Território é o centro: clima, raça, moradia e desigualdade nas cidades brasileiras

16/04/26
Por Mariana Belmont

As imagens do sol batendo no chão e o passeio pelo Ibura ao lado de Dona Gil nunca mais vão sair da minha memória. Eu estava em casa; o território parece o meu, em Parelheiros. Com a vontade de organizar a memória, a raiva e o desejo de construir futuros possíveis e reais, com as pessoas. Clima, moradia e pessoas, não necessariamente nessa ordem.

Entre os dias 10 e 12 de abril, Recife e Olinda foram palco de mais um encontro que evidencia uma verdade incontornável: não há como discutir o futuro das cidades brasileiras sem enfrentar, de forma integrada, as crises climática e habitacional. O Encontro Moradia e Justiça Climática nas Cidades, realizado pela Habitat para a Humanidade Brasil em parceria com o Ibura Mais Cultura e o Gris Espaço Solidário — duas organizações de base fundamentais para os debates de adaptação antirracista nas cidades — reuniu especialistas, lideranças comunitárias e ativistas em torno de uma agenda urgente e ainda subestimada no debate público.

Crédito: Ubira Machado @ubirafotografia / Acervo Habitat Brasil

Volto com uma percepção óbvia, mas importante de reforçar, sobre território: ele é o espaço mais importante como termômetro social, racial e político. Mulheres negras na linha de frente, liderando, organizando e construindo dinâmicas de participação e sonhos que fazem sentido para o futuro. Bonito, mas urgente. Processos comunitários e territoriais para a produção de política pública são urgentes; reconhecer a escuta e fazer junto é algo que não faz sentido para as estruturas embranquecidas do Estado.

A iniciativa partiu de um diagnóstico claro: os impactos das mudanças climáticas não se distribuem de maneira igual. São os territórios historicamente negligenciados, periferias urbanas, ocupações informais, áreas de risco, que concentram os efeitos mais severos de enchentes, deslizamentos e ondas de calor. Ao mesmo tempo, são esses mesmos territórios que enfrentam as maiores barreiras no acesso à moradia digna e a políticas públicas estruturantes.

Ao longo de três dias, o encontro apostou na articulação entre diferentes atores — sociedade civil, movimentos sociais, pesquisadores e também representantes do poder público — como caminho para construir respostas mais consistentes. Mais do que um espaço de debate, tratou-se de um esforço de convergência: alinhar diagnósticos, compartilhar experiências e fortalecer estratégias de incidência política em um momento particularmente sensível, marcado pela proximidade do ciclo eleitoral e pelo agravamento dos eventos climáticos extremos.

A programação refletiu essa diversidade de olhares e abordagens. Desde mesas de debate sobre políticas urbanas até visitas a territórios periféricos da Região Metropolitana do Recife, passando por intervenções artísticas e discussões sobre comunicação, o encontro buscou conectar teoria e prática. Ao levar participantes a comunidades como Ibura e Várzea, por exemplo, evidenciou-se que a adaptação climática e o direito ao território não são conceitos abstratos, mas realidades vividas cotidianamente.

Crédito: Yane Mendes @eu_sou_yane / Acervo Habitat Brasil

Tivemos a oportunidade de contribuir para a conversa sobre conjuntura, em uma perspectiva sobre “2026: qual o espaço do clima e da moradia no debate eleitoral?”. Olhando para uma agenda sobre democracia, mudanças climáticas e eleições, o que não podemos perder de vista e o que devemos reconhecer e melhorar no caminho político dos próximos meses.

O que fica, ao final, é a constatação de que enfrentar a crise climática exige muito mais do que soluções técnicas isoladas. Exige reconhecer desigualdades históricas, redistribuir recursos e, sobretudo, colocar a moradia digna no centro das estratégias de adaptação e mitigação — sem isso, qualquer promessa de cidade resiliente será, no máximo, incompleta e, no pior dos casos, excludente.


Mariana Belmont é jornalista, pesquisadora e mestranda em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília (UnB). Nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais. Escreve mensalmente para o portal Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista “Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental” da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). É assessora de clima e racismo ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.

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