segunda-feira, setembro 26, 2022

Respeito

São Roque é celebrado em 16 de agosto, porque foi nesta data que morreu, em 1327, o jovem generoso e capaz de curar doentes com o toque das mãos, mais tarde santificado. Em cultos afro-brasileiros, São Roque é associado a Omolu (ou Obaluaê), orixá das doenças e da cura.

A divindade é celebrada nos terreiros numa festa chamada Olubajé, que se realiza no mesmo agosto consagrado a Roque. Pipocas são as flores de Obaluaê, usadas num banho ritualístico para proteção e desejo de saúde dos adeptos e simpatizantes das religiões de matriz africana. Para os filhos de umbanda e candomblé, este mês é tempo de silêncio, devoção, contrição.

Por isso, é tão revoltante quanto desolador testemunhar o recrudescimento da intolerância contra religiões afro-ameríndias como estratégia político-eleitoral. E num mês sagrado. Apontamos o racismo religioso, porque os ataques, as provocações e a demonização das divindades e ritos partem de fundamentalistas evangélicos contra tradições que ancestrais africanos escravizados legaram aos seus descendentes.

Orixás não são demônios. Essa figura, aliás, sequer existe nos cultos afros. Banho de pipoca não é ritual maligno. Causa indignação, perplexidade e tristeza ver gente que, em nome de Deus e por oportunismo político, ataca, persegue e mente sobre a fé alheia. Isso autoriza e alimenta a violência.

As religiões de matriz africana são perseguidas desde que o Brasil é Brasil. Estão no topo das denúncias encaminhadas ao Disque 100. A Constituição garante a liberdade de culto a todas as brasileiras, a todos os brasileiros, sejam católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judeus, budistas, muçulmanos…

O Brasil tem agendas urgentes na corrida eleitoral de 2022: fome, desemprego, inflação, queda de renda, perda de valor do salário mínimo, falta de vacinas e medicamentos, atraso na aprendizagem no pós-pandemia, desmatamento da Amazônia, escassez de moradia, ameaça à democracia, autoritarismo galopante, violência urbana. O que não temos – nem podemos ter – é guerra santa. Exigimos respeito. À nossa fé. Ao Brasil.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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