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“O racismo estrutural opera dentro da USP”

A Universidade de São Paulo (USP), a maior universidade pública da América Latina, é racista e elitista, segundo a Pesquisa Interações na USP, realizada pelo Escritório USP Mulheres e coordenada pelo professor Gustavo Venturi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O professor Gustavo Venturi, o entrevistado dessa semana da coluna GeledésnoDebate, vai além ao afirmar que os sentimentos declarados pelos alunos da USP demonstram que o racismo estrutural atua também no ambiente universitário.

por Katia Mello

Marcos Santos

A pesquisa, divulgada no dia 25 de junho, ocorreu com a participação da Rede Não Cala da USP, além dos coletivos feministas, negros, indígenas e LGBT e dentro do programa Impacto 10x10x10 do movimento #HeForShe da ONU Mulheres.

Geledés – Como surgiu a ideia de fazer esse estudo e qual dinâmica adotada?

Em 2013, fui procurado por alguns alunos que militavam em coletivos feministas e LGBT, que relataram ações discriminatórias na universidade. Com o apoio dessas pessoas e do Núcleo de Diversidade da USP, começamos a fazer articulações para formular um primeiro questionário. A ideia permaneceu viva até que a professora Heloísa Buarque de Almeida, do Departamento de Antropologia, intensificou o contato com os coletivos. Por fim, em 2015, quando a USP começou a participar da ONU Mulheres, como a única universidade latino-americana, a professora Lilia Blima Schraiber me chamou e eu levei a proposta da pesquisa. Lilia foi substituída pela professora Eva Blay, e nestes últimos dois anos, fizemos a articulação com a Rede Não Cala de professoras e pesquisadores e com coletivos feministas, negros, indígena e LGBT para debater intensamente o conteúdo.   Desde o início, queríamos uma pesquisa mais ampla. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem vários estudos desse tipo nas universidades, mas eles são focados apenas na questão de gênero.

 

Cecilia Bastos/USP imagens

Quais resultados precisaria ser mais analisada?

A pesquisa é abrangente e ainda precisa ser investigada a fundo em seu conjunto e potencialidade. Nesse primeiro módulo, trabalhamos com a percepção dos estudantes. Haverá ainda um segundo  em que pesquisaremos a perspectiva dos funcionários e professores sobre essas relações do cotidiano na USP. Nesse, constatamos que desrespeito e humilhação foram os sentimentos com taxa bastante expressiva, uma vez que dois quintos dos universitários entrevistados passaram por alguma experiência negativa. Em relação à violência moral, 26% dos estudantes declararam ter vivido ao menos uma das violências morais investigadas; 7% sofreram algum tipo de violência sexual e 3% algum tipo de violência física. De todos os entrevistados, 47% dos alunos, ou seja, um em cada dois alunos sofreu algum tipo de violência em sua trajetória na USP.

O que é racismo estrutural? // Silvio Almeida

“As maiores taxas de discriminação no ambiente universitário incidem recorrentemente sobre as mulheres negras, agravando-se mais ainda nas de menor renda.”

Para dois terços dos entrevistados, existe uma percepção de que a USP é racista. Como vê esse índice?

A maioria dos estudantes avalia que a USP insere-se em um ambiente racista, seja ele muito (26%) ou mais ou menos (38%). E mesmo quando apontam que é menos (46%), ela aparece como tão racista ou similar à sociedade brasileira (34%). Mas o que mais me chama a atenção nesse levantamento é o fato de que, ao verificamos a violência sofrida por grupos sociais, notamos que a menor incidência está entre os homens brancos de alta renda e a maior entre as mulheres negras de baixa renda. Ou seja, é possível afirmar que as maiores taxas de discriminação no ambiente universitário incidem recorrentemente sobre as mulheres negras, agravando-se mais ainda nas de menor renda. Isso demonstra que o racismo estrutural opera também dentro da universidade, com mecanismos de discriminação presentes na sociedade brasileira.

Quais ações políticas são esperadas a partir da constatação de racismo e de outras violências, como as contra os grupos LGBT?

A pesquisa começa neste momento a ser divulgada. A partir desses resultados, inclusive do ponto de vista institucional, deverá haver novas respostas e articulações para responder a gravidade do problema. E isso inclui o envolvimento das comunidades de professores e alunos para que se mobilizem em torno dessa questão. A USP já tem vários mecanismos para tratar desses problemas: uma ouvidoria, centros de referência de combate à violência, por iniciativa até de algumas unidades. Temos, por exemplo, a Rede Não Cala e agora o Escritório USP Mulheres que vieram justamente com o intuito de responder a essa realidade negativa.

“Racismo é estrutural e está no plano do inconsciente”

Apesar de a USP ser pública e gratuita, é considerada uma universidade elitista. Como se dá essa percepção?

O problema do elitismo é uma questão muito grave e com ele identificamos dois aspectos. Primeiro, a questão da acessibilidade ou ingresso na universidade. Sabemos que a USP foi a última das universidades no Brasil a adotar uma política de cotas para enfrentar a questão da democratização racial. E agora nos deparamos com um segundo problema: a permanência dos estudantes cotistas. Se a USP não desenvolver um mecanismo que garanta essa permanência, o problema do acesso sozinho não irá dar conta dessa questão. Uma coisa é entrar, a outra é conseguir permanecer e sair de lá com um diploma. Notamos que é alto o número dos alunos que mesmo após ingressarem consideram a universidade elitista a ponto de se sentirem inferiorizados em relação aos próprios colegas.

Racismo no Brasil é “estrutural e institucionalizado”

Existem também aqueles que afirmam se sentirem reprimidos na esfera política. Por que e em que contexto esse fenômeno acontece?

Um terço dos alunos não se sente à vontade para se manifestar livremente. Ou seja, numa universidade pública, livre, os alunos não se sentem à vontade. A USP deveria ser o espaço de reflexão, de livre pensamento, palco de exposição de divergências. Porém, o que apuramos são parcelas significativas que afirmam terem vivido experiências negativas em relação às suas ideias. Esses dados se opõem ao espírito democrático de uma universidade livre. É possível que essa intolerância esteja relacionada aos tempos que vivemos, mas como não temos uma pesquisa anterior de cinco ou dez anos que possa mesurar isso, não dá para saber se é algo que se acentuou nos últimos tempos ou se é uma realidade que já existia.

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Katia Mello, Jornalista, Mestrado em Estudo Africanos pela University of Birmingham (Inglaterra)

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