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SALVADOR: Semana da Cultura do Benin reafirma laços entre o país africano e a Bahia

Fonte: O que a Bahia quer Saber –

Esta semana, os eventos relacionados ao Dia da Consciência Negra (sexta-feira) pululam por todos os bairros da cidade. Mas um deles chama a atenção, a Semana da Cultura do Benin na Bahia, pela atitude diferenciada de colocar uma lente de aumento no pequeno país da África Ocidental, sempre citado como referencial para entender a nossa africanidade.

 

Iniciativa da Fundação Cultural Palmares/MinC, o projeto promove uma série de atividades (palestras, shows, oficinas e mostras) de quinta a domingo no Pelourinho e arredores. O maior destaque é a exposição Benin está vivo ainda lá – Ancestralidade e contemporaneidade, a primeira atividade do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, na Rua do Tesouro.

Fachada da Casa do Benin, no Pelourinho

Toda a programação está alicerçada na relação Bahia-Benin, que historicamente vem interessando os estudiosos. Um dos mais empenhados em chamar a atenção para os vínculos entre os dois povos foi o etnólogo francês-baiano Pierre Verger (1902-1996), que passou 20 anos esmiuçando o assunto e defendeu tese em 1966 na Sorbonne.

Lançada em livro em 1987 pela Currupio, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos inspirou outros estudos e iniciativas. Em Salvador, a mais importante foi a Casa do Benin, no Pelourinho, que tem projeto da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992). “As pessoas chegam aqui e perguntam sempre por que o Benin?”, conta a pedagoga Iray Galrão, responsável pela parte de intercâmbio, educação e divulgação do espaço. E Iray, que também é professora de história da África, tem prazer em explicar. “O Benin fica na costa da Àfrica Ocidental, de onde veio a maioria dos escravos para Salvador e recôncavo baiano”, contextualiza.

 

Ela lembra, no entanto, que a região era muito maior, formada pelos reinos do Benin (atual Nigéria), Oyó e Daomé (atual Benin): “Com o fim do tráfico e a abolição, muitos resolveram voltar”.

 

Agudas


Os retornados, que “não eram mais nem africanos nem brasileiros”, como destaca Iray, se estabeleceram na cidade de Porto Novo e são chamados de agudas. A viagem de volta, descrita por alguns estudiosos, ganhou até uma versão ficcional no livro A casa da água (Bertrand Brasil), do mineiro Antonio Olinto, que conta a saga de uma dessas famílias.

Os agudas levaram para o Benin traços da afro-baianidade como a Lavagem do Bonfim, a burrinha, o culto a Cosme e Damião e o Carnaval, até hoje festejados lá. E também influenciaram na arquitetura local, com casas de inspiração luso-baianas.

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Emanoel Araújo posa ao lado da foto de Meste Didi

 

Os agudas já foram alvo de estudo do fotógrafo e antropólogo Milton Guran, publicado no livro Agudas: Os brasileiros do Benin ( Nova Fronteira). Guran participa da conferência de abertura da Semana do Benin, quinta-feira, às 9h, no Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba.

 

Cópias das fotos feitas por Guran foram doadas à Casa do Benin e podem ser vistas numa exposição que será montada no primeiro piso. Lá também os visitantes podem conferir exemplos do artesanato beninense, feito em pedra, palha, ferro e madeira. E, também, belos tecidos. “Nossa expectativa é que este evento divulgue melhor e dê mais visibilidade a nosso trabalho”, torce Luís Carlos Martins de Oliveira, subgerente da Casa do Benin.

 

Ele acrescenta que a instituição tem dois tipos básicos de público: turistas e estudantes de arquitetura – por conta do trabalho primoroso de Lina. Mas os baianos em geral, lamenta Luís Carlos, desconhecem o espaço, que promove palestras, cursos e lançamentos. “Funcionamos como um espaço cultural”, resume, anunciando a assinatura de um acordo com o Senac- BA para realizar um curso de culinária.

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O fotógrafo Charles Placide ao lado dos seus trabalhos:
visão contemporânea sobre o vodu

Laços


Curador da mostra Benin está vivo ainda lá, o artista plástico baiano Emanoel Araújo esteve no Benin em 2007 para selecionar as peças e conhecer seus autores pessoalmente. “Foi a mais sentimental das viagens da minha vida”, anotou no texto de apresentação do conjunto, acrescentando que fez uma ponte interminável entre passado e presente. Emanoel diz que reconheceu a Bahia muitas vezes no Benin: “Belas gentes com a mesma doçura de pele de veludo tingida de diferentes matizes de negros. Cidades de casas desarrumadas, de ruas desalinhadas, de arquitetura prestes a se transformar”.

 

Para ele, a movimentação frenética do povo nas ruas, nos mercados, nas esquinas e nos cruzamentos ruidosos, além de mulheres vendedoras de todo tipo de coisa é pura cidade Salvador. ” Tudo é muito parecido com a Bahia, mas sem aqueles estereótipos ruins que o baiano foi adquirindo”, cutuca.

 

Museu da cultura afro-brasileira abre suas portas

O ritmo é frenético no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), localizado na Rua do Tesouro, Centro Histórico. Dezenas de operários trabalham no casarão para deixá-lo pronto para receber os visitantes da exposição Benin está vivo ainda lá – Ancestralidade e Contemporaneidade, que será aberta quinta, às 19h, para convidados.

 

Deixar pronto é maneira de falar, pois o museu só tem previsão de inauguração mesmo em 2010. “A ideia é chamar a atenção da comunidade para que ela possa apoiar a instalação do Muncab”, afirma o escritor José Carlos Capinan, presidente da Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira (Amafro), instituição que administrará o espaço. “Este é o primeiro grande museu nacional da cultura afro-brasileira”, pontua.

 

No total, informa Capinan, o projeto ocupará três prédios. Por enquanto, o primeiro, ainda bastante cru, recebe a rica exposição, que teve custo de R$715 milhões. No total, são 11 artistas do Benin, que representam da arte tradicional à contemporânea. Há ainda fotos atuais do Benin, feitas pelo curador Emanoel Araújo, e da década de 1960, de Pierre Verger. Completa o conjunto uma obra do artista- sacerdote baiano Mestre Didi, 92 anos, homenageado na exposição. A visitação, gratuita, começa sexta-feira e segue até 3 de janeiro, de terça a domingo, das 10h às 17h.

 

Uma semana cultural rica em atividades

Com programação gratuita, a Semana de Cultura do Benin na Bahia movimenta a cidade com várias atividades, de quinta a domingo. A primeira delas é o seminário Identificando o Benin na Bahia, que começa às 9h no Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba, no Largo Dois de Julho, e reune estudiosos sobre o país africano.

 

Na sexta, acontece uma missa especial às 11h na Igreja do Bonfim, com participação do Coro do TCA. Neste dia também têm início as oficinas de culinária (Casa do Benin) e dança das Guèlèdès (Espaço Cultural da Barroquinha). Ambas, com profissionais do Benin. À noite, o destaque é o Circuito Benin na Bahia, no Largo do Pelourinho, a partir das 18h. A primeira atração é o Balé Nacional do Benin, seguido por shows dos grupos Gêge Nagô e Afrobatá, do cantor Jau e de Margareth Menezes, que fará uma homenagem a Neguinho do Samba, falecido há duas semanas.

 

No sábado, o Balé Nacional do Benin ministra workshop apenas para companhias de dança, no Teatro Miguel Santana. Na segunda noite do Circuito Benin na Bahia, no mesmo local e horário, temos Bourian (Benin), Barlavento, Juliana Ribeiro. E ainda a Rave Benin – Eletrocooperativa, no Teatro Miguel Santana.

 

Domingo, último dia da programação, há uma conferência para iniciados no Terreiro no Bogum e uma visita ao Ilê Axé Ôpô Afonjá. Na parte festiva, tem o show Olodum recebe o Benin no pôr-do-sol, congraçamento entre todos os artistas baianos e o Balé do Benin no palco. Para se inscrever nas oficinas os interessados devem acessar o site da fundação Palmares a partir desta segunda-feira (16) (www.palmares.gov.br).

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