sexta-feira, novembro 26, 2021
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Sueli Carneiro recebe prêmio da Lasa por sua produção acadêmica

Ativista. É assim que Sueli Carneiro se apresenta. A mulher que dedicou sua filosofia, escrita, intelectualidade, titulação acadêmica ao enfrentamento coletivo às desigualdades de raça e gênero foi premiada, no último 8 de fevereiro, pela Associação de Estudos Latino-Americanos (Lasa). “A Dra. Carneiro, recebe este prêmio por sua vasta produção acadêmica centrada nas relações raciais e de gênero na sociedade brasileira, (…) bem como pelo seu destacado compromisso no âmbito das políticas educativas”, registra a página da entidade.

Em 1985, Sueli Carneiro publicou um livro pela primeira vez. Era a década da mulher, instituída pela ONU, e o Conselho Estadual da Condição Feminina negociara, um ano antes, uma coleção de livros com a Editora Nobel. Em uma reunião tensa, Thereza Santos, que representava as mulheres negras no Conselho, definiu: “Nós queremos um volume. Vamos escrever um livro específico sobre a mulher negra”. Na saída, olhou para Sueli, com 34 anos de idade, e informou: “Eu disse que a gente vai fazer, entendeu? Agora você faz”.

Quatro anos depois de se formar em filosofia na USP, Sueli Carneiro era aluna de mestrado. Reuniu dados do censo, fez todas as tabulações na unha, com uma calculadora, e apresentou o estudo pioneiro em desagregar indicadores sociais de gênero, raça e classe. Pela primeira vez, os números das desigualdades entre mulheres brancas e negras no Brasil estavam sistematizados, analisados, e ofereceram um diagnóstico do racismo intragênero. O livro “Mulher Negra: política governamental e a mulher”, publicado em coautoria com Thereza Santos, inaugurou a área de estudos de raça e gênero e pautou o debate racial no feminismo, tanto no Brasil como na América Latina.

Com um estudo que provava as desigualdades socioeconômicas entre mulheres brancas e negras, tanto em escolarização, quanto em ocupação e renda, mulheres negras organizadas tiveram mais força para defender políticas públicas específicas no Conselho. Para a efetividade de seu ativismo, portanto, Sueli Carneiro iniciou uma trajetória acadêmica ilustre, repleta de ensaios, textos de divulgação e artigos científicos traduzidos para alemão, espanhol e inglês. Se no Brasil e em toda a América Latina não é possível estudar e viver o feminismo sem considerar as desigualdades raciais, precisamos agradecer e reverenciar Sueli Carneiro.

Em 1989, Sueli Carneiro coordenou uma pesquisa em todos os cartórios e fóruns do estado de São Paulo para identificar condenações por discriminação racial com aplicação da Lei Afonso Arinos. De 1951 a 1988, considerando uma nova redação da lei em 1985, existiu apenas uma condenação por discriminação racial em todo o estado, no ano de 1973. O estudo, também inovador e relevante, nunca foi publicado, mas embasou a criação do Programa de Direitos Humanos de Geledés – Instituto da Mulher Negra. Até aquele momento, no Brasil, os direitos humanos só diziam respeito a pessoas brancas cujos direitos foram violados pela ditadura. O programa de Geledés redimensionou o racismo como violação aos direitos humanos fundamentais.

Foi criado então o projeto SOS Racismo, que oferecia atendimento jurídico gratuito às vítimas de racismo e discriminação racial, e também coletava e analisava dados para a formulação de argumentos políticos, jurídicos e também acadêmicos de que o racismo era uma ação sistemática e persistente. Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos e ensaios sobre o tema, muitos deles referência no campo jurídico. Não à toa, em 1998, Sueli recebeu o Prêmio Direitos Humanos da República Francesa.

E há tanto mais! Análises acompanhadas de denúncias de racismo nas telenovelas, com processo judicial contra a Rede Globo. Formulação para a presença da delegação brasileira, e também das mulheres negras latino-americanas, nos preparativos, no durante, e nos desdobramentos da Conferência de Durban (Terceira Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância promovida pela ONU), de 2001. Defesa da constitucionalidade das cotas raciais no STF, em 2012, com argumentação teórica, política e jurídica, potencializadas pela postura corporal e entonação que inspiram tanta seriedade e confiança.

Na forja de Sueli Carneiro, máquina de escrever, computador, tablet de última geração são ferramentas poderosas para uma produção acadêmica que é, sobretudo, espada. Abre caminho. Defende. Vence as batalhas.

Ogunhê, Lasa, por ter olhos de ver.

PS: ouvi dizer que neste semestre ainda será publicada uma biografia de Sueli Carneiro, pela Companhia das Letras, com detalhes de sua trajetória e produção teórica ;)

 

Fonte: Por Bianca Santana, no ECOA 
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