Rebelião anticolonialista em Lesoto

A população de Lesoto não foi vítima do mesmo tratamento das zonas ocidentais de Africa, que sofreram um brutal despovoamento por inescrupulosos traficantes que levaram filhos desse continente para trabalharem como escravos na América.

A distância do país do centro provedor de escravos, como foram as nações localizadas em regiões costeiras do oceano Atlântico, impediu que os grupos étnicos sotho e nguni, os principais do país, corressem a mesma sorte que outros africanos.

No entanto, essas etnias conheceram outra variante da escravidão que foi o colonialismo, em particular o implantado pelo Reino Unido, a potência dominante na zona, com seu desprezo pelos direitos mais elementares da população autóctone e o saque das riquezas.

O pequeno reino de Lesoto é o menos conhecido no contexto internacional que outras nações africanas. Seu território está completamente rodeado pela África do Sul, e quase uma terceira parte de seu pouco mais de 30 mil quilômetros quadrados encontra-se coberto por montanhas.

HISTÓRIA

Nas altas áreas montanhosas e alguns bancos do rio Orange, um dos dois mais importantes (o outro é o Tugela), se encontraram fósseis e impressões de dinossauros que datam de uns 200 mil anos.

Os primeiros habitantes do atual Lesoto foram as tribos kwena, que buscavam refúgio nas altas cordilheiras diante do avanço de grupos nômades. Nos primeiros anos do século XVIII, os nguni cruzaram a cordilheira Drakensburg e assentaram-se ao longo do rio Caledón.

Cem anos depois, tribos zulus penetraram na região e exterminaram grande parte dos habitantes. Os sobreviventes buscaram refúgio na montanha.

Em 1824 solicitaram a proteção de um cacique local, o rei Moshe (Moshoeshoe I), soberano do povo basotho desde 1818. As montanhas de Thebe Bosia eram a fortaleza principal contra as invasões de zulus, moebeles e matabeles.

Logo o rei teve que conter o ataque dos bôers, colonos de origem holandês que habitavam a província sul-africana de Transvaal. Então surgiram diferenças com o Estado Livre de Orange (na África do Sul), e o chefe do povo basotho buscou a “proteção” britânica da colônia do Cabo.

Em 1871 sem consulta alguma, o Reino Unido acrescentou a Basutolândia (como se chamava naquela época), a seus domínios na colônia do Cabo, ainda que o povo basotho já tinha visto minguar seu território quando os britânicos proclamaram soberania sobre terras adjacentes ao rio Orange.

Posteriormente os britânicos renunciaram seu domínio sobre a parte que correspondia aos bôers e de novo o povo basotho teve que tratar de sobreviver às ambições destes e também dos britânicos.

Depois do falecimento do rei dos basothos, ocupou o trono seu filho. Em seguida o Reino Unido se apoderou diretamente do país, a metrópole adotava as decisões sem ter em conta a opinião dos nativos.

LEVANTAMENTO POPULAR

Os abusos e o trato despótico provocavam a rejeição e o ódio contra a potência colonial e seus

representantes no território. As tropas britânicas atuavam com grande crueldade contra as manifestações de protesto.

Em resposta a tanto atropelo, em 1880 explodiu uma rebelião, quando os britânicos trataram de desarmar o povo. A envergadura da insurreição tomou a Coroa de surpresa, e em Londres as autoridades ordenaram às tropas empregar todos os meios para sufocá-la.

Apesar da superioridade em armamentos e treinamento militar dos britânicos, o levantamento popular prolongou-se durante três anos deixando um saldo considerável de mortos. Em 1884 o território outra vez passou ao controle total de Reino Unido, mas em adiante-o com o status oficial de colônia.

A rebelião do povo basotho foi uma das primeiras contra o domínio de Londres na Africa. Os chefes tribais tornaram-se dirigentes de suas tribos, conforme aos costumes estabelecidos, enquanto um governador britânico exercia a autoridade em todo o país.

NO SÉCULO XX

Com a chegada do novo século, Lesotho estreava uma etapa diferente em sua evolução política. Em 1910 ficou estabelecido com os chefes de tribos o Conselho de Basutolândia, mas a autoridade executiva permaneceu nas mãos do Alto Comissário britânico.

Diante das reclamações da população e o incremento da efervescência política, a Coroa teve que fazer concessões e nas décadas seguintes Lesotho deu passos, ainda que lentos, para uma vida independente. Criaram-se novas estruturas, incluída uma Constituição e um Corpo Legislativo.

As autoridades britânicas retardavam o outorgamento da independência utilizando variados argumentos. A celebração de eleições com o objetivo de estabalecer um autogoverno foi adiada por 12 meses.

Mas a manutenção do colonialismo ficava insustentável no novo cenário que havia sido criado na Africa e no país em particular. Em outubro de 1966, a nação denominada Basutolândia acedeu à independência com o nome nativo de Lesoto, sob um regime de monarquia constitucional.

Na memória das etnias sotho e nguni, a insurreição de 1880 foi um fato heroico que, conquanto não triunfou, mostrou a rebeldia contra a escravidão colonial britânica.

Jornalista cubano especializado em política internacional, foi correspondente em vários países africanos e é colaborador da Prensa Latina.

Fonte: Prensa Latina

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