Tempos de intolerância: casos de injúria racial e racismo crescem no Piauí

O piauiense adora dizer que é acolhedor. E geralmente é. Mas o Piauí tem dado mostras que ainda guarda velhas e condenáveis práticas sociais. A intolerância é uma delas. A discriminação, por exemplo, ainda chama atenção. De acordo com dados da Delegacia Especializada de Repressão às Condutas Discriminatórias, cresceram no estado os casos de injúria racial e racismo. O cenário preocupa o movimento negro no Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. Em alguns setores, a sensação é de que se voltou no tempo.

Em 2013, a Polícia Civil registrou 103 boletins de ocorrência por injúria racial. Entre janeiro e outubro de 2014, já são 94 casos de injúria racial e, mais grave, um de racismo. Caso a média se mantenha, a quantidade de B.O. deve superar a do ano passado.

Os números alimentam uma grande contradição. De acordo com o Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 71% da população de Teresina se declaram negros ou pardos. A estatística faz parte do Mapa da População Preta & Parda no Brasil, divulgado em novembro de 2011. Segundo o levantamento, Teresina é a segunda capital do Nordeste e a sétima do país em quantidade de negros e pardos.

O que, então, explica a quantidade crescente de casos de intolerância? A modelo Nubia Passos tem uma versão. “O racismo sempre existiu. Acho falta de cultura e racionalidade perpetuar esse tipo de postura. Mas acredito que é a própria sociedade que muitas vezes contribui para esse tipo de preconceito”.

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Mulher, negra, nordestina e piauiense de Jardim do Mulato, pequeno município do interior do Piauí localizado 140 quilômetros ao Sul de Teresina, Nubia aos poucos vê sua carreira deslanchar em São Paulo, um estado declaradamente conservador e, apesar de heterogêneo, intolerante. Nem na capital paulista, nem em Teresina, nem no interior piauiense, porém, ela sofreu com o preconceito. O mesmo não pode dizer do professor universitário Alcione Corrêa.

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Em fevereiro deste ano, ele foi vítima da intolerância racial que se espalha como um câncer, degenerando a sociedade e matando aos poucos quem é excluído. Docente da Universidade Federal do Piauí (UFPI), ele foi cuspido por um adolescente enquanto passeava de bicicleta na avenida Dom Severino, na zona Leste da capital.

À época, Alcione preferiu não registrar boletim de ocorrência. Ele se justificou dizendo que temia retaliações. “Estava passando de bicicleta quando o adolescente dentro do carro cuspiu em mim. Percebi que era um ato de discriminação quando vi que ele estava sorrindo. O fato de ser negro piora tudo. Se eu tivesse em outro carro e bem vestido, ele jamais iria cuspir em mim”, disse após o ocorrido.

O caso mais grave, entretanto, foi registrado no Centro de Teresina, quando uma senhora negra foi impedida de entrar em um estabelecimento comercial por causa da cor da sua pele. Desrespeitada, ela registrou boletim de ocorrência. A Delegacia Especializada de Repressão às Condutas Discriminatórias apurou o caso, confirmou a suspeita e indiciou a proprietária do estabelecimento por racismo. A Polícia Civil não revela as identidades de vítima e acusada.

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O caso agora está com o Ministério Público Estadual. É ele que decidirá se apresenta ou não denúncia. Caso a proprietária seja denunciada, julgada e condenada, pode pegar até cinco anos de reclusão.

Tempo perdido

Militante do Movimento Coisa de Nego há 20 anos, Assunção Aguiar crê que o aumento do número de casos de injúria racial e racismo no estado é resultado de uma série de fatores e pode não significar exatamente uma sociedade mais intolerante. Mesmo assim, ela revela um sentimento de tempo perdido.

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“Os números aumentaram porque estamos dando maior visibilidade aos casos de injúria e racismo. Hoje as pessoas têm coragem de ir à delegacia, dizer que foram ofendidas e reivindicar seus direitos”, observa. “O que precisamos agora é qualificar essa denúncia. Às vezes não sai daquilo. O máximo que se consegue é, na hora de uma audiência, chegar a um acordo. Não vemos gente sendo punida por ofender a honra de um negro”, complementa.

Para Assunção, avanços na área só serão novamente realidade quando o Governo do Estado voltar a atuar de mãos dadas com o movimentos sociais. Segundo ela, o movimento negro foi esquecido nas gestões de Wilson Martins (PSB) e Zé Filho (PMDB).

“Onde tem vontade política dos gestores, as coisas são mais visíveis. A realidade de quatro anos para cá é de tristeza quando se trata de igualdade racial. Não há compromisso. Não temos nada. A gente precisa reconhecer os avanços e também os retrocessos. Conseguimos avançar enquanto Brasil, mas as ações concretas no Piauí diminuíram”, desabafa a militante.

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“A realidade da mulher negra”

Ser negra no Brasil é um desafio muito grande. Não é fácil assumir a sua identidade como negra. Os seus cabelos, sua jeito de vestir, a sua cultura, em especial, a sua religiosidade. Isso não é diferente para mim como mulher negra e militante do movimento negro que sou. Foram inúmeras situações de constrangimento e discriminação por mim vivenciado. Simplismente por ser negra. O emprego que não assumi em um escritório de foi por eu não me adequar a um padrão que eles procuravam. E a maior lição herdada por mim nessa caminhada é a certeza que a história do meu povo é rica, bonita, e que a minha luta em prol da identidade negra contra qualquer tipo de preconceito tem valido a pena.

Assunção Aguiar,
Ekede e militante do movimento negro

Conquistas

Se a bronca com o Governo do Estado nos últimos quatro anos é grande, a satisfação com as conquistas em âmbito nacional é maior ainda. Não é para menos. Ao longo da última década, o movimento negro conseguiu uma série de vantagens. Assunção Aguiar lista algumas delas.

“Há muitos pontos positivos, como a política de promoção da igualdade social. Ela permitiu que fossem implementadas ações que melhoram a qualidade de vida das pessoas. Há também a lei das cotas, o programa de saúde da população negra e o estatuto da igualdade racial”, destaca.

As perspectivas, contudo, são boas. Pelo menos é o que entende Assunção, que espera um fortalecimento do movimento negro frente ao poder público. “É necessário ter mecanismos com maior poder de articulação, um espaço onde a gente possa dignificar as pautas da população negra”, ressalta.

Do alto das passarelas, Nubia só espera um mundo melhor, não só para negros, mas para pardos, amarelos e brancos. “Temos que acabar com qualquer tipo de preconceito e racismo, e compartilhar o amor”.

 

Flávio Meireles

Fonte:  Cidade Verde

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