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“A raiz do machismo não se encontra isolada no mundo das artes; é um problema político e social que precisa seguir mudando.”
Créditos da foto: de Beatriz Call de Gustavo Pugliese

“A raiz do machismo não se encontra isolada no mundo das artes; é um problema político e social que precisa seguir mudando.”

A escultora e artista gráfica francesa Camille Claudel (1864-1943), companheira do artista francês August Rodin, a romancista e poetisa americana Zelda Sayre (1900-1948), esposa do escritor americano Scott Fitzgerald e até a expoente do feminismo, escritora, filósofa, ativista política, a francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), que manteve durante anos um relacionamento aberto com o filósofo francês Jean-Paul Sartre, estão na lista de Pequeno Guia De Incríveis Artistas Mulheres Que Sempre Foram Consideradas Menos Importantes Que Seus Maridos (Editora Urutau), livro da artista paulista Beatriz Calil, de 28 anos, que acaba de ser lançado.

por Katia Mello

Gustavo Pugliese

Em seu olhar artístico e metalinguístico, Beatriz (com mestrado e doutorado pela Unicamp) revisita os relacionamentos de ícones da arte e da literatura mundial, denunciando o fato de terem sido ofuscadas por seus parceiros e em alguns casos, abusadas e violentadas por eles. Em entrevista à coluna Geledésnodebate, a autora informa que está produzindo um novo livro com a mesma temática, em que estarão presentes mulheres negras, trans e indígenas.

montagem: Beatriz Calil

Por que resolveu abordar esse tema?

Não planejei escrever o livro, ele simplesmente “aconteceu” como resultado de pesquisas que faço há algum tempo. Sou artista visual e considero este livro como mais uma de minhas produções artísticas. Não é uma  obra literária, nem de Ciências Sociais ou Filosofia, mas uma manifestação artística em formato de livro. Em toda a minha produção atual costumo pensar e trabalhar os feminismos, a sexualidade da mulher, a visibilidade e o empoderamento e, então, comecei a refletir sobre a visibilidade de artistas mulheres no mundo da arte (com consciência sobre o meu lugar de fala). Por fazer parte desse contexto, conheço o “apagamento” das artistas e passei a observar esse fenômeno de forma rotineira. Resolvi, então, coletar imagens de artistas “apagadas” pela fama de seus maridos. A partir dessas imagens, busquei reverter esse processo. Os textos vieram depois, com a necessidade de explicá-las melhor, de denunciar de forma clara e categórica os abusos que elas sofreram. Minha ideia era uma complementação entre imagem e texto. A imagem ressalta a mulher, colocando-a como protagonista e retirando completamente o homem de cena. Já o texto contextualiza um pouco da história daquela artista e revela a identidade do homem apagado, classificando-o como machista, abusivo, ou ainda como não protagonista. 

Como foi o processo de seleção das mulheres que entraram no livro?

Minha escolha partiu de algumas histórias que eu já conhecia e que sempre foram muito fortes e marcantes para mim, como, por exemplo, Camille Claudel, Zelda Fitzgerald e Ana Mendieta. A história e obra dessas mulheres sempre influenciaram o meu olhar sobre a arte. A partir delas, fui coletando outras histórias aqui e ali, tentando fazer um recorte de um tempo-espaço não muito amplo, mas representativo dentro desse contexto.

“A juventude feminista traz muita esperança para as próximas gerações e talvez um sinal de que haja maior esclarecimento sobre o tema.”

Por que não há brasileiras ou negras?

A principal característica desse livro é que acontece em meio a um processo artístico e de consciência feminista. Não o trato como um trabalho único e definitivo.  Fiz um recorte de uma época e de um contexto, ligado à minha vivência pessoal. Acredito ser muitíssimo importante a visibilidade de mulheres artistas brasileiras e negras e por isso sei que esse livro continua e não basta em si mesmo. Já estou trabalhando em um novo livro com artistas brasileiras contemporâneas e nele pretendo expandir o foco, dando voz às negras, trans e indígenas. A ideia é construir um espaço coletivo e colaborativo, de forma que as próprias artistas contem suas histórias.

Você incluiu em sua lista de mulheres ofuscadas por seus companheiros a filósofa e ícone feminista Simone Beauvoir e a artista plástica mexicana Frida Khalo. Mas elas não foram mulheres à frente de seu tempo?

As histórias citadas no livro possuem diferentes níveis de “apagamentos”. Algumas são claras e óbvias, como a de Margaret Keane, em que o marido a trancava no quarto para que ela pintasse e ele pudesse assinar suas obras. Outras sofreram “apagamentos” menos óbvios, mas que, a meu ver, não o deixam de ser, como Frida Kahlo e Simone de Beauvoir. Sarte não impediu a carreira de Simone, pois ela era uma mulher livre, independente. Porém até hoje é bastante comum que, ao se falar dela, sua relação com Sartre seja instantaneamente mencionada, como se o grande feito da escritora fosse o relacionamento aberto naquela época e como se isso legitimasse seu discurso feminista. Mais ainda, como se toda a genialidade de Simone Beavouir, seus pensamentos, seus trabalhos estivessem resumidos a essa informação. Suas escolhas pessoais aparecem sempre antes de seu trabalho. Já quando se fala de Sartre, o trabalho dele vem à frente de seu relacionamento com Simone. Por que, então, com ela o tratamento é diferente?

Qual a relevância de se falar sobre esse tema nesse momento?

Feminismo é uma temática relevante a qualquer momento. Sempre foi e continuará sendo por bastante tempo. Porém, estamos em uma nova fase, em que conquistas importantes estão sendo feitas. Claro que ainda há muito que se fazer, como o combate incessante ao machismo, mas estamos avançando, com o feminismo sendo cada vez mais difundido e debatido. E, por isso, como artista mulher, não consigo produzir arte sem me posicionar, sem colocar o contexto em que vivo. Não é possível produzir arte fechando-se os olhos.

Se essas mulheres vivessem hoje, o reconhecimento de seus papeis seria diferente?

Como já comentei, houve evolução, mas a mudança depende de gerações, de estudos, de esforços, de conscientizações, de infinitas coisas. Apesar da melhora, ainda vivemos em um mundo extremamente machista; convivemos com a cultura do estupro, somos apagadas, violentadas e mortas diariamente. A raiz do problema não se encontra isolada no mundo das artes; é um problema político e social que precisa seguir mudando. Provavelmente muitos aspectos das vidas dessas artistas seriam bem diferentes hoje. O que não quer dizer que seus trabalhos seriam mais reconhecidos. Apesar das melhoras, nós, artistas mulheres e nossas obras  sofremos “apagamentos” até hoje. Talvez, hoje Zelda Fitzgerald não fosse morta em um manicômio, mas será que sua obra artística seria levada a sério? Nesse sentido, deixo claro meu posicionamento no epílogo do livro, quando menciono a participação das mulheres em instituições artísticas de São Paulo.

Como entende a evolução do feminismo e nesse sentido, como vê hoje as jovens feministas?

Considero que os feminismos são muitos e suas manifestações de formas diferentes em cada mulher, e isso deve ser respeitado e compreendido.

Acho maravilhoso que tenhamos tantas jovens feministas nos dias de hoje, e que o feminismo esteja em voga, sendo debatido em diferentes locais e frentes. A juventude feminista traz muita esperança para as próximas gerações e talvez um sinal de que haja maior esclarecimento sobre o tema.

Você se identifica com alguma dessas personagens?

Eu me identifico com todas elas. Aliás, esse livro partiu dessa identificação, não de forma direta, até porque sou uma artista do século XXI, que vive num outro contexto. O meu lugar é muito mais confortável do que o delas. Minha identificação vem do fato de conseguir entender mais claramente que o machismo, os enfretamentos e os “apagamentos” de hoje tem origem na mesma raiz que elas enfrentaram. Muito tempo se passou e ainda sofremos consequências desses fenômenos seculares.

 

Kátia Mello

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