não permito que meus amigos ativistas falem mal de Jesus. Na Coalizão Evangélicos pelo Clima, encontrei pessoas que lutavam pela mesma causa que eu, e me identifiquei.

Como deixar o ativismo pelo Meio Ambiente mais acessível para as pessoas? 

O ativismo se sustenta em três pilares: individual, político e coletivo. Podemos pensar em ações simples, como levar um copo retornável quando for sair, diminuir o consumo de plásticos e usar ecobag. São atitudes legais, mas não suficientes. Podemos influenciar as pessoas com essas atitudes simples, e assim vamos formando um grupo. Mas também é necessário mudar a política. Então precisamos de políticas públicas, de pressionar os políticos para que eles possam, de fato, fazer leis que ajudem a combater o racismo ambiental.

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