Ricos recursos naturais da África são alvos da China

Mas os investimentos chineses não salvam o Continente Negro

Morogoyo (Tanzânia) – Os gigantescos fundos de investimentos chineses abriram suas torneiras e canalizam bilhões de dólares neste grande continente esquecido pelo Ocidente e suas instituições econômicas, políticas e sociais. Mas, mesmo assim, quanto dos gigantescos volumes de recursos investidos na África com objetivo de proporcionarem acesso às ricas em recursos naturais das periferias chega às simples populações dos países africanos?

A revista alemã Der Spiegel escreveu: “Tudo está como sempre: Inúmeras casas prontas para desabar e portas corroídas, ruas de terra batida, cheias de buracos, barcos de pesca apodrecendo à beira mar e, em meio de tudo isso uma fortaleza de pedra, construída pelos colonizadores alemães em Bagamoyo, uma pequena e tranquila cidade à beira mar na Tanzânia”.

A cidade de Bagamoyo foi a capital da África Oriental alemã de 1888 até 1891. “Nada será como antes em Bagamoyo, porque agora os novos donos do mundo, os chineses, estão chegando”, diz Mari Saba, uma sexagenária jornalista e ativista que promove a integração da cidade na lista dos Monumentos da Civilização Mundial da Unesco. Mas, ao que tudo indica, isto não será mais possível se a cidade de Bagamoyo for engolida pelo tsunami dos investimentos chineses e do crescimento.

Há alguns meses, Bagamoyo encontrou-se no epicentro das noticias empresariais internacionais, quando mais de 400 jornais do mundo inteiro escreveram que “a China investiu cerca de US$ 9 bilhões para construção de um porto a 15 quilômetros do sul da cidade, além de planejar a criação de uma Zona Econômica Especial atrás do porto”. Os investidores chineses estão divulgando que suas obras só farão bem a este pobre país da África Oriental.

Carvão, ferro, petróleo

“A China, a superpotência econômica da Ásia, está faminta por fontes de recursos naturais, energia, alimentos e compras para seus produtos. E a África pode proporcionar tudo isso: Cerca de 40% dos recursos naturais mundiais, 60% de terra cultivável, 1 bilhão de habitantes com crescente poder aquisitivo e um poderoso exército de trabalhadores de salários baixos”, escreve Der Spiegel.

A Tanzânia, especificamente, é de extraordinária importância para os investimentos chineses na África. Em 2011, uma grande empresa chinesa investiu US$ 3 bilhões em poços de carvão e extração de minério de ferro. Também, a China já colocou em sua alça de mira as ricas reservas de gás natural situadas ao largo das costas da Tanzânia, e para isso a Empresa Nacional de Petróleo da China está construindo um gasoduto com extensão de 535 quilômetros desde Mtvara, no sudeste da Tanzânia, até o porto de Dar es Salaam.

Quando a construção do gasoduto for concluída, os grandes navios-tanques ancorados no novo porto de Bagamoyo carregarão o gás natural liquefeito, rumo ao Extremo Oriente, à China. Do mesmo porto serão exportados minérios de ferro e produtos agrícolas, principalmente, grãos produzidos aqui, na Tanzânia, mas também na Zâmbia e no Congo.

Base chinesa

O próprio Governo da China está planejando construir aqui, na Tanzânia, uma base para sua Marinha de Guerra, a fim de proteger seus interesses na áreas do Oceano Índico. “A história repete-se. No passado exportava-se de Bagamoyo escravos. Hoje, são os recursos naturais”, avalia a Saba.

Calcula-se que na África Subsaariana funcionam neste momento mais de 2 mil empresas chinesas, públicas e privadas, empregando cerca de 1 milhão de funcionários chineses. O think tank norte-americano Center For Global Development (Centro para o Desenvolvimento Mundial) estima que entre os anos de 2001 e de 2011 o governo chinês ofereceu cerca de US$ 90 milhões em ajuda à África, financiando cerca de 1.673 obras.

Lamido Sanusi, ex-presidente do Banco Central da Nigéria, comentou que “atrás das ações da China no continente africano dissimula-se um estigma de colonialismo”. Já Adama Gaye, um destacado intelectual de Senegal, adverte sobre uma “segunda onda de conquistas e conquistadores no continente” e acusa os chineses de “cultivarem uma cultura que lembra apartheid”.

Godwun Nielo, geólogo e consultor do Governo da Tanzânia, sentencia caracteristicamente: “Uma pequena gangue enriquece, enquanto a massa do povo permanece pobre. É a maldição do bem-estar que origina-se dos recursos naturais”.

Idalio Soares

Fonte: Monitor Mercantil

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