Relacionamentos abusivos lésbicos

Alguns temas são difíceis de serem tratados. A verdade é que tentei algumas vezes rascunhar esse texto e em todas elas fiquei insatisfeita. Amor, sexo, relacionamentos são palavrinhas que nos perseguem e muito ocupam nosso pensamento. Mas ocupam de uma forma menos gostosa quando a combinação das palavras “relacionamento abusivo” vem logo depois dessas que foram supracitadas.

POR Fernanda Kalianny / Ilustra: Helena Zelic, do Revista Capitolina

Ilustra: Helena Zelic

Pode ser estranho escrever sobre um tema desses em primeira pessoa, poderia tentar me afastar um pouco e falar sem me colocar. Mas é fato que quando expomos os sentimentos de forma menos distanciada, às vezes podemos ajudar de um modo mais eficiente quem está vivendo algo parecido. Então, vamos lá.

Há alguns meses fechei a porta da minha vida para uma pessoa. E foi difícil fechá-la. Difícil porque ela era minha primeira namorada e junto desse título havia muita idealização, envolvimento e paixão. Nós éramos militantes do movimento feminista e foi por meio dele que nos conhecemos.

Tudo parecia muito lindo, mas aos poucos minha paz foi indo embora. Olhar no espelho e não reconhecer meus olhos, longas noites de choro e a completa ausência de empatia, consideração ou sororidade eram sintomas de que nada estava bem.

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É certo que muito se tem dito sobre relações abusivas – ainda que não o suficiente –, mas há algo nessa história que é um pouco diferente do que estamos acostumadas a ler. A diferença é que se trata de uma relação entre duas mulheres. Sim. Duas mulheres. E o acréscimo: duas mulheres do movimento feminista.

Talvez esse tenha sido um dos motivos para desacreditar no que eu estava vivendo. Notar que vivia uma relação assim com uma companheira do movimento era de algum modo deixar cair por terra a ideia de que ali, dentro daquele espaço, eu estava salva. Salva do machismo, das relações que torturam, dos sorrisos que são silenciados. Mas estava acontecendo.

Traições, mentiras, dissimulações… tudo aquilo que vemos sendo retratado em relações heterossexuais podem vir a acontecer numa relação entre lésbicas. É chocante notar isso, choca porque de algum modo temos a ideia de que entre duas mulheres há mais espaço para o desenvolvimento de uma relação horizontal, que a violência não chegará ali como chega em outras relações. E pode ser que de fato exista esse espaço, mas não é uma regra e nem sempre irá acontecer.

Após três meses vivenciando mentiras e passando por diversas crises de ansiedade, percebi que minha noção da realidade estava sendo alterada. Alterada no sentido de duvidar de mim mesma e das minhas certezas. Duvidar do que estava bem na frente dos meus olhos. Lidar com meias palavras ou com uma completa ausência de disposição para tratar o que eu estava sentindo era uma das sensações que mais me torturava. E torturava porque não esperaria nunca receber esse tipo de tratamento de onde estava vindo.

Além disso, levar a sério que estava vivendo uma relação desse tipo me dava a sensação que eu me afastava da figura feminista que queria ser. Estudar gênero, sexualidade, ter feito um trabalho recente sobre gênero e violência parecia que me salvaria de uma relação desse tipo. Mas não salvou. Eu precisava encarar que não estava a salvo nem naquele ambiente militante, feminista e ao mesmo tempo que saber bastante ou acumular leituras não me salvava de viver essas relações. E foi difícil, mas aconteceu.

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Eu não consegui sozinha. Precisei de ajuda. Foi preciso muito colo, carinho, ouvidos das amigas, das irmãs, dos meus pais, de colegas da faculdade, da psicóloga, foi necessário um mundo de pessoas para refazer as minhas bases e me levantar de onde eu estava. Mas passar por tudo isso me ensinou muitas lições. Na verdade, a função desse texto é dizer o que eu aprendi, porque talvez sirva também de aprendizado para quem está lendo:

Em primeiro lugar, eu entendi que há sempre espaço para violência em qualquer relação amorosa que podemos viver. Não importa quem compõe a relação, se são duas mulheres, dois homens, três pessoas ou quatro. A violência pode estar em qualquer lugar e não podemos abrir espaço para que ela se instale. Também não interessa o currículo político de nossas/os parceiras/os amorosos, ser militante de qualquer movimento social não nos resguarda de atitudes que tanto criticamos e que estão presentes no senso comum.

Em segundo lugar, e talvez o que foi mais difícil de entender, é que ter vivido uma relação abusiva não nos faz menos feminista. A realidade é sempre mais complexa do que as páginas dos livros ou as formações feministas. Quanto menos deixarmos acontecimentos como esse mancharem a ideia que temos do feminismo e a possibilidade de construirmos uma relação horizontal com outra mulher – ou mesmo com um homem – melhor será para nós mesmas.

Em terceiro lugar, e não menos importante, é que saindo do que está nas nossas mãos individualmente, e pensando nos movimentos feministas como um todo, é muito importante que se passe a questionar e levar a sério as denúncias de violência feitas de uma mulher sobre outra. É que não é chocante apenas para quem vive notar que uma mulher pode reproduzir o machismo e se beneficiar dele de algum modo numa relação com outra mulher, reproduzindo os padrões das relações abusivas que se dão entre heterossexuais; é difícil também para quem está dentro do movimento lidar com essas questões. Mas não se pode mais ignorar. É necessário apurar, levar a sério, não calar. Porque combater atitudes como essa faz parte da eliminação de acontecimentos desse tipo.

Por fim, ainda que possamos sentir dores e que dentro da gente o mundo pareça cinza, a verdade é que precisamos fugir dessas relações. Saber que não morreremos de amor, que o tempo ameniza as dores e que no fim, por mais clichê que seja, tudo passa pode ajudar a encarar e a sair de relações desse tipo. E ao encarar o mundo levemente pode voltar a ganhar cores. Nada mais gratificante que olhar-se no espelho e reconhecer o próprio olhar, as vontades e os desejos ganhando novos contornos. Pode ser que dê medo, mas vivenciar o novo e renascer é uma das melhores possibilidades de nossas vidas.

Então, a mensagem não é que nos amedrontemos e nos fechemos para outras relações. É exatamente o contrário. A busca pelo amor não precisa se encerrar, ela só precisa se combinar com autocuidado, autoproteção e o respeito à própria sensibilidade e aos alarmes que podem soar quando estamos em uma relação desse tipo.

 

Sobre Fernanda Kalianny

[Colaboradora de Relacionamentos & Sexo] Fernanda Kalianny Martins Sousa , 24 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa mestrado em Antropologia Social na mesma instituição. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será “amor da cabeça aos pés”. O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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