quarta-feira, julho 6, 2022
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Recriando nossas potencialidades e enfrentando o medo de contar nossa própria história

Por que é tão difícil para nós mulheres negras falarmos sobre o que pensamos, como pensamos e para quem pensamos? Por que nós, capazes intelectualmente de construir, de criticar, de resolver problemas, dentre outras coisas que as mulheres negras fazem com maestria, constantemente somos atemorizadas pelo processo de produção intelectual?

Eu, Wézya, ocasionalmente fico me perguntando do porquê escrevo  ou mais ultimamente  não escrevo com tanta frequência. Fico relembrando de como a escrita pra mim sempre esteve nesse lugar de subterfúgio, onde na infância/adolescência me utilizava da escrita (e também da leitura desenfreada) para criar histórias e fugir das perversidades dos colegas racistas do colégio. É impressionante que revisitando essas memórias eu me dei conta de como o refúgio que eu encontrava na escrita, era uma forma de não me sentir tão muda, tal qual Maya Angelou ao ter perdido sua voz na infância. Eu tinha aspirações de ser uma escritora bem famosa, que minhas histórias de ficção e fantasia, gênero literário que eu mais consumia à época, seriam lidas por todo mundo algum dia, e eu seria a escritora de algum best-seller mundial de romance.

Recentemente eu tenho me questionado do motivo real de não escrever mais com essas aspirações um tanto quanto ambiciosas, que infantilidades e romantismos à parte, faziam com que eu me sentisse tão dona de mim mesma. O que acontece é que embora eu tenha acumulado experiências acadêmicas e não acadêmicas ao longo desses anos, e tenha conquistado títulos que não são comuns de serem encontrados numa população não branca do nosso país, o medo ainda prepondera sobre minhas ações. Bem como prepondera para diversas mulheres negras nesse solo em que estamos. O medo de não ter conhecimento suficiente, de não ter uma “boa” escrita, de não ter o que falar/escrever que seja algo relevante. Afinal, que audácia a minha em querer escrever um texto sobre o poder da escrita num país onde temos Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo. “Ah, talvez eu deva deixar pra escrever algo amanhã ou depois, quando tiver um conteúdo mais concreto em mente…”. Esse amanhã se transforma em outros dias, numa próxima semana, num outro mês, e é dessa maneira que todas as minhas inseguranças vão crescendo, ganhando espaço e assim, mais uma vez, eu não escrevo.

Veja bem, esse não é um exemplo nem muito abstrato, porque esse próprio texto aqui demorou mais de uma semana pra ficar pronto, e o motivo é que eu sempre o refazia, apagando o que achava desnecessário até o momento que desistia de fazê-lo. E foram várias desistências, mais do que eu gostaria de assumir. Minha irmã Carla Akotirene sempre fala que é necessário uma descolonização do nosso olhar que, via de regra, busca sempre comparar nossas ações (nossas escritas, por exemplo) com a do ser hegemônico branco, e essa é uma reflexão que eu tento fazer diariamente na minha busca eterna de quem sou eu. Por que acreditamos que nosso trabalho nunca é bom o suficiente? O do outro é bom, mas o nosso, precisa de aperfeiçoamento… Essa descrença e insegurança é fruto do racismo estrutural dentro do sistema colonial de poder ao qual fomos cruelmente subalternizados. Afinal, um povo que desacredita diariamente de si e de suas habilidades, juntamente com a falta de reconhecimento pelos trabalhos que realizam com o triplo do esforço, é um povo sem esperança. E um povo sem esperança, não consegue se organizar e construir ações para o futuro de sua raça.

 Eu, Rute, posso contar minha experiência do medo de escrever coisas inquietantes sobre mim e sobre minhas irmãs em dois momentos. O primeiro momento, o medo estava envolvido no escopo do desconhecimento. Eu era vítima de todo um processo violento de invisibilidade da minha existência, porém, não sabia dar nome aquilo, só sentia. Por isso, como eu poderia escrever algo sem nome? Se eu não sabia exatamente o que era, apenas sentia? O árduo processo que muitas de nós passamos através da máquina branca colonial acadêmica, às vezes nos permite enxergar questões e encontrar o nome das muitas angústias vividas. Graças a mulheres que caminharam comigo durante esse período, pude entender que essas questões estavam relacionadas a minha condição de existência: mulher e negra. Porém, ao identificar essa existência dentro de um projeto colonial, por vezes, escondi minha voz citando os olhares dos outros. Esse foi o segundo momento, utilizar as narrativas alheias para me referir aquelas questões, contudo, sem usar a minha própria voz.

 Às vezes antes de dormir, compartilhamos com o travesseiro o nosso anseio de conquistar o mundo, de ser agente de transformação social em lugares que realmente nos inquietam, chegamos a sonhar com isso. Mas ao acordar, é como se a luz do dia e o retomar da rotina, enfraquecesse todos os nossos sonhos de ir além. Questionamentos a respeito da nossa capacidade de falar sobre coisas que entendemos refreiam a coragem de expor, de escrever e de contar a nossa própria história. 

Sabemos que não estamos compartilhando algo inédito aqui. Entendemos perfeitamente que muitas mulheres, principalmente as mulheres negras, enfrentam esse medo. Queremos conquistar, queremos mudar, queremos protagonizar, mas ao mesmo tempo, não queremos ser julgadas. Julgadas como histéricas, desnecessárias, ou até mesmo, muito ambiciosas, fora de contexto, utópicas, dentre outros adjetivos paralisantes que suprimem o nosso senso criativo e nossa vontade de ir além. E a escrita nos proporciona o avanço por esses caminhos. Porém, exatamente por nos fazer avançar, o apagamento epistêmico com o que já se tem produzido ou o que pode tornar-se produção intelectual é reprimido pela lógica da colonialidade do saber, que recai com maior impacto sobre as mulheres negras do sul global.  

 “Ai Wézya e Rute, mas por que falar sobre escrita em meio a uma guerra racial no cenário de pandemia em que estamos? Nós precisamos é de reação!” 

E quem foi que disse que escrita não é uma forma de reação? Ou melhor, de ação? A escrita é uma maneira de perpetuar memórias, e embora nosso povo preto tenha diversos caminhos orientados pela oralidade, a escrita é também um desses caminhos. Nesse cenário mundial que estamos presenciando, e sobretudo o cenário das Américas, escrever sobre nossas vivências nesse período é uma forma não só de informar nossos futuros legados, mas também de nos mantermos vivos.

Esperamos que esse texto te ajude a compreender que a escrita, além de ser uma disputa narrativa de poder, é poder por si próprio. É uma das manifestações de poder por vezes subestimada e onde poucas vezes nós, negras e negros, nos sentimos seguros para interagir. A escrita vai além do local de subterfúgio e inclusive, não depende das normas gramaticais que alguns de nós privilegiados tivemos acesso. Sabemos que tantas outras mulheres negras e indígenas tem romances, contos e poesias bem mais poderosos e profundos para nossa mente, que conversam com nosso coração e espírito de uma maneira  quase que inexplicável. E é também pensando na herança deixada por essas mulheres que hoje, humildemente, tínhamos que vir escrever esse texto aqui só pra lembrar a você de fazer o mesmo: escreva e se mantenha viva.

 Comprometa-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades. 


[1] Liderança feminina negra no programa Marielle Franco pelo Fundo Baobá. Advogada, graduada em Direito e mestranda em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes (Bolsista CAPES). Pesquisadora científica nas áreas de Direitos Humanos, Criminologia e relações raciais.

[2] Advogada. Mestre em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes. Bolsista CAPES/Fapitec. Integrante do Grupo de Pesquisa Direitos Humanos e Novas Tecnologias/CNPq. Membro da Rede Sul-Americana de Migrações Ambientais/ RESAMA. Atuante na Assessoria Jurídica do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC).

[3] SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. LeBooks Editora, 2019.

[4] ANGELOU, Maya. Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Bauru, SP: Astral Cultural, 2018.

[5] AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade. Belo Horizonte (MG): Letramento: Justificando, 2018.


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