Sanidade mental é luxo para a maioria dos negros brasileiros

26/01/26
  • O risco de um negro cometer suicídio é 45% maior do que é entre brancos em território nacional
  • O efeito nocivo do racismo transcende o momento da prática criminosa

Neste “janeiro branco”, campanha nacional dedicada à promoção da saúde mental e do bem-estar emocional, uma série de acontecimentos me levaram a refletir sobre o fato de a sanidade mental ser um luxo para a maioria dos brasileiros.

O “branco” da campanha simboliza a oportunidade de mudar de hábitos e escrever uma nova história, coisa ao estilo “ano novo, vida nova”. A proposta é maravilhosa, mas ironicamente também é reveladora do elevado grau de violência e exclusão ao qual estão submetidos os negros no Brasil. A sanidade mental tem se mostrado um privilégio da “branquitude” —em que pese o aumento dos transtornos mentais na população como um todo.

Jornada dos movimentos negros faz ato pelo fim da violência policial no país, com concentração no Masp, em São Paulo – Bruno Santos – 24.ago.23/Folhapress

É que ser negro no nosso país implica estar constantemente sujeito ao risco da violência gratuita, da discriminação pela aparência física, da negação de direitos fundamentais, da perseguição pela profissão da fé, da morte por se ser quem é.

Além disso, cuidar das emoções é um luxo quando não se pode contar com moradia digna, comida boa no prato, educação de qualidade, trabalho decente ou direito ao descanso, entre outras múltiplas carências que fazem parte do cotidiano da maioria dos pretos e pardos, todas capazes de abalar a psiquê.

índice de autoextermínio ilustra bem o cenário. O risco de um negro cometer suicídio é 45% maior do que é entre brancos em território nacional (Ministério da Saúde e Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025). Para além das características individuais, racismo, exclusão social, violência e carência de serviços públicos de saúde mental são fatores determinantes.

O efeito nocivo do racismo transcende o momento da prática criminosa. Causa um sofrimento psíquico que afeta a relação da pessoa com o mundo e consigo mesma. Nem os negros que ascenderam economicamente estão blindados do sofrimento psicológico gerado por esse crime inafiançável e imprescritível.

Precisamos instituir políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental com perspectiva étnico-racial.


Ana Cristina Rosa – Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

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