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Racismo e negritude – Afroempreendedorismo – Bloco 2

O racismo é o principal obstáculo ao afroempreendedorismo. Mas não é só: o sistema tributário brasileiro também desfavorece os negros que pretendem abrir um pequeno negócio. “Racismo e Negritude” é o tema da Reportagem Especial desta semana. No segundo capítulo, de cinco capítulos, conheça a Rede Brasil Afroempreendedor, associação de empresários negros, recém-criada e presente em 12 estados brasileiros

Do Câmera 

A advogada gaúcha Mariana Ferreira dos Santos, de 28 anos, é especializada em mercado imobiliário e sócia de duas empresas: uma construtora e uma consultoria imobiliária e financeira. Na consultoria, ela e o irmão, Daniel, de 26 anos, estão inovando o mercado imobiliário, com uma solução que facilita o caminho da compra da casa própria. Com um diferencial: perto do local de trabalho.

Funciona como uma compra coletiva: um grupo de funcionários de uma empresa contrata a consultoria de Mariana para que ela negocie com uma grande construtora, em nome dos clientes, uma torre inteira de apartamentos. Cada um vai pagar pelo seu, mas o poder de barganha ao se negociar 20 ou 30 apartamentos é muito maior do que se cada pessoa for sozinha comprar o seu imóvel. E o mais importante: os imóveis ficam sempre em um raio de 5 km do local de trabalho dos compradores. Mariana fala das vantagens disso para o trabalhador:

“Mesmo que tu não tenhas renda, que sejas uma pessoa que use o transporte público, você vai ficar presa no trânsito, quanto se tu fores uma pessoa que tem dinheiro e tem seu próprio carro também vai ficar presa no trânsito. Então, afeta todo mundo.”

A proposta traz benefícios também às empresas empregadoras, pois o funcionário que mora perto chega menos cansado e menos estressado ao trabalho e, portanto, rende mais. Sem falar que há menos carros e menos trânsito e poluição para o resto da cidade. O projeto rendeu aos jovens empresários a participação em um processo seletivo para conquistar financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento. O objetivo desse processo seletivo é favorecer o surgimento, no Brasil, das primeiras empresas milionárias de propriedade de pessoas negras.

Agora eu pergunto: até aqui alguém tinha imaginado a Mariana e o Daniel como jovens negros?

A competência deles deveria dispensar a descrição sobre cor da pele. Mas não dispensa. Ouça o relato da Mariana:

“Como a gente trabalha, às vezes, com torres inteiras de incorporações, então 4, 5, 6, 7 milhões uma torre e, simplesmente, chegar o proprietário de uma das empresas com que a gente está em negociação e falar: ‘olha, estou esperando ainda a Mariana vir aqui para falar’. […] Uma das pessoas falou: ‘a Mariana é aquela sentada ali, ela foi uma das primeiras a chegar à reunião’. E ele ficou estarrecido. Não participou da reunião, não levou nosso trabalho com o mínimo de seriedade. Acho que nunca passou pela cabeça dele uma mulher negra discutindo tamanho, volume de recursos.”

As empresas da Mariana e do Daniel fazem parte da Rede Brasil Afroempreendedor, uma associação de empresários negros recém-criada e que já está presente em 12 estados brasileiros. Eu conversei com o Adilton de Paula, do Instituto Adolpho Bauer, que ajudou a criar a rede. Ele me contou que o racismo ainda é o principal obstáculo enfrentado pelos empreendedores negros no Brasil. O problema é tão grave que afeta a autoestima desses empresários:
“Quando essa pessoa vai a um banco pedir empréstimo, quando vai pedir fomento, quando vai pedir credenciamento de um projeto, sempre olham pra ele e dizem ‘não’ sem muitas vezes sequer analisar o projeto com mais profundidade, porque a análise é a análise do olhar: é negro, não vai dar certo. Por tanto ouvir falar, também é introjetado pela população negra, que não se vê alvo e com condições de sonhar grande, de pensar grande e de construir projetos de grande magnitude.”

O sistema tributário brasileiro também não é favorável aos afroempreendedores, que são, em sua maioria, micro ou pequenas empresas sem empregados. A pesquisadora Grazielle Custódio, do Inesc, Instituto de Estudos Socioeconômicos, é autora de um estudo sobre o impacto da carga tributária em função de gênero e raça. Ela explica como o cenário atual favorece as grandes empresas, em geral, de propriedade de homens brancos:

“As grandes corporações, principalmente as multinacionais, conseguem, exatamente pela sua característica de multinacional, realizar uma série de manobras e fazer com que seus lucros sejam sempre considerados em um país de paraíso fiscal. Com isso, ela deixa de pagar o tributo dentro do país em que ela deveria estar pagando. Então, a grande não está pagando tributo, o pequeno e o médio estão. Quando isso acontece, a gente tem uma situação de extrema injustiça fiscal, porque a gente desregula a capacidade de competição no mercado.”

Outra injustiça apontada pelo estudo é o fato de os impostos incidirem mais sobre o consumo e não sobre o patrimônio. O deputado Reginaldo Lopes, do PT mineiro, diz quem sofre mais com isso:

“O pobre paga mais impostos porque o preço final do produto no consumo já está ali embutido o preço da carga tributária. Ele já compra o produto com aquela carga tributária transferida pra ele. O cidadão que ganha um milhão por mês, ao chegar no supermercado paga por um pacote de arroz o mesmo preço do trabalhador assalariado ou uma família do Bolsa Família.”

Ao distribuir a população entre mulheres e homens, e brancos e negros, e olhar para a renda de cada grupo, a pesquisadora Grazielle Custódio, do Inesc, encontrou o seguinte quadro: entre os mais pobres, estão as mulheres negras; e, entre os mais ricos, estão os homens brancos. A conclusão, portanto, é simples: se proporcionalmente o pobre paga mais impostos e as mulheres negras são as mais pobres, são elas que pagam mais impostos no Brasil.

 

Reportagem – Verônica Lima
Edição – Mauro Ceccherini
Produção – Íris Cary, Cristiane Baker e Gabriela Pantazopoulos
Trabalhos Técnicos – Carlos Augusto de Paiva

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