quarta-feira, maio 25, 2022

A Sociedade e Nós

Se a história não reparar os séculos a fio de sofrimento e segregação, nós permaneceremos no campo de batalha, onde empunharemos as nossas palavras. Nossas palavras serão entoadas pelos nossos traços mesmo com nossas bocas trancadas, pois em nossos corpos a denúncia é latente; O estigma do nosso fenótipo que recaiu sobre o nosso povo delata que os nossos olhos e coração estão feridos e abertos, bem abertos! Há em cada uma destas fissuras, mesmo em meio a abundância de sangue e de lagrimas que brotam das armas do Estado encharcando as nossas calçadas, um movimento constante e cotidiano de busca pelo ar da vida, mesmo em meio essa rotineira dor que é minhas e dos meus. Essa via cruzes é rezada cotidianamente pelo nosso povo. A cada momento somos nós que somos saqueados, e, nos levam a cada parada que damos em cada núcleo estabelecido dessa sociedade à mão armada de privilégio e cara lavada de injustiça, a nossa dignidade.

Enviado por  Francisco Nonato e Lídia Rodrigues via Guest Post para o Portal  Geledés 

Ainda por cima, parece que só nós escutamos os estrondos dessa guerra tão antiga. Ouvimos seus ruídos nas acusações cotidianas sejam elas descaradas ou aquelas disfarçadas de boas intenções e ouvimos também nas ruas, praças, ônibus, igrejas, hospitais, escolas, universidades, partidos políticos, e sim, ouvimos ela nas organizações de esquerda. A guerra perpetrada contra nós, notamos, em todos os territórios e espaços onde ousamos romper com a hegemonia do lugar e da fala, porém, costuma se fingir silenciosa aos que sucumbem ao engano de se manterem dóceis e gentis.

Há uns que nos bombardeiam como se nos fizessem favores. Falamos daqueles que se posicionam acima para produzir discurso sobre nós e nossas dores. Esses sujeitos que escrevem textos acadêmicos ou vão as mesas em eventos pra falar de nós, esses que do seu lugar de privilégios vão gozando inconfessável e hipocritamente dessa estrutura que permite que estejam eles onde estão, e que desse lugar nos lancem a mais pura caridade cristã, esperando de nós plateia, palmas e outras reverências. É desses lugares que nos foram impostos que estamos denunciando os senhores de boa vontade, esses abolicionistas de hoje que são capazes de dedicar a suas vidas por esses outros que somos nós desde que seja o seu nome e não o nosso que conste nos autos da história ou nas placas de homenagens.
Questionamos a gentileza desnecessária, que só tem possibilidade de acontecer se a nossa fala, experiência e vivencia for roubada. O sentimento é esse mesmo; o assalto da nossa voz pelo silenciamento, planejado, calculado ou ao aceito como natural pelos bons que acreditam na transformação do mundo, desde que seus lugares (de fala e por conseguinte de poder) sejam preservados, e assim se preserva a herança escravista dessa sociedade, onde a casa grande sempre vai se deslocando, mas seus filhos não deixam de tomar pra si o lugar de senhores e ainda querem nossa admiração e obediência por serem tão bons.

Para muitos, essas colocações podem ser mais um indicio para acusar-nos de sermos do clube dos exagerados, dos que não pensam muito bem, que não sabem que é preciso ser avaliado melhor e sem tanta afetação, ou afirmam que isso é porque o complexo de inferioridade foi internalizado por nós, que a dor e discriminação é geral acontece com todo mundo que não tenha acesso ao capital, não é exclusividade dos pretos. Essas falas-atitudes que escutamos todo santo dia fazem parte do mesmo processo colonizador-embranquecido que nos escravizou, nos invisibilizou e até hoje explora nossos corpos e quando denunciamos é porque somos mal agradecidos.
Poderíamos falar e expressar um milhão de coisas conhecidas e desconhecidas que o racismo faz a gente passar todos os dias, mais como sempre, não temos muito tempo. O tempo que temos é pra juntar os nossos que estão sendo dispensados, encarcerados e exterminados (escondido ou publicamente). Solitários corpos negros no chão de ruas e praças, solitárias lagrimas de negras mães derramadas, e a existência é duramente marcada pelo resistir, o reexistir ao sofrimento.

Estamos sendo arrastados novamente pela mão de mercadores, agora eles são os funcionários do complexo industrial da violência, seus capitães do mato andam fardados, e as delegacias são os novos e verdadeiros navios negreiros, mas nunca atrancam. Encarceradas/os, maltratados, mercantilizados e por fim desumanizados, e não estamos falando de um outro, esse outro somos nós que ao ir para rua, ao entrar em uma loja, ao sair com a família, nossas saídas não tem o pressuposto de voltas pra casa, e é isso que dizemos entre os olhos nossos, ao passar o cadeado no portão.

Estamos diante de mais uma distancia dos nossos, sobre separação forçada e a solidão temos muito a dizer. Arrancar minha mãe e jogar na cela, ver os meus irmãos sendo mortos, o que mais posso dizer? Expressar aqui em poucas palavras o que se passa entre nós, já que minha presença e a dos meus é interpretada como perigosa, tentar, voltando a razão forçada dos eurocentrados em seus surtos acadêmicos, que de maneira violenta são continuidade dos colonizadores (feitos a imagem e semelhança de Cabral e tantos outros).

Porém, é preciso dizer dessa nossa linguagem: ela nasce de becos, das vilas e da fome. Ela nasce inclusive da exclusão do letramento, e palavra solta no vento que se transforma no tempo, vira gíria e subverte a língua do colonizador. Se escrevemos com muita dificuldade também o fazemos para expurgar muito sentimento preso. Nossas gargantas andam cansadas e tão secas de dizer sempre da dor em voz média e alta, mais ao que parece nossos gritos não são escutados.

Gostaríamos de trazer nessa escrita outras vivencias e olhares, outros ares e suspiros, trazer nas palavras a nossa magia, nossas cores, danças e batuques, expressar da nossa mais profunda alegria e do nosso mais alto respeito diante do bem viver, mais nessas condições nossa fala não pode ser diferente, devido ao silencio e invisibilidades, onde nossas dores são piadas, manchete de jornal ou indicador de eficiência policial. Falar dessas questões aqui ou em espaços institucionalmente construídos ainda é motivo de desconfiança, de olhares que vão recolocando o ser no “seu devido lugar”. É dessa intenção de nos confinar em um lugar que nossa inquietude dança na conformação e deslocamentos, amplia a necessidade de sair, correr e dançar fora da geografia da exclusão onde nascem nossos gritos, que muito pouco são ouvidos ou mesmo levados em consideração.

Corpos negros devidamente expostos não podem ser contemplados na voz de um outro totalmente desprovido de cotidianidade periférica, de experiência violentas, de ser alvo de ações planejadas, de ser vítima do racismo institucional. Não aceitamos esses bons senhores que são verdadeiro prejuízo as nossas vozes e a nossa escrita. Iremos antes, fortalecer o nosso fazer, que é pouco conhecido já que nada e dito nem citado dos nossos, seremos nós os construtores da solidariedade referencial, das diversas escrevivências, dos olhos marejados de esperança na possibilidade do novo que se apresenta desde palmares.

Estamos hoje diante de mãos e olhos que escrevem sobre e suas vivências, somos muitas e muitos sobreviventes de um regime violentamente racista, onde a seleção racial, da fala, escrita, referência é naturalizada em nome de um regime meritocrático. Escrevemos o que sentimos no corpo solidão que temos para refazer os elos com os nossos que também são corpos-solidão. Pra escrever com outra língua e outra letra a nossa história a partir de nós. A continuidade desse dialogo que hora tem por objetivo escancarar a violência velada, mais que entre suas linhas a esperança de Beatriz Nascimento se deixa revelar, a garra de Lélia Gonzalez é refletida, e o sorriso de Luiza Barros é bússola, é continuidade pra uma geração de viventes resistentes do novo quilombo.

 

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