segunda-feira, setembro 20, 2021
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Uma carta de amor às mulheres negras

Em 30 de outubro de 1970 uma jovem negra, de 21 anos, dava luz a terceira de sete filhos em Ibotirama, uma pequena cidade do interior do estado da Bahia. Mariazinha, como era chamada por todas pessoas que a conheciam, tem uma história que se repete a cada menina negra que nasce no meio da roça, que não tem acesso à educação e a saúde de qualidade e vida, e o lazer quase que como um pecado, mas que nunca abriu mão de brigar por nenhum dos seus. Fosse filho, fosse neto, fosse o que fosse, se ela amasse ela defendia contra qualquer coisa.

Dona Mariazinha era mãe de 7, avó de 19 e bisavó de 12. Dona de histórias de amores, de dores, de alegrias e de tristezas, como qualquer outra mulher. Há um ano, quando minha avó morreu, pensei quem contaria suas histórias e com quem eu aprenderia mais sobre mim e sobre o mundo, e principalmente, como honrar sua história e vida. Pensar sobre isso me faz lembrar da bebê que nascia há 50 anos atrás.

Neidinha, filha de Mariazinha, não tinha nem 18 anos quando tomou a coragem e benção da mãe e se jogou para São Paulo. Mais uma menina preta com vergonha do seu cabelo, mas orgulhosa da sua pele, vinda do Nordeste que teimava em levantar e sonhar, sem nem mesmo conhecer Maia Angelou, ou qualquer outra feminista que lhe praticasse sororidade.

Quais são as possibilidades que existem para as mulheres negras?

Eu sempre me pego imaginando como deve ter sido, no começo dos anos 90, para uma jovem negra, recém-chegada da roça na cidade grande, cheia de sonhos e de repente, mãe solo de três. Isso me faz pensar o papel dos homens nas vidas das mulheres, mas me faz pensar de maneira mais intensa sobre como manter sonhos tendo que manter vidas completamente dependentes.

No Brasil todo dia é 7×1 para as mulheres negras. As possibilidades que lhe são negadas são devolvidas em novas possibilidades. Assim, mesmo sem saber as mulheres negras são fontes infinitas de possibilidades para as outras mulheres. E foi assim que a única opção que foi dada a minha mãe foi entregar seus filhos a Dona Mariazinha para cuidar.

Morar com a minha avó nos meus primeiros anos de vida me possibilitou querer ser uma mulher forte, livre e dona de mim, exatamente como eu a via e sentia. Toda vez que ela saía para trabalhar na roça e não me levava com a desculpa de que eu era magrela e pequena, era a forma que ela encontrava para me dizer: sonhe alto, minha pretinha.

Voltar para São Paulo e dividir a vida e uma cama pequena, no quartinho de empregada, com a minha mãe me possibilitou querer ser uma mulher independente, grande e livre, exatamente como eu a via e sentia. Quando criança eu tinha certeza que a minha mãe na verdade era uma bruxa boa, afinal, uma pessoa que nasceu no dia 30 de outubro, no meio da roça, com ajuda de uma pessoa não identificada que passava pela estrada, era demais para uma criança compreender. Lembro que amava e me orgulhava da ideia de ter uma mãe bruxa. E toda vez que eu me expressava brincando, dançando, escrevendo, lendo e sonhando dentro daquele quartinho apertado, ela sem saber me dizia: sonhe alto, minha pretinha.

Agora um convite, pare por um segundo e pense em uma, ou mais, mulher negra que te tornou possível alguma coisa que parecia ser distante. Dona Mariazinha tornou possível que todas suas filhas, netas e bisnetas se tornassem mulheres negras livres, e com isso possibilitou sonhos em mulheres que desde o início foram impedidas de sonhar.

No dia 15 de agosto de 2019, a menina que paria no meio roça, completou 70 anos. Três meses depois, no dia 6 de novembro, ela se tornou ancestralidade. Dona Maria me ensinou que mulheres negras não morrem, tornam-se ancestrais. As mulheres negras da minha família possibilitaram a minha avó um fim de vida cheio de amor, cuidado e respeito. Nada que já não fosse esperado, você pode pensar, e eu concordo. Mas o que eu quero é registrar o poder daquela menina da roça, da pele pretinha, que possibilitou a 12 mulheres negras na cidade grande, em um momento de dificuldades e necessidades, pararem e vivenciar o feminismo negro e a sororidade em sua plenitude, mulheres estas que também nunca tiveram contato com estes conceitos e teorias, mas se entregaram na prática.

As mulheres da roça têm suas vidas e histórias invisíveis para a sociedade. Não foi diferente com a minha avó que trocou a caneta pela enxada logo nos primeiros anos de vida. Honestamente, eu não sei se ela já pintou com lápis de pintar ou qualquer coisa parecida, mas sei que ela amava as cores e o colorido, e sei disso porque assim como uma excelente trabalhadora da roça, ela foi a melhor costureira que já conheci, e suas costuras era todas coloridas, cheias de vida e flores, exatamente como ela.

O atual sistema social, político e econômico sempre vai silenciar as vozes e histórias de mulheres negras, especialmente se forem vistas como analfabetas que não conseguem escrever suas próprias histórias. Mas, nós estamos por nós, e é essa a mais linda lição que Dona Maria e Dona Neide me ensinam todos os dias, e que eu quero poder passar para frente honrando este legado.

Este texto é uma carta de amor aberta para minha avó, que nos últimos dias que passamos juntas me ensinou muito mais sobre mim do que imaginava saber; à minha mãe que me ensinou que 50 anos é metade de uma vida que precisa ser vivida por inteira; às mulheres da minha família e às meninas e mulheres negras, a quem estendo os olhares da Mariazinha que sempre me pediram para levantar, quando fosse preciso, e sonhar alto sempre.

*Mayara é Líder do Programa Marielle Franco de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras, advogada responsável pelo projeto Justiça Juvenil do programa Prioridade Absoluta do Instituto Alana e criadora da página Sonhe alto, pretinha.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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