quinta-feira, julho 7, 2022
InícioQuestão RacialRacismo atrapalha combate eficiente ao coronavírus, afirma médica

Racismo atrapalha combate eficiente ao coronavírus, afirma médica

“Não falariam de economia se doença não matasse mais negros”, afirma Rosane de Souza, do Coletivo NegreX; para ela, dados raciais sobre pandemia ainda são insuficientes

Por Antonio Junião, Da Ponte 

Selfie de Rosane de Souza- mulher negra, de cabelo crespo, usando blusa de frito com estampa, preto, azul e branco e um cachecol marrom- em pé sorrindo
Rosane de Souza, médica especialista em controle de infecção e neonatologista (Foto: Arquivo pessoal)

A divulgação do primeiro Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde com recorte racial de casos registrados, internações e mortes pelo novo coronavírus no Brasil é um primeiro passo importante para a análise dos reais impactos da pandemia na população brasileira. Mas ainda está longe de ser suficiente. A precisão das informações sobre raça e cor das pessoas com Covid-19 esbarra em problemas estruturais do combate à pandemia como um todo no país, sobretudo o baixo índice de testagem e os processos pouco eficientes de notificações de casos de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG), inclusive a Covid-19. E, no caso específico da população negra, o efetivo combate à pandemia também esbarra no racismo estrutural do país.

A avaliação é da médica Rosane de Souza, especialista em controle de infecção e neonatologista do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A médica, que integra o coletivo NegreX, primeiro coletivo de médicas e médicos negros do país, formado em 2015, afirma que a divulgação de dados da Covid-19 com recorte racial é uma conquista dos movimentos negros.

“Tivemos uma vitória importantíssima, resultado do pedido do Grupo de Trabalho sobre saúde da população negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Boletins epidemiológicos lançados a partir de 10 de abril incluem também informações sobre raça e cor. Fica mais fácil analisar como a Covid-19 impacta a população negra”, disse, em entrevista à Ponte.

No entanto, a médica afirmou que as informações do próprio Boletim Epidemiológico demonstram a subnotificação no quesito raça e cor. Um dos gráficos que compõem o documento mostra que, do total de 19.638 casos de Covid-19 confirmados no Brasil até 10 de abril, 1.942 não continham a informação de raça e cor.

gráfico do número de hospitalização por SRAG segundo raça/cor - 10/04/2020 até 14h
Reprodução: Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 10/04/2020

Dados atualizados no sábado (11/4) dão conta que números aumentaram, mas proporção de ausência de informações racializadas de morte e internações se mantiveram. Segundo documento, número de confirmados sem identificação de raça subiu para 2.206 para mais de 20 mil casos.

“São 10% dos casos confirmados sem registro de raça e cor”, aponta Rosane de Souza. “Os profissionais da saúde acham que esse dado não é importante. E digo mais: os que estão computados são, a maior parte, heteroidentificação. Ou seja, não foi o paciente que informou sua raça e cor, e sim a pessoa que preencheu o formulário com a sua própria impressão.” Em muitas unidades de saúde pelo país, lembrou a médica, preenchimentos de fichas de atendimento ainda são feitos à mão, o que leva à demora na transferência das informações para o sistema unificado da saúde, o e-SUS.

Quando falamos em mortes, o número de casos sem informações de raça é de 405 para um total de 1.124, até o dia 11 de abril.

Poucos testes

Segundo o site Worldmeter, que reúne dados da pandemia de Covid-19 pelo mundo, o Brasil tem um índice baixíssimo de testagem. São menos de 300 testes feitos por milhão de habitantes. Na América do Sul, o Chile realiza mais de 4 mil testes por milhão de habitantes, e a Venezuela, mais de 6 mil por milhão.

A falta de testes é um problema anterior ao novo coronavírus, como também mostra o Boletim Epidemiológico. No gráfico que apresenta as hospitalizações provocadas por SRAG segundo o agente causador, é possível notar o grande número de casos em que não se sabe o vírus que causou a doença. O índice de desconhecimento foi alto ao longo de todo o ano de 2019 e aumentou ainda mais em 2020, especialmente a partir da décima semana do ano, ou seja, meados de março.

Gráfico que mostra a hospitalização por SRAG segundo agente etiológico, até a SE 14- 10/04/2020 até 14h
Reprodução: Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 10/04/2020

A médica destaca a necessidade de um painel preciso de quais parcelas da população estão sendo testadas para uma noção exata da racialização da doença, de sua distribuição e letalidade por raça. “A impressão é de que a subnotificação ocorre preferencialmente na população negra, na população mais desassistida, que tem menos acesso aos serviços de saúde e menos informação sobre quais são os sinais de alarme”, disse a especialista. “Não temos dados, não sabemos onde estão as pessoas infectadas. É praticamente impossível construir estratégias e políticas sem saber para onde estamos indo.”

Em entrevista à Ponte, a especialista analisou também o discurso político sobre a pandemia da Covid-19 e a situação internacional de negras e negros frente à doença.

Ponte – Por que o recorte racial é relevante na atual pandemia?

Rosane de Souza – A pouca importância que alguns representantes do Estado brasileiro vêm dando à crise da Covid-19 mostra o pouco valor que têm as vidas negras e as vidas periféricas. Porque não é uma questão de desinformação: eles sabem quem tem maior risco de morrer. Quando uma figura pública propõe contaminação em massa para que grandes contingentes da população adquiram logo a imunidade, sabe que isso levará também a um adoecimento em massa e colapso do sistema público de saúde, com grande número de mortes. Em um país pobre e negro como o nosso, as mortes são pobres e negras. São corpos vistos como descartáveis, substituíveis. Não levantariam a bandeira de que a economia do país não pode parar se as mortes mais numerosas não fossem de corpos negros.

Ponte – Nos Estados Unidos a pandemia tem afetado mais os negros. Por que isso acontece?

Rosane – Em muitos aspectos a situação da maioria da população negra nos Estados Unidos na pandemia se assemelha à da população negra brasileira. Mas, como lá negras e negros são minoria, fica evidente a determinação racial na saúde, ou melhor, como barreira ao direito à saúde. Aqui, como somos a maioria da população, e a maioria da população é pobre, a questão econômica mascara a étnica. Em Chicago, por exemplo, em que 30% da população é negra, pouco mais de 70% das mortes por Covid-19 são de pessoas negras. O mesmo acontece no Estado da Louisiana, onde pessoas negras somam 32% da população, mas 70% das mortes por Covid-19. São várias razões, nenhuma delas biológica. Não tem nada na raça negra que aumente a presença, que atraia o vírus. Hipertensão arterial e diabetes são fatores de risco para formas mais graves da infecção, e são condições de alta prevalência entre pessoas negras nos Estados Unidos e no Brasil, mas não só por fatores físicos: são consequência também das dificuldades para uma alimentação balanceada, de jornadas extenuantes de trabalho. Quem pode ficar em quarentena? Qual a cor de garis, funcionários de supermercados, da segurança pública e dos transportes, entregadores, pessoal de limpeza e manutenção das redes de gás, luz e saneamento, entregadores? Entre os profissionais da saúde, qual a cor e a raça de técnicos de enfermagem, que compõem a parcela mais numerosa nesse serviço essencial, onde se trabalha sob enorme risco de contaminação e com dificuldade de acesso a equipamentos de proteção pessoal, isso no mundo todo? Se nós, médicos, estamos adoecendo, técnicos de enfermagem estão muito mais. A estimativa é de que existam 11 milhões de pessoas vivendo em favelas no Brasil. Nós, negras e negros, somos maioria entre esses 11 milhões. Nos Estados Unidos, embora não exista esse grau de “empilhamento” habitacional, negros também vivem em condições piores do que a população branca.

Foto do Coletivo NegreX, primeiro coletivo de médicas e médicos negros do país
Coletivo NegreX, primeiro coletivo de médicas e médicos negros do país | (Foto: arquivo pessoal)

Ponte – De modo geral, que influência as questões raciais têm na prática da medicina?

Rosane – Dados preliminares de alguns estados nos Estados Unidos mostraram que para as pessoas negras apresentando os mesmos sintomas que pessoas brancas a coleta de exame era oferecida menos vezes. Ou seja, ainda que tenha os sintomas, sendo negro você tem menos chance de ser testado contra o novo coronavírus, menos chance de proteger sua família e de conseguir um atestado para afastamento do trabalho. É o racismo estrutural agindo. Uma pessoa negra tem mais chance de suas queixas serem minimizadas, ou de se considerar que você é forte e “aguenta”. A medicina em geral não está pronta para falar sobre isso. A Academia Americana de Pediatria (AAP) recentemente publicou um estudo falando sobre aquilo que nós já sabemos na prática e a própria Organização Mundial de Saúde já disse: o racismo é um determinante de saúde. Tem impacto sobre a saúde física e mental das pessoas negras, inclusive das crianças. Mas é quando uma instituição como a AAP diz que as pessoas param para ouvir. Se não, fica como “mimimi”. A mudança que o perfil dos médicos e estudantes de medicina vem sofrendo nos últimos anos está fazendo com que esse tapa-olhos seja tirado à força. Tem muita gente dentro da saúde, na medicina e em outras áreas disposta a não deixar que se feche mais os olhos para isso.

Ponte – Recentemente, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) aprovou a disciplina de Saúde da População Negra, em caráter optativo. Como funciona esse tipo de disciplina? Há outras iniciativas semelhantes?

Rosane – Essa consciência de que há diferentes formas de adoecer e que raça, assim como gênero e sexualidade, interferem nas perspectivas de saúde não é nova. Em 2009, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que estabelece diretrizes, conceitos e estratégias para promoção da saúde da população negra compreendendo suas especificidades e necessidades. A disciplina visa analisar essa política específica, mas também como a estrutura de saúde atinge ou não atinge a nossa população. Até onde sei, é a primeira vez que esse recorte vira disciplina na grade curricular, na UFMA. Geralmente, a discussão sobre saúde da população negra (SPN) é conduzida nos cursos de graduação no âmbito do ensino de medicina de família e comunidade, atenção integral à saúde ou psicologia médica. Como eu disse antes, são os estudantes e professores negras e negros pautando o tema e abrindo espaço de dentro para fora. E existem também ligas acadêmicas de saúde da população negra em algumas universidades. Ligas acadêmicas são espaços onde alunos se reúnem para pesquisar e discutir temas de seu interesse, sob supervisão de professores. Tem muita gente do NegreX fazendo isso, como a turma do Santa Marcelina, de São Paulo, que tem uma liga de SPN muito atuante. Ou as turmas da UFRJ e da UniRio, que conseguiram implementar as discussões sobre o tema em vários momentos da graduação. Cito apenas o que conheço melhor por proximidade geográfica, porque há movimentos assim em várias faculdades de medicina pelo país. A UFMA dá um passo enorme e abre um caminho para todos.

Ponte – O perfil típico do médico brasileiro ainda é muito branco e elitizado ou isso vem mudando? Como promover mudanças mais rápidas e efetivas nessa área?

Rosane – Ainda é, sim. Somos uma profissão branca e de classe média alta. Mas isso vem mudando e muito. Eu me formei em 1989. Minha turma tinha 3 negros, mas os outros 2 eram negros de pele clara. Éramos poucos em qualquer universidade em que estivéssemos. Não éramos uma ameaça a ninguém, não representávamos uma oposição às expectativas, aos conceitos absorvidos por nossos colegas e presentes nas instituições médicas sobre o lugar reservado aos negros. Pelo contrário, acho que servíamos para justificar estereótipos, como exceções que justificam a regra. Ou como exemplos de meritocracia bem sucedida. Em um país com a composição populacional do Brasil, ninguém estranhava uma turma com 130 alunos ter apenas 3 negros. Com as cotas, a coisa começou a mudar, e o cenário que eu vejo agora, mais de 15 anos depois do início do programa na UERJ e cerca de 10 anos depois em outras universidades é bem diferente. As turmas são muito mais diversas, não só racialmente, mas também em termos socioeconômicos. Claro que estamos longe de representar a realidade do povo brasileiro. Claro que enfrentamos o problema grave das fraudes nas cotas e precisamos da instalação de bancas de heteroidentificação para minimizar esse problema. Mas não há dúvidas de que isso está mudando. Temos hoje o potencial de formar médicos capazes de um exercício profissional muito mais próximo da realidade da maioria do povo brasileiro, porque vivem ou viveram essa realidade, têm pais que a viveram, ou tiveram em sua graduação a troca com colegas que a viveram.

Artigos Relacionados
-+=