Uma homenagem da diáspora para Manu Dibango

A palavra “mano” não era uma palavra típica da nossa família. O “mano” chegou através de um irmão que viveu muitos anos no Rio de Janeiro, voltando pra Salvador o trouxe pra minha família e, volta e meia aqui na diáspora reencontro esse falar brasileiro. A gente gosta de irmandades. Mas o mano aqui é um grande irmão musical que não nasceu dentro da minha família sanguínea e sim dentro da minha família panafricana.

Morando aqui na Alemanha é que vim conhecer esse “mano”, que é Manu Dibango.

Nascido em Douala, maior cidade dos Camarões, ele veio ao mundo dia 12 de dezembro de 1933. Filho de um pai do grupo Yabassi e a mãe uma Duala.

No ano de 1950 ele começa a aprender a tocar piano, mais tarde vai para a França para estudar música e lá começa a tocar nas noites de Paris o que traz grandes problemas com a família e o pai corta seus subsídios. A partir daí ele tem que viver do Saxofone, pra nossa sorte.

Lá ele conhece o músico Joseph Kabasélé que coloca ele em sua orquestra. Mais tarde ele vive em Bruxelas onde conhece sua esposa.

Seu maior sucesso ele conseguiu com a música “Soul Makossa” lançada em 1972, e como muitas vezes quer o destino essa música foi gravado no lado B do disco, ele comenta em uma das entrevistas como surgiu a ideia e de como não contou com a possibilidade dessa música ser tão famosa.

Pela primeira vez um artista africano ficou em primeiro lugar nos Charts dos Estados Unidos. Soul Makossa é mais que uma música, é também um estilo de ver a vida e também um estilo de dança que vejo nos festivais africanos sendo dançada por pessoas dos Camarões.

Manu Dibango fusionou a tradição de sua terra com o Highlife-Pop assim como com o Reggae, Funk e Cha-Cha-Cha, ou seja, pra ele a música é sem fronteiras.

Nos anos 90 ele está entre os grandes da Worldmusic. Ele trabalha durante sua vida com os grandes da música como Herbie Hancock, Fela Kuti, Youssou N’Dour entre outros.

Soul Makossa é uma música que é citada em várias outras músicas, as sílabas “mama sa mama ma” a forma que é falada traz uma ritmia inigualável e muitos músicos copiam mais tarde esse citado, entre eles Michael Jackson e Rihanna.

Em uma entrevista ele fala da benção e da maldição de ser sempre lembrado por uma única música quando na verdade ele fez tantas outras, além de ser compositor ele era também cantor.

2004 Manu Dibango é honrado pela UNESCO como “Artista pela Paz” e 2006 recebe o Africa Festival Award, do Festival de Würzburg , maior Festival de Música Africana da Alemanha que acontece desde 1989 e todos os anos traz as grandes estrelas africanas. Foi lá que eu vi pela primeira vez a grande estrela: Miriam Makeba. O calor que vivi naquele dia não esqueço, Miriam chamou Manu Dibango “Brother” em cima do palco e nós suas irmãs. Poderia mentir e dizer que pude abraça-la! Mas confesso que eu era só mais uma no público sentindo essa vibração sonora.

Respeitado e admirado Manu Dibango foi um jazzista excepcional que não negou sua africanidade e presenteou o mundo com muitas harmonias.

Abrilhantando muitos palcos da Europa, sua presença nos festivais africanos foi sempre um dos ápices. Cada concerto com o “Manu” foi um reencontro pra almas diaspóricas.

Somos uma família de adoradores da alegria e da paz e por isso resolvemos fazer essa homenagem a este músico maravilhoso que nos deixou no dia 24 de março deste ano vítima do Covid19. Ele foi o primeiro artista famoso vítima do Covid19. Faleceu em Paris e lá foi enterrado. Creio que se não estivéssemos em estado de pandemia muitos músicos teriam feito romaria para prestar suas condolências e prestar honras a este músico africano singular.

Nós decidimos que não vamos deixar de honrar nossos ancestrais, não podemos esquecer seu legado da alegria e mostrar gratidão.

Assim surgiu esse pequeno projeto entre Alemanha, Brasil, Senegal e França. Todos vibrando na harmonia de Makossa, tivemos em comum o desafio de driblar as dificuldades das tecnologias e fazer música há distâncias. Assim surgiu esse projeto que será apresentado ao público no dia 12 de dezembro de 2020, o primeiro ano que Manu Dibango não festejará sua estadia aqui no Ayê. Pra esse Manu fizemos essa homenagem e aqui fica o convite pra ouvir mais esse projeto de Nagô Nilê, projeto abençoado por Mestre Didi dos Santos, O Mestre como era chamado no Ilê e no mundo afrobrasileiro.

A música africana é para todos e nosso desejo é que outros músicos consigam também sobreviver esse período de pandemia que os artistas não esquecem do seu papel vital na saúde e na moral da nossa sociedade.

Ele foi mais sua música ficou e todos que estão neste projeto: Holger Wittkowski, Tonynho dos Santos, Genaldo Novaes, Sérgio Rocha, Modou Seck Ananda Brandão e a humilde autora deste texto despretensioso, agradecem aos Ancestrais e pedem licença pra trazer “ManuMakossa” pro público. Essa é uma premiére, um encontro de alegria.

 

ANA GRAÇA CORREIA WITTKOWSKI

Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBa. Pós-Graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etinologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescentes na Alemanha.

 

Fonte: Por ANA GRAÇA CORREIA WITTKOWSKI, da Carta Capital

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