Uma pistola em cada mão

Com texto afiado e interpretações memoráveis, o diretor catalão Cesc Gay lança um longa-metragem que é o mais puro retrato tragicômico das masculinidades contemporâneas. O que os homens falam (Una pistola en cada mano, Espanha, 2014) apresenta oito homens vivenciando a assim chamada “crise da meia idade”, uma suposta fase de profunda autorreflexão que abateria homens na casa dos quarenta anos. Para além de ser um filme delicioso, a película nos faz repensar as representações que fazemos dos homens e das masculinidades.

Por:Adriano Senkevics

Centrando-se em distintos núcleos do enredo, o filme revela as problemáticas afetivas e pessoais que rodeiam a vida de oito diferentes homens. Entre eles, destaca-se a íntima e nostálgica conversa entre os personagens de Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia, este na saída da consulta a um terapeuta; a tentativa de Javier Cámara em reatar um relacionamento com sua ex-mulher (Clara Segura); a aproximação de Eduardo Noriega junto à sua colega de trabalho interpretada por Candela Peña, entre outros hilários (e ao mesmo tempo reflexivos) episódios.

Seguindo o roteiro clássico das boas comédias – com o adendo de que está é realmente uma boa comédia – o diretor constrói uma expectativa que é quebrada sempre de forma surpreendente, inusitada e irreverente. Funciona. E mais: funciona em todas as pequenas histórias que são contadas. Somado a isso, o filme é absolutamente despretensioso e, nesse quesito, faz da simplicidade sua maior virtude. Basta um elenco interessante, um texto bem escrito e personagens bem construídas. O que vemos são curtas esquetes, com duração suficiente para se aproveitar cada uma das figuras que nos são apresentadas ao longo dos seus 95 minutos de duração.

Sem atribuir nome aos personagens homens, o diretor parece transmitir a mensagem de que não quer comprometer os argumentos sobre o qual constrói seu enredo com a história de um tipo em particular. Seu destaque, evidentemente, são as situações. O que importa é o que eles vivem, e não o que eles são. Ou melhor, o que importa é o que eles falam sobre aquilo que vivem. Adotando uma perspectiva bem pessoal, até mesmo passional, o principal mérito do filme é quebrar o mito de que os homens não falam, ou não são capazes de falar, sobre seus medos, inseguranças e dúvidas.

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Desemprego, adultério, impotência, depressão, insegurança e angústias de outras ordens permeiam os oito homens retratados, a ponto de apresentá-los como o verdadeiro “sexo frágil”. Isso sem ignorar uma faceta um tanto patética de tais representações, como que propositadamente subvertendo o papel usualmente atribuído ao universo masculino daquele que é durão, confiante e viril. Curiosamente, o filme não precisa adotar um tom apelativo para fazer piada dos seus oito personagens: a simples retratação destes vivendo problemas ordinários soa suficientemente precisa. É, de fato, um filme sobre homens, mas está longe de ser um filme “machão”.

Sabe-se que a produção cinematográfica, no geral, é bastante androcêntrica. Nas películas de sucesso que importamos de fora, os homens costumam protagonizar os filmes, sendo que as poucas personagens mulheres que aparecem tendem a girar em torno das figuras masculinas, como esposas, namoradas, amantes, colegas de trabalho, primeiras-damas etc. Essa reflexão demandaria um estudo à parte – que, na realidade, já tem sido empreendido em alguns cantos. Raramente há mais de uma personagem feminina desempenhando um papel de relevância e, quando há, elas costumam atuar como adversárias na disputa por um homem. Já no longa-metragem em questão, a relação se inverte completamente.

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Em O que os homens falam, as personagens femininas estão muito mais seguras e bem resolvidas que seus colegas do sexo masculino; quando aparecem, elas dominam a cena, quebram as expectativas e, pasmem, transformam os homens em seus reféns, saindo por cima em todas as situações – mesmo quando não estão presentes, como é o caso de uma personagem feminina, a qual não surge em momento nenhum do filme, e é o motivo e o tema da longa conversa entre os personagens de Ricardo Darín e Luis Tosar.

A essas peculiaridades, acrescenta-se a reflexão de que tais incertezas masculinas não são fruto da “idade do lobo” ou da já mencionada “crise”. Elas são, senão, ingredientes naturais na vida de qualquer cidadão, usualmente maquiados por representações cúmplices de estereótipos sexistas. Desde sempre os homens enfrentam problemas, pois o processo de construção de masculinidades – mesmo de masculinidades hegemônicas, detentoras de poderes e privilégios em uma dada ordem de gênero – não se concretiza sem que haja custos. Dessa forma, a virilidade masculina é acompanhada de dúvidas sobre sua potência sexual, a divisão sexual do trabalho implica em certos fardos à imagem do homem provedor, entre outros. Esses não são apenas aspectos possíveis de se explorar entre os homens contemporâneos, como uma rica matéria para se escrever roteiros de comédias cinematográficas.

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De quebra, o filme de Cesc Gay carrega, em seu título original, uma ironia bastante instigante: uma pistola em cada mão. Sem dúvida, esse título faz referência aos duelos de Velho Oeste. Além disso, a ambiguidade do termo “pistola” adiciona um elemento um tanto vulgar. É um modo, assim, de remeter à ideia de que os homens estariam sempre prontos para a ação e, por que não, dispostos a pensar mais com a cabeça “de baixo” do que a de cima. Ora, após uma hora e meia de dramalhões íntimos, nostálgicos e angustiantes, nota-se que não há pistola alguma em cena ou, se ela existir, certamente estaria descarregada. A emoção, por fim, sobrepõe-se à razão. Trata-se de mais uma maneira que o diretor encontrou de, ao recorrer a uma imagem estereotipada, expressar exatamente o oposto dela.

Em consequência do que discutimos até agora, fica a sugestão de que masculinidades menos atreladas às representações tradicionais acerca dos homens beneficiariam a todas/os. O filme, que não se pretende profundamente intelectual e nem abertamente feminista, não chega a esse ponto. Mas esta é uma leitura que podemos fazer, para dar força ao argumento de que seria um ganho se os homens não andassem por aí portando uma pistola em cada mão. Até porque, no fundo, mesmo quando eles as portam, parecem não saber exatamente o que fazer com elas.

Fonte:Ensaios de Gênero

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