domingo, agosto 7, 2022
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A sentença de André Ribeiro: Praticar cooper na mesma hora de um roubo

por  Leonardo Dallacqua de Carvalho

Como um ritual, ao sentar no sofá em volta da televisão com alguns familiares, eu observava e absorvia o show do senso comum que projetavam ao sintonizarem programas de televisão que vendem entretenimento/informação a preço de sangue. Frases como: “se foi preso é porque alguma coisa fez”, “ninguém apanha à toa”, “onde há fumaça há fogo”, faziam parte do vocabulário diário dos telespectadores que me rodeavam. Isto é claro, quando não se entreolhavam ao ver a foto do sujeito e era possível decifrar a expressão “olha a cara do sujeito”.

Fora da vida real, no acolchoado sofá, essas frases parecem uma matemática. Afinal, como imaginar quem cumpre seu dever de cidadão de bem, paga as contas e é trabalhador pode passar por este tipo de situação? Ainda mais quando estas frases são reforçadas por “autoridades” televisivas – que como vampiros vivendo de sangue dos outros -, assumem que o perfil da bandidagem ou malandragem corresponde a certos estereótipos, fenótipos que de alguma forma justificariam qualquer forma de agressão.

André Ribeiro é um desses “marginais” arquitetados por um discurso de ódio, que por um golpe de “sorte” terá a possibilidade de ler este texto em vida. Na última semana, em São Paulo, foi confundido com um suposto ladrão, foi perseguido, linchado por populares e preso. Mas “ninguém apanha à toa” não é mesmo? O que André fez? Eu o conheci na Universidade, em períodos diferentes fizemos o mesmo curso de História. Diferente de muitos, ele precisou trabalhar enquanto estudava para conseguir cumprir os quatro anos que o autorizavam a lecionar a disciplina nas escolas. Apesar de não ser seu amigo, estávamos no mesmo ano e o conhecia. Sabia das suas dificuldades e nunca soube de um único incidente.

O jovem professor de história tinha como passatempo a prática esportiva denominada Cooper. André é pardo, tem algumas tatuagens, usa alargadores, ou seja, possui todas as evidências que constituem um crime no Brasil: o julgamento ignorante por estereótipos. Quando foi “identificado” pelo proprietário que teve seu comércio roubado, populares não tiveram a menor dúvida em “dar-lhe uma lição”. Por ironia, para provar sua inocência aos “justiceiros populares” chegou ao ponto de ter que falar sobre “Revolução Francesa” para de alguma forma comprovar que era um professor e não um “bandido”. Difícil acreditar. Como um pardo, tatuado, correndo por aí seria um professor?

Não! Nem sempre há fogo onde há fumaça. Às vezes o maior incêndio que possa existir é a ignorância de pessoas que são seduzidas por discursos que crime está associado a noções antropométricas. O italiano Cesare Lombroso, um conhecido antropólogo criminalista do século XIX, na ciência do seu tempo, chegou a cogitar tatuagens atreladas à cor. Ou mesmo a cor representando um estado primitivo do homem, que o impossibilitaria de se ajustar às condutas das leis dos “brancos”. O século XIX ficou para trás a muito tempo na história, mas não na mentalidade de algumas pessoas.

A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, em seu livro Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na sociabilidade brasileira (1ª. ed, 2012), nos lembra de uma chacina ocorrida no Bar Bodega, nos anos de 1996:

“Os culpados logo foram encontrados – em mais um ato de ‘extrema competência da polícia brasileira’ e (por acaso) eram todos pretos. Mais estranheza do que o fato em si causaram seus desenlaces. Cerca de dez dias depois a polícia libertou os (agora) ex-suspeitos e apresentou os novos: todos brancos. No entanto, se o evento chocou pouco dentro do cotidiano violento do país, mais impressionante foi a pouca repercussão: a imprensa a princípio mal comentou o caso e raros órgãos reclamaram. Afinal é esse tipo de postura que explica os dados de criminalidade que apontam que, sujeitos às mesmas penalidades, os negros têm 80% de chance a mais do que os brancos de serem incriminados. É como se persistisse certo pacto histórico: não s nomeiam publicamente as diferenças, e assim os constrangimentos são sempre privados” (p.117).

Ademais, estes episódios e texto devem ser resumidos na voz de Malcom X (1925 -1964): “Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos”.

 

*L. D. CARVALHO, professor de História. Membro do NUPE (Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão).

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