Vinte e cinco anos após o genocídio no Ruanda, o fotolivro Rwandan Daughters revela os rostos de 80 mães violadas, 80 filhas “indesejadas” e, implicitamente, o espectro de 160 corações partidos em busca de aceitação. “O estigma ainda está demasiado presente”, diz o fotógrafo Olaf Heine.


As mulheres que foram violadas estão “profundamente traumatizadas”, afirma o fotógrafo. “As mães vivem com vergonha, caíram em desgraça”, explica. “Os seus corpos tornaram-se o campo de batalha desses homens. A maioria não desejava esses filhos e tentou, de diversas formas, por iniciativa própria, colocar um termo à gravidez ou então matar a criança logo após o parto. Quantas conseguiram?” Não há registo. Olaf sabe, no entanto, que muitas das mulheres que decidiram ser mães dessas crianças “nunca mais refizeram as suas vidas, nunca mais encontraram um parceiro”: “Criaram os seus filhos sozinhas depois de terem perdido muitos dos seus familiares no genocídio”. Devido à carência económica, quase nenhum dos descendentes teve oportunidade de estudar, motivo por que hoje mães e filhos se mantêm na base da estrutura económica do Ruanda. “São, hoje, vítimas do estigma da pobreza e do estigma associado ao acontecimento traumático que toldou as suas vidas.”

“Não queremos que o nosso futuro seja determinado pelo passado das nossas mães”, disseram todos os membros de segunda geração que Olaf conheceu. Esse desejo está ainda longe de se tornar realidade. “No Ruanda, quando se vive numa pequena comunidade, todos os membros conhecem o percurso uns dos outros. Se fores o filho de um violador ou de um assassino, nada poderás fazer. Estarás para sempre marcado, serás sempre estigmatizado.” Olaf refere que há mulheres a viver na mesma aldeia que os homens que as violaram, que não conheceram punição após os crimes. “São, em alguns casos, vizinhos”, garante. A violência psicológica inerente a essa convivência é vista por Olaf como “perturbadora”.
Todas as jovens mulheres que figuram nos retratos são fruto de violação e todas lidam com a questão de forma diferente, garante o fotógrafo. “Há muitas jovens mulheres a quem as mães escondem esse facto, por exemplo. Dizem que o pai morreu ou que fugiu. Há outras filhas, no entanto, que sabem ser fruto de violência sexual, que consideram ter tido uma infância miserável e que, de certo modo, culpam as mães por isso; outras que consideram as suas mães heroínas. Cada relação entre mãe e filha é única e particular.”
Rwandan Daughters tem um cunho feminista que Olaf Heine não tenta esconder. “Choca-me que, em ambiente de guerra, sejam sobretudo os homens quem combate e quem orquestra, de forma sistemática e paralela, formas violência sobre mulheres. Numa guerra, os homens decidem e destroem, as mulheres reconstroem.”