Vítima, eu?

Por Karoline Maia, 21, do Jardim Maia, zona leste de São Paulo no BrasilPost

Depois que comecei a trabalhar como repórter na Énois, dei algumas entrevistas pra falar sobre a empresa. Já que a minha história acaba sendo usada como exemplo do trabalho realizado aqui.

Karoline Maia
Num dia desses, um produtor de um canal de televisão ligou na redação pra marcar uma entrevista comigo. Eu aceitei. Aí, ele me perguntou se eu morava em uma comunidade. Eu respondi: “Bom, eu moro em um bairro…” Rolou um silêncio. Então, marcamos a entrevista, desta vez, na minha casa.

O dia do encontro chegou e a equipe foi ao meu lar, doce lar, no Jardim Maia. A conversa foi bem curta, mas tudo bem, a repórter até que era legalzinha. Falamos sobre como foi que eu conheci a Énois, o que eu faço aqui, como isso mudou minha vida… Nada de novo.

Depois, fui junto com eles pra redação da Énois e, no caminho, a repórter me perguntou de onde meus pais eram. Falei que minha mãe era de Pernambuco e meu pai, de Minas Gerais. Ela anotou as informações.

Enfim, chegou o grande dia. A matéria foi pro ar e, finalmente, eu poderia ver o resultado. No dia seguinte, fui procurar na internet! De cara, tomei o primeiro susto: a imagem estava horrorosa. Sério, um enquadramento que não favorecia nem a mim, nem a Amanda, cofundadora da Énois, que também participou da reportagem. Ficamos feias, não tava legal.

Depois, prestando mais atenção ao conteúdo, veio o segundo susto: me colocaram no papel de vítima. Como? Me apresentando como uma garota negra, da periferia, filha de migrantes que vieram pra São Paulo e que foi salva por um projeto social. Além disso, usaram uma das ruas mais feias do bairro pra ilustrar o lugar, o que deu a entender que aquela era a rua onde eu moro, o que é mentira.

A abordagem que eles escolheram me deixou muito triste e constrangida. Eu, que agora sou videomaker na Énois e, portanto, também trabalho com imagem, fiquei pensando o quão cuidadosa eu sou quando estou editando uma entrevista: pra não diminuir a pessoa, não fazê-la me odiar, não fazê-la sentir vergonha dela mesma…

Além da falta de noção da repórter e de quem conduziu a finalização desse material, esse fato reflete um outro problema: a mídia é produzida e comandada pela classe média branca. Ou seja, pessoas que têm vivências diferentes das minhas, no sentido social, econômico e racial.

Logo, não há uma garantia de que elas tenham alguma noção a respeito das especificidades das minorias. Pra elas, em alguns casos, é bem mais fácil reproduzir estereótipos do que acabar com eles.

Aviso aos jornalistas

Queria deixar um recado pra todos que produzem conteúdo jornalístico e que não fazem parte de nenhuma minoria ou que não estão atentos às sensibilidades delas: tomem cuidado com a maneira como vocês retratam as pessoas.

Não fiquem só preocupados com os cliques que seu conteúdo vai render ou com o tapinha nas costas do seu chefe. Saiba que as pessoas, donas das histórias compartilhadas com você, não desaparecem depois que seu trabalho foi feito. Elas vão vê-lo e, dependendo do resultado, podem ficar muito satisfeitas ou muito frustradas, como foi o meu caso.

Perceba sua posição privilegiada e use isso também a favor dos outros. Coloque-se no lugar do entrevistado, você gostaria que te retratassem daquele jeito?

Quero deixar bem claro que eu não tenho vergonha de quem eu sou, de onde eu moro, da minha cor e, muito menos, dos meus pais. A questão aqui é: contaram minha história de uma forma que me vitimizava, e o que eu não sou, meu bem, é vítima. Eu tenho total consciência do que meu gênero, a cor da minha pele e minha classe social representam no mundo. E, por isso, hoje me sinto uma mulher empoderada!

Essa história serviu pra me ensinar algumas coisas, entre elas, que, a partir de agora, eu mesma vou contar a minha história, da forma que achar melhor. A outra é que: jornalistas, vocês não são mais bem-vindos na minha casa.

Ilustração: Vitor Teixeira

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