Regras fascistas para convívio social com a população em situação de rua

Bater em “puta” e “bicha” pode. Assim como em “índio sujo” e “mendigo”, uma vez que não são seres humanos iguais a você a mim, não é mesmo? Afinal de contas, o que eles estavam fazendo no lugar errado e na hora errada? Claramente pedindo para apanhar! Quantos outros a gente vai ter que queimar para esse povo aprender a não ignorar os padrões por nós estabelecidos?

Por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto

Mas é tanta gente defendendo medidas de limpeza social na internet ou clamando por isso na TV que os “homens e mulheres de bem” ficam perdidos em meio a tantas opções. E isso é um absurdo. Completo.

Por isso, para colocar ordem nessa zorra, estou atualizando as “Regras fascistas para convívio social com a população em situação de rua” – um guia fácil para uma cidade melhor:

1) É permitida a utilização de fogo com o objetivo de limpar áreas públicas de pessoas em situação de rua.

1.1) Considerando que o álcool vendido no varejo não queima como o de antigamente, recomenda-se o uso de gasolina, etanol, diesel ou querosene.

1.2) O uso do fogo como instrumento de limpeza social deve se atentar para o risco de atingir veículos automotores em vias públicas. Nesse caso, os infratores serão responsabilizados com todo o rigor da lei.

2) Áreas cobertas em viadutos, pontes, túneis ou quaisquer locais públicos que possam acolher população em situação de rua devem ser preenchidas com concreto ou gradeadas, evitando assim a criação de nichos ou casulos de maltrapilhos prontos para assaltar o cidadão de bem.

2.1) Em caso de uso de concreto para preencher esses espaços, lembre-se que a face superiora da concretagem não deve ficar paralela à rua, mas com inclinação suficiente para que um corpo sem-teto nela estendido e prostrado de cansaço e sono role feito um pacote de carne velha até o chão.

2.2) Outra opção, caso seja impossível uma inclinação acentuada, é o uso de floreiras, cacos de vidro, lanças de metal ou cactos. É menos discreto, mas tem o mesmo resultado.

Cactos plantados, em Salvador, embaixo de viadutos. Eles espantam pessoas em situação de rua (Fernando Vivas/A Tarde)
Cactos plantados, em Salvador, embaixo de viadutos. Eles espantam pessoas em situação de rua (Fernando Vivas/A Tarde)

3) Prédios novos devem ser construídos sem marquises para impossibilitar o acúmulo de sem-teto ou de supostos marginais em noites chuvosas.

3.1) Caso seja impossível por determinações estéticas do arquiteto, a alternativa é murar o edifício ou cercá-lo de grades ou placas de acrílico. A colocação de seguranças armados é outra possibilidade, caso haja recursos para tanto.

3.2) Em caso de prédios mais antigos, uma saída encontrada por um edifício na região central de São Paulo e que pode ser tomada como modelo é a colocação de uma mangueira furada no texto, emulando a função de sprinklers. Acionada de tempos em tempos, expulsa desocupados e usuários de drogas. Além disso, como deixa o chão da calçada constantemente molhado, espanta também possíveis moradores de rua que queiram tirar uma soneca por lá.

Grade que chegou a ser instalada em Porto Alegre para evitar população em situação de rua (Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21)
Grade que chegou a ser instalada em Porto Alegre para evitar população em situação de rua (Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21)

4) Bancos de praça devem receber estruturas que os separem em três ou quatro assentos independentes. Apesar disso impossibilitar a vida de casais apaixonados ou de reencontros de amigos distantes, fará com que sem-teto não durmam nesses aparelhos públicos, atrapalhando a real função de um banco, que é enfeitar a praça.

Grade que chegou a ser instalada em Porto Alegre para evitar população em situação de rua (Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21)
Grade que chegou a ser instalada em Porto Alegre para evitar população em situação de rua (Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21)

5) Em regiões com alta incidência de seres indesejáveis, recomenda-se o avanço de grades e muros para além do limite registrado na prefeitura, diminuindo ao máximo o tamanho da calçada. Como é uma questão de segurança, um fiscal municipal que discordar da situação pode “se fazer entender” da importância de manter esse avanço irregular através de um mimo.

6) Cloro deve ser lançado nos locais de permanência de sem-teto, principalmente nas noites frias, para garantir que eles se espalhem. Caso não seja suficiente, pode ser necessária a utilização de produtos químicos mais fortes vendidos em lojas do ramo, como vem fazendo algumas lojas no Centro da cidade. A sugestão é o uso de um aspersor conforme o item 2.2, mas instalado no chão.

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7) Apoiar propostas legislativas, como a retirada compulsória de seres indesejáveis dos espaços públicos ou mesmo a flexibilização da legislação vigente, permitindo ações preventivas de uso da força contra mendigos que se aproximem de automóveis de cidadãos de bem em semáforos fechados.

7.1) Uma revisão das cláusulas pétreas na Constituição, relacionadas a direitos fundamentais e que atrapalham o aprofundamento da limpeza social na cidade, também se faz preciso.

8) Caso seja questionado pela aplicação de qualquer uma das medidas acima apresentadas, responda com a argumentação desenvolvida há décadas pela elite da cidade e que se mantém atual e cheia de significado de como ela vê o papel do indivíduo e as responsabilidades do Estado: “Tá com dó? Leva para casa”.

Em tempo: Agora, me digam: não é assustador que parte das pessoas que lerão este post irá considerar tudo isso boa ideia?

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