segunda-feira, setembro 20, 2021
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Samba branco, seu racismo e seu compasso manco

Não quero a crioula no samba
Empurra a crioula pra lá
Porque se ela chega mais perto me põe no chinelo
Eu não vou mais sambar
Não quero essa nega gingando
Empurra a crioula pra lá
O samba vai ficando branco

E fico me perguntando se isso vai funcionar
Ladeiras eu não subi não tive o mar pelo olhar
Mas, tenho Cartola, Vinícius, Ari, Pixinguinha, e Noel na vitrola
Samba branco, samba sem preconceito
Samba branco de branco mas deixa quebrar
Samba branco, de branco mais samba direito
Samba branco mas isso não tem raça
Não quero essa nega gingando

Eu não entro na roda com essa negra nem de brincadeira
Empurra a crioula pra lá
O samba vai ficando branco
e fico me perguntando se isso vai funcionar
Ladeiras eu não subi não tive o mar pelo olhar
Mas, tenho Cartola, Vinícius, Ari, Pixinguinha, e Noel na vitrola
Samba branco, samba sem preconceito
Samba branco de branco mas deixa quebrar
Samba branco, de branco mais samba direito
Samba branco mas isso não tem raça
(Música: Samba branco, letra de Grace Carvalho)

Por  Antonilde Rosa, para Catarinas

Venho por meio deste e em uma situação bastante desconfortável porque é de práxis dos movimentos feministas não expôr mulheres, mas, nesse caso aqui, peço desculpas de antemão, e lamento ver que moldes colonialescos ainda estão fincados no pensamento e no modo de viver das pessoas em pleno século 21, por isso, terei que abrir uma exceção, pois, aqui falo de uma personalidade pública que em seu fazer artístico tem trazido à tona questões que explicitam as imagens que permeiam o imaginário da sociedade brasileira calcado no racismo, sexismo e estereótipos construídos sobre as mulheres negras. Falo sobre a letra de uma canção da cantora e compositora Goiana que participou da primeira e da última temporada de 2016 do The Voice Brasil. Vale sublinhar que isso que ela toma como bandeira da sua arte, são temáticas que viemos trabalhando no intuito de combatê-las, tendo em vista que estas não são mais que reproduções e propagações de mazelas que foram construídas historicamente dentro do contexto de escravidão de dominação branca e do sistema patriarcal.

O racismo que se manifesta na letra desta composição, a qual me recuso chamar de samba, é grotesco e nem tampouco velado. Na tentativa de estabelecer um diálogo com esse discurso que a artista apresenta, é de fundamental importância, fazer uma reflexão sobre o racismo que é naturalizado e estrutura a sociedade brasileiro e no mundo, que gera a violação da dignidade, cidadania, humanidade e de vidas de pessoas que são vítimas deste fenômeno que segundo a legislação brasileira é crime! E para evidenciarmos um pouco mais o que o racismo pode acarretar às vidas das pessoas, Frantz Fanon em seu artigo “Racismo e cultura” diz:

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais  vasto: a opressão sistematizada de um povo (…) Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone. Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência. A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, com todo o seu peso de canhões e de sabres.”

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O que Fanon expressa é muito do que a letra da música propõe, tendo em vista que, além dela afirmar sua condição de sinhazinha que nunca saiu da casa grande e a sua relação de senhora e serva com as negras e em seus devaneios ela também incita a destruição das modalidades de existência das mulheres negras em um discurso que propaga a opressão sistemática sobre estas mulheres. Ela mergulha na ilusão achando que algum dia será a chefe da irmandade do samba, só podemos dizer que isso é o cúmulo do absurdo!

Me esforço para entender isso como um devaneio, pelo fato de a falta de bom senso ser absurda ao tentar se apropriar de uma expressão cultural de um povo, que tem ícones como representantes que ela jamais chegará aos pés, principalmente mulheres, as quais ela nega suas existência e toda a trajetória de sucesso como algumas que vamos citar aqui: Jovelina Pérola negra, Dona Ivone Lara, Mart’nália, Elza Soares, Alcione, Leci Brandão, Mariene de Castro, Nilze Carvalho, Dona Inah, Clementina de Jesus, Paula Lima, Clara Nunes, Glória Bomfim, Aline Calixto, Maria Rita, Fabiana Cozza, dentre tantas. É também importante ressaltar que quando ela diz:

Não quero a crioula no samba
Empurra a crioula pra lá
Porque se ela chega mais perto me põe no chinelo
Eu não vou mais sambar
Não quero essa nega gingando
Empurra a crioula pra lá

Ela está simplesmente negando a própria história do samba, que assim como a cultura negra em geral teve a atuação das mulheres negras como fator relevante na manutenção de nossas expressões culturais. Já que a artista (pois, me recuso chamá-la de sambista), se diz sabedora do samba, é de se esperar um mínimo de conhecimento possível sobre a história do samba e a atuação das mulheres negras. Portanto, ela demonstra total falta de conhecimento sobre este assunto específico, pois, de que vale para uma sinhazinha estudar sobre a cultura de preto, já que ela pode tornar o samba branco por si só, já que ela pode tudo, inclusive se apropriar da cultura da nega, da escrava que arruma a cama para ela deitar e rolar em cima, da preta que limpa o chão para ela pisar?

Mas, mesmo ela não querendo saber, vou contrariá-la, porque sou é dessas que gosta de ver as sinhazinhas nervosinha. Já que ela não sabe, foram várias mulheres e a mais famosa dela é a Tia Ciata que abriu a sua casa para as reuniões e festas e roda de sambas e outras festividades negras porque não só naquela época, mas até os dias atuais, as articulações negras de lazer nos espaços urbanos foram e são vistas como ameaçadoras e promovedoras da desordem social onde a mídia atua como principal propagador desse discurso e legitima as repressões policiais violentas, inclusive o extermínio da juventude negra. O samba e seus e suas protagonistas, bem como quase todas as expressões culturais negras, eram perseguidas pela polícia e a sociedade brasileira em geral, que as tinham como atividades marginais devido aos seus pressupostos racistas. Em uma entrevista ao  site do “Observatório de Favelas” Leci Brandão conta sobre a relevante protagonismo das mulheres negras neste contexto:

“Minha avó, minha mãe e minha madrinha foram pastoras da Mangueira e eu, assim que comecei a frequentar os ensaios da escola, quando ainda aconteciam na fábrica de cerâmica, eu via Dona Neuma e Dona Zica à frente das pastoras adentrando o salão para que depois os demais pudessem entrar. Era um momento de extremo respeito a história e a imagem destas mulheres”. Eram elas, as pastoras, as responsáveis por difundir os sambas de terreiro entre a comunidade. “Essas mulheres tinham uma autoridade fundamental para a identidade da escola, pois conheciam profundamente a comunidade em que estavam e traziam a realidade do povo para as rodas. Cantavam um cotidiano onde homens e mulheres eram representados e as mulheres eram reconhecidas pela sua sensibilidade e essência e não pela expressão física de seus corpos”, completa Leci.

A concepção da artista é também questionável quando ela nega o protagonismo das mulheres negras principalmente em um momento onde aumenta de forma expressiva a presença das nossas sambistas negras (é sempre bom ressaltar o adjetivo negras, para a artista a qual critico  não começar se achar, pensando que estou falando dela). Pois já que ela não sabe, mas, eu vou dizer; tem aumentado consideravelmente a atuação de mulheres negras no palco e na composição, que antes eram territórios de dominação masculina. Quem vai nos bares que tocam samba nos grandes centros urbanos como por exemplo Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e demais capitais, percebe a presença expressivamente feminina negra seja cantando ou tocando. Mas, a sinhazinha, não sabe e tudo indica que ela não sabe talvez por não frequentar estes espaços.

Neste argumento ela deixa bem transparente as formas sistemáticas de silenciamento de mulheres negras por uma parte de mulheres brancas que já falamos em outro artigo “O que o lugar de privilégio de mulheres brancas não lhes permite enxergar sobre a legalização do aborto”, mas, vale a pena relembrar que a dominação racista ainda está presente nas relações pessoais onde  mulheres brancas ainda afirmam seu poder. Isso está explicitamente na letra da música da cantora já que reproduz o discurso de opressão e violência simbólica e física sobre os corpos das mulheres negras e o seu poder enquanto mulher branca, na estrutura étnico-racial de nosso país. Nesta letra de música, ela afirma seu lugar de privilégio impõe uma subalternidade às mulheres negras. A letra da canção segue:

O samba vai ficando branco […]
E fico me perguntando se isso vai funcionar
Samba branco, samba sem preconceito
Samba branco de branco mas deixa quebrar
Samba branco, de branco mais samba direito
Samba branco mas isso não tem raça
Não quero essa nega gingando
Eu não entro na roda com essa negra nem de brincadeira

Neste trecho vemos a expressão concreta da negação da existência do outro; no caso nós mulheres e homens negrxs, e, do racismo que levam pessoas como ela querem se apropriar e branquear as expressões culturais dos outros, cujo argumento é sempre o mesmo que se projeta na letra da compositora: “samba sem preconceito”. o belo discurso da democracia racial brasileira “Samba branco mas isso não tem raça”, ou seja, a famosa defesa da ideia de que, somos todos seres humanos, logo não tem raça, por tanto, o samba não é uma cultura negra, e se não tem origem qualquer um pode fazer. Então, partindo desta lógica perguntamos, como se justifica o racismo presente na sociedade brasileira e no mundo se somos apenas seres humanos e iguais? Porque o samba foi perseguido por muito tempo e até hoje um número expressivo de pessoas brancas têm preconceito com o gênero e fazem questão de dizer que isso é coisa de preto ou gente de cor?

Já falei também sobre as pessoas bem intencionadas no artigo que escrevi citado acima, mas vou reprisar brevemente aqui, pois, é sempre bom lembrar às “pessoas bem intencionadas” com discurso que parte de ideias universalizantes do que seja o “Bem da humanidade”, “o Bem de todos/as nós”, de que partem de uma subjetividade única pretensamente universal que as impedem de levar em consideração muitas outras condições, realidades e circunstâncias que elas desconhecem ou que conhecem mas que não incluem como estruturais nem no panorama geral do que seja “todos/as”, ou do que seja “humanidade” para elas, como por exemplo, as realidades, perspectivas e lutas das mulheres negras. Isto acaba invisibilizando e silenciando as lutas, perspectivas e debates étnico-raciais em toda a sua amplitude e complexidade.

Quando ouça a artista cantando esta música me lembro imediatamente de um cena do musical “DreamgirlsEm busca de um Sonho” que tem como enredo a história de três cantoras negras em construção de suas carreiras, que rendeu o Grammy a Beyoncé, o Oscar a Jamie Foxx, o Globo de Ouro a Eddie Murphy  e o Oscar 2006 a Jennifer Hudson  de melhor Atriz Coadjuvante. A cena é uma discussão entre o produtor e empresário do grupo, Curtis Taylor, interpretado por Jamie Foxx e o C. C. White, compositor das Dreamers interpretado por Keith Robinson quando fica sabendo que sua composição  Cadillac Car, uma de seus maiores sucessos tinha sido plagiado por um cantor branco que a arranjou  ao estilo da música branca para ser tocada nos bailes da elite estadunidense.

Então, indignado C. C. White pergunta a Curtis: Vc ouviu? eles agem como se nós não existíssimos! É assim que funciona, branco resolve o que quer e pega? Como eles podem fazer isso? A canção é minha! Pois é, isso não é somente uma construção fictícia, a história dos negros dentro do sistema de escravidão aponta que para os escravocratas os negros não passam de “animais rentáveis” e que possuem total domínio sobre seus escravos e tudo que eles produziam, com direito a tirar vidas, negar cidadania e humanidades  destas pessoas e é nesta perspectiva que a relação negrxs e brncx se construiu e ainda se constrói mundo a fora e principalmente no Brasil. A compositora de quem falo deixa bem claro isso em sua composição. Ela não  plagiou um samba, pois, já que ela acredita ter domínio sobre as negras, ela pode fazer o que bem entende e até mesmo compôr o samba branco. Deve ser difícil para ela saber, mas, por mais que ela tente, ela nunca vai apagar a história e a origem do samba. Não nos surpreendamos se a qualquer momento chegar a notícia de uma roda de samba em goiânia onde as sambistas formam um grupo de amigas brancas pintadas de pretos e que dizem sambar direito, pois, é muito bonito ser preto e fazer música de preto desde que a pessoa não seja preto.

Fazer este paralelo entre esta grande obra que é o musical Dreamgirls e a letra da artista é importante para percebermos como o ato criativo de um artista se constrói. Acredito que não há abstração plena no processo criativo e sim, que há interfases e que os aprendizados adquiridos enquanto socialmente se projetam nas obras e produções de seus autores. Portanto, o racismo e o sexismo expressos na letra da cantora são exemplos concretos de que não há abstração pura, se considerarmos o fato de que ninguém nasce racista e sexista, que as pessoas tornam-se racistas e sexistas quando em nossos processos de desenvolvimento enquanto indivíduos, somos expostos em interação à normas, padrões e estruturas que preexistem.

Para desconstruirmos esses estereótipos sobre os grupos historicamente estigmatizados, é preciso urgentemente de Ações  Afirmativas que é diferente de Políticas de Cotas, tendo em vista que, enquanto as cotas buscam democratizar e garantir o acesso daqueles excluídos do sistema educacional  e em concurso públicos, as políticas de Ações Afirmativas buscam promover ações que combatem o racismo, discriminação de gênero, sexualidade, religioso e tudo aquilo que é negado às vítimas e essas afirmações passam inegavelmente pela educação.

Segundo Jeã de Assis, músico e estudante do IHAC-UFBA em seu artigo: “Samba, origem, espoliação e embranquecimento: um estudo da história do samba entre o final do sec. XIX até 1930”:

o samba enquanto ritmo e manifestação popular é inegavelmente oriunda das tradições de Congo/Angola, proveniente das umbigadas que ocorriam nas senzalas nos raros momentos de recreações concedidos aos escravizados. Um dos aportes da ressignificação da cultura africana na sociedade brasileira, tradição no processo da escravidão colonial que acarretou além do pluralismo cultural como característica intrínseca da nossa venerada identidade. Também determinou a disparidade socioeconômica e o racismo estrutural que impõe (e persiste em curso a luz da pós-modernidade) aos negros à inércia social. Essa expressão cultural é acima de tudo um ato de resistência desses povos vindos de África, que ganhou proporções maiores e custou a ter seu protagonismo reconhecido na produção da literatura histórica do país”.

Portanto, ao contrário do que a artista afirma, o samba tem cor, ele é uma expressão da cultura negras que nunca foi e nunca será branco, o que acontece, é que algumas pessoas brancas gostam e cantam samba e são aceitas e reconhecidas pela comunidade negra, pois, o samba já é uma expressão da cultura popular brasileira, mas, assim como as culturas por exemplo, das colônias de descendentes europeus que vivem no sul do país, o samba também tem sua origem que fazemos questão de preservá-la. E sem contar que isso é digno e honesto, pois, não estamos usurpando e nem passando por cima de ninguém!

E sobre a pergunta  da cantora: “E fico me perguntando se isso vai funcionar”? Digo que, vindo da forma como veio e de quem veio; não! Não vai funcionar porque nós, não a reconhecemos com alguém digna a nos representa dentro da nossa cultura, como afirma o musicólogo francês Gerard Béhague (2006, p. 65)  em seu artigo  “Música “erudita”, “folclórica” e “popular” do Brasil: Interaçõe e inferências para a musicologia e etnomusicologia modernas” afirma que geralmente os ouvintes da música de seu grupo de origem vão além da mera utilização de sons para poder identificar esses sons como parte de sua própria tradição, inclusive sua própria percepção de compositor como o porta-voz de sua cultura e do seu país.

Não vai funcionar não pelo fato de o samba ser uma expressão artística negra, ou pelo fato da artista ser branca, mas, pelo racismo, arrogância, prepotência e todo o discurso de opressão e invisibilização das mulheres negras e as formas de violências que tal letra propaga. Vale ressaltar também, que no samba tem pessoas brancas, principalmente mulheres, que cantam, tocam compõem e fazem bons trabalhos e que a comunidade negra aplaude como: Roberta Sá, Beth Carvalho, Eliana de Lima, Joyce Cândido, Karime Hass, dentre outras.  e se, a humildade é algo que a artista pode ter, ela deveria no mínimo se espelhar na Beth Carvalho,  que não exito chamar de sambista, para que ela possa no mínimo entender como esta relação se constrói.

O que posso dizer também é que, seria muito bom que pessoas racistas, aqui neste caso específico, uma mulher que quer estabelecer relação com a cultura negra, tem como obrigação estudar profundamente sobre racismo, violência, as formas de opressões e a relação historicamente construída entre mulheres brancas e negras, que já foi muito bem estudado pela historiadora e ativista negra Beatriz de Nascimento, pela Lélia Gonzales e a norte americana bell kooks e várias outras que continuam estudando.

Para continuarmos o diálogo com a letra da música, vamos partir da tese da Bell hooks onde ela diz que: “o seu ponto de contato entre as mulheres negras e as brancas era a relação serva-senhora, uma relação hierárquica baseada no poder […] as negras eram as servas e as brancas, as senhoras. Dada essa semelhança entre as posições das brancas e as negras dentro das normas sexistas, o contato pessoal entre os dois grupos era cuidadosamente construído de forma a reforçar a diferença de status baseada na raça. O reconhecimento das diferenças de classe social não era divisão suficiente; as mulheres brancas queriam que seu status racial fosse afirmado”. A partir do argumento de hooks, a compreensão que se faz, é que os pressupostos de raça é o que de fato sustenta o discurso da cantora e principalmente no intuito de afirmar a sua condição de mulher branca. A impressão que letra nos passa é que ela está querendo proteger sua frágil posição e seu poder social afirmando sua superioridade sobre as mulheres negras. (Hooks, p. 130). Por mais que a compositora acha que o samba seja branco, a história está aí para lhe contradizer, lhe afrontar!

Nós temos consciência dos nossos antepassados, da nossa história que segundo a Etnomusicóloga/Antropóloga da Música, MUP-Música Popular, SMU-Sociologia da Música e professora da Universidade Estadual de Campinas Suzel Ana Reily  em seu artigo “A música e a prática da memória – uma abordagem etnomusicológica” faz as seguintes citações: “a consciência histórica pode definir a maneira como um grupo se compreende enquanto unidade, as sociedades, via de regra, se esforçam para disseminar sua memória social entre seus membros, isto é, a se compor como uma “comunidade de memória” (BELLAH ET ALLI, 1996, p.153). “[p]ara não se esquecerem do seu passado, a comunidade se engaja em recontar a sua estória, sua narrativa constitutiva” (1996, p.153)”; ou seja, ela desenvolve práticas da memória para manter viva a sua memória, o foco de sua identidade enquanto grupo. Se a cantora não sabe, cantar, tocar e compôr samba não se limita apenas em fazer um sozinho, fazer tudo para o povo negro significa contar a história, uma história que ela nunca terá, porque esta é a história do nosso povo, das negas com que ela não quer entrar na roda de samba nem de brincadeira. Fazer tudo isso significa também reconhecer as personalidades, símbolos da nossa história cujo sistemas racista tem maior prazer em não reconhecê-los e ainda tenta desqualificá-los, menosprezá-los e negra suas existências.

A compositora parece ainda está imersa no sistema escravocrata, em uma condição de sinhazinha que nunca saiu da casa grande, acentua e reforça essa tal rivalidade entre mulheres brancas e negras que não passa de um constructo do sistema patriarcal e de escravidão, quando na verdade ela deveria, ter empatia repensar seus privilégios e tentar buscar novas formas e estratégias de interações como as negras do samba assim como muitas mulheres brancas estão fazendo para que esta relação histórica construída no contexto de escravidão seja rompida e que relações que visam novas maneiras de aprendizagens pautadas no respeito, cidadania e dignidade sejam promovidas.

É mais que oportuno que as pessoas racistas, assumam suas responsabilidades sobre suas atitudes racistas. Que sejam capazes de entender que o racismo não é um problema de negros, indígenas e outros grupos étnicos historicamente estigmatizados, e sim de quem o pratica, salientando também que na sociedade brasileira quem protagoniza o racismo são pessoas brancas, por que o racismo ao contrário do preconceito e discriminação, onde qualquer pessoa pode ser preconceituosa ou discriminadora, o racismo não! O racismo se configura em uma estrutura de poder que se constitui em um relação de hierarquia entre grupos étnico raciais, onde um conjunto de  teses, opiniões, conceitos, ideias e crenças se estabelecem sob regime de opressões, violências e extermínio de seres humanos que ocupam a base desta pirâmide.

No sistema racista quem está no topo tem o poder de criar sistemas políticos embasados em pressupostos raciais e sempre se coloca como uma raça superior aos demais e quem está no topo são os homens brancos e isso está presente em todas as esferas da sociedade e principalmente nas ciências que no século XXVIII constituiu os princípios basal dos eugenistas, mas, que ainda se mantém até hoje não de forma assumida como naquela época, mas em intentos e ações bem sutis e refinadas. Como por exemplo as investidas de muitos intelectuais como Ferreira Gullar que escreveu o “Poema Sujo”, no qual compara os negros com urubus e defende que a intelectualidade é genuinamente branca e, bem como os pesquisadores e cientistas acadêmicos que tentaram barrar a implementação do sistema de Ações Afirmativas nas Universidades Brasileiras que democratiza e garante o acesso a meio acadêmico a estes grupos. Portanto, para artista/cantora que cultua pensamentos racistas em sua canção, o ideal mesmo é  fazer arte de origem do seu grupo étnico de pertencimento (sim, os brancos pertencem a um grupo étnico, pois, a branquitude não é universal, ela é específica, por tanto, se configura em uma categoria da diferenças assim como os outros grupos localizados como tal) pois, esta pega muito bem para alguém que quer fazer samba mas não quer ver nega no samba.

A letra da compositora reflete a transformação do cenário do samba quando os eventos do gênero começaram a receber investimento da indústria cultural midiática que visualiza no samba um ente financeiro em grande potencial e isso não gerou somente o que antropólogo e professor da Universidade Federal do Maranhão Carlos Benedito Rodrigues da Silva. “Da terra das primaveras à Ilha do Amor: reggae, lazer e identidade cultural” (2016, p. 30) ao se referir à cultura negra dentro do processo de produção cultural dos setores populares expropriada: “a manipulação de seus símbolos e seus valores acabam substituídos por outros, alheios à história de vida dos que a produzem. Perde, portanto, seu caráter de representação política do cotidiano […]”, mas também o processo de branquiamento que tirou dos negros e principalmente das mulheres cargos e espaços relevantes que estas assumiam antes, tirou o poder de decisão e inclusive a presidência da maiorias das escolas de samba que antes eram em sua maioria executados por homens negros”.

É importante ressaltar que pensamentos como este incorporam intento do processo de modernização e higiene racial  do processo de incorporação do samba à indústria cultural e nas expressões midiáticas que visam apenas o mercado e lucro e que,  para conquistar mercados, constroem uma imagem deturpada que se embasam em estereótipos sobre as mulheres negras, que a cantora propaga no clipe oficial da música, as imagens do clipe são caricatas dentro de uma estética que deixa a mulher negra em um condição que podemos denominá-las “feias”, em relação às imagens de mulheres brancas que ela usa.

Jurema Werneck, ativista do movimento de mulheres negras e atual Diretora Executiva da Anistia Internacional em sua tese de doutorado intitulada “O samba segundo as Ialodês: mulheres negra e a cultura midiática” nos diz que: “é importante assinalar que a limitação (e a invisibialização) da presença das mulheres negras como sujeitos de ações e criações nos relatos da vida nacional, seja cultural ou política, é produzida ativamente em decorrência da hegemonia das ideologias racistas e sexistas […]. Por outro lado, aquelas análises que têm como pré-condição o questionamento de visões excludentes na cultura não deixarão de notar a forte presença qual as mulheres negras têm na música popular brasileira desde o primórdio. O argumento da Jurema é legitimado pela letra da composição criticada aqui; ela é a expressão do patriarcalismo, machismo e o sexismo que atravessam a sociedade e o cenário do samba midiático que limitam as mulheres negras de assumiram plenamente seus protagonismos. Ela propaga também os princípios paternalistas; como ela diz: mas, tenho Cartola, Vinícius, Ari, Pixinguinha, e Noel na vitrola. Como já disse aqui, com tanta mulheres negras fantásticas ou até mesmo brancas fazendo samba, ela só tem homens em sua vitróla! Isso mostra o quanto as mulheres ainda se configuram em uma, vítima, uma presa fácil do machismo naturalizado em nossas sociedade, cuja as próprias mulheres reproduzem discursos poderosos de propagação da dominação masculina sobre as mulheres e que neste caso ainda vem acompanhado do racismo e a violência contra as mulheres negras.

Com tudo isso, podemos intuir que o interesse dela com  o samba é puramente de cunho econômico, por isso, canta samba para ganhar dinheiro, ou seja, desenvolve o esquema de exploração predatória do capitalismo neoliberal e assim, promove a pobreza e a miséria das negras e negros em detrimento da sua ascensão financeira. Como ela afirma:  Ladeiras eu não subi não tive o mar pra olhar, ou sejaela não tem relação nem uma com a comunidade do samba, não frequenta os espaços do samba, e aqui em específico o Rio de Janeiro. Como ela mesma diz, o contato dela com o samba e o que sabe do samba é aquilo que ouvi dos homens que tem em sua vitrola.   Não posso ignorar aqui a audácia dela em acreditar que além de se apropria, ela pode desrespeitar e diminuir as mulheres negras,  mas, o que ela não sabe, que o samba é muito mais que uma forma de ganhar dinheiro para as e os sambistas negrxs.

O que ela não sabe é que através do samba,  os e as sambistas e nós comunidade negra lutamos e resistimos contra o sistema racista. Nós militamos, pois,  utilizamos as multi expressões culturais negras como forma de refutar a representação de uma sociedade atravessada historicamente pelo racismo e violência contra o extermínio do nosso povo e principalmente dos jovens e mulheres negrxs.  E neste ambiente as mulheres negras deixaram, deixam e vão deixar, seus legados na luta contra as opressões raciais e o subjugo patriarcal.

A moça protagoniza esta cena constrangedora porque ela não ouviu as mulheres do samba. Se ela tivesse ouvido a música “Alguém me avisou” da Dona Ivone Lara. Se ela ouvisse a música “Luz do Repente” da Jovelina Pérola Negra. Se tivesse ouvido a música  “ Saudosa Mangueira” da Clementina de Jesus. Mas, tudo bem, já que ela não quer ouvir sambistas negras, então que pelo menos ouvisse a música “Com Toda Essa Gente” interpretada pela Beth Carvalho, de autoria do Dudu Nobre, Zeca Pagodinho e Beto Sem Braço, provavelmente o situação seria um pouco mais favorável a ela. Porém, como ela mesma afirma não ouví-las, só pode doar ao seu público aquilo que possui e sobre o samba, o que ela demonstra ter é o bastante para montar um espetáculo onde a ignorância, racismo, sexismo, e arrogância assumem o protagonismo desta cena deplorável. Se ela tivesse em sua vitróla mulheres do samba, não estaria sendo obrigada a ouvir o recadinho “Luz do Repente” que a Jovelina Pérola Negra lhe deixou bem gravado porque este lhe cabe muito bem! Se ela ouvisse mulheres negras do samba, saberia de solidariedade, de amor ao próximo e construção colaborativa. Saberia que na comunidade, na mesa que come um, todos comem.

Considerando tudo que foi expresso aqui, deixo claro que estaremos sempre em nossa lugar de resistência, luta e militância e que, quem quiser chegar tem que chegar, miudinho, pianinho, direitinho e sabendo o lugar que lhe convêm. Não vamos aceitar ninguém, passar por cima das nossas de nossas matriarcas! Por isso, não venha com seu samba branco de compasso manco porque nesta batida, quem dá a cadência, o tom e o enredo é inclusive as negras que têm a ginga que racistas não quer ver. Finalizamos com a letra da música “Sobrado” como resposta à música a qual falamos aqui composta por Marcia Daniela[1] que também nomeou o título deste artigo.

Por que tenta me empurrar?
Nega chegou ponto e é quem manda
Eu sempre fui do samba
E por isso estou sambando
Se não tem ginga pra quê tentar?
o samba tem seu corpo, meu corpo tem o samba
Sinhá, vai perceber cuidado ser bamba não é brincar de barbie
Cê sabe  ginga na canção? Não sabe!
Há uma tradição oralizada
Com toda força que há dos antepassados
Cuidado com os meu orixás
Nem sabe sapatear no pé!
Pois, pra ser sam do samba
Tem que ter melanina, minha cor
Meu amor, você sabe de onde vem o samba?
Benção Tia Ciata!

Referências
ASSIS, Jeã de. Samba, origem, espoliação e embranquecimento: um estudo da história do samba entre o final do sec. XIX até 1930.  Jovens Pensadorxs. 2015

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980, p. 35-48.

BÉHAGUE, Gerard. Música “erudita”, “folclórica” e “popular” do Brasil: Interaçõe e inferências para a musicologia e etnomusicologia modernas. 2006.

hooks, bell. Ensinado a Transgredir: a educação como prática de liberdade. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo Ed WMF Martins Fontes. 2013.

MOISÉS, Raika Julie; AMORIM, Taís de. As negras mulheres do samba. Observatório de Favelas: http://of.org.br/noticias-analises/as-negras-mulheres-do-samba/

REILY, Suzel Ana. A música e a prática da memória – uma abordagem etnomusicológica. (s/d)

RODRIGUES, Carlos Benedito da Silva. Da terra das primaveras à Ilha do Amor: reggae, lazer e identidade cultural. Ed. Pitomba. São Luis. 2016.

WERNECK, Jurema Pinto. O Samba Segundo as Ialodês: mulheres negras e a cultura midiática. Universidade Federal do Rio de Janeiro-RJ, 2007.

<[1] Marcia Daniela é Mestra e graduada em História pela Universidade Federal de Goiás e integrante do Coletivo Rosa Parks- que desenvolve Estudos e Pesquisas sobre Raça, Etnia, Gênero, Sexualidade e Interseccionalidades.

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RESPOSTA DA AUTORA GRACE CARVALHO 

Esta carta tem por motivação críticas que me foram dirigidas, em decorrência de música de minha autoria, composta e gravada no ano de 2009, intitulada “Samba Branco”. Nela aparecem expressões e frases que agora foram percebidas como manifestações de racismo, conduzindo-me ao esforço reflexivo que ora compartilho.

Saliento que devo as sambistas, destacadamente às mulheres negras (a exemplo de Dona Ivonne Lara, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Mariane de Castro e Leci Brandão, entre outras tantas), nada menos que o lugar que ocupo. Ou seja, se na condição de mulher posso cantar e fazer samba, isso se deve em infinita medida ao esforço destas que ousaram, contra tudo e todos, perseverar.

Por isso, em nenhum instante, nem mesmo em sonho, quis lhes ofender a imagem, pelo contrário, sempre que a vida me ensejou oportunidade, o que mais busquei foi enaltecê-las, senão reverenciá-las, assim na escolha de repertório e, também, no difícil ato de compor.

Quanto à música “Samba Branco”, nela quis apenas marcar, que as sambistas, “crioulas” (mulheres invisibilizadas e estigmatizadas, mas que no samba e do samba viveram) “me põem no chinelo”, não apenas a mim, mas sobretudo a outros que, embora ocupem lugar de reconhecimento no cenário nacional, são igualmente “colocados no chinelo”.

Este texto, no entanto, permitiu outras interpretações, bem diversas das intenções que o motivaram, fato que basta ao reconhecimento de suas falhas, dado que o artista deve estar alerta a tais questões.

Reside exatamente na indicação destas falhas o papel da crítica que, mesmo quando ácida, se presta ao aperfeiçoamento da construção artística, motivo pelo qual as tomo e sempre as tomarei em boa conta.

Em respeito às pessoas que entenderam haver racismo na letra, declaro que a excluí do meu repertório. Meu desejo, desde sempre e agora reforçado, é levar, sem preconceitos, alegria aos corações que, como o meu, foram arrebatados pelo samba.

Grace Carvalho.

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