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Você não pode fechar 2018 sem ver a ‘Ocupação Ilê Aiyê’, primeiro bloco afro do Brasil

Até 6 de janeiro, São Paulo abriga um pedaço da história do Curuzu. Nunca ouviu falar? Então pegue o metrô e desça no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, para conferir a Ocupação Ilê Aiyê

Por Kauê Vieira, do Hypeness

Você tem o mês de dezembro inteiro para sentir o Ilê em São Paulo (Imagem retirada do site Hypeness)

O Ilê Aiyê é o primeiro bloco afro da história do Brasil. Fundado em 1974, no Curuzu, em Salvador, o mais belo dos belos se tornou o guia para a afirmação da negritude de baianos. Na verdade, o Ilê transcendeu a Baía de Todos os Santos e se tornou referência para a população do país com mais negros fora do continente africano.

“A ideia de fazer a ocupação surgiu do Itaú Cultural. Eles nos fizeram o convite e de pronto aceitamos. A gente achou sensacional poder contar nossa história para outros públicos e, sobretudo ao público paulista, onde a gente é tão bem recebido e numa cidade como São Paulo, que tem também não só paulistas, mas tantos baianos”, declara em entrevista ao Hypeness Val Benvindo, produtora do bloco e um das conselheiras editoriais da exposição.

No Itaú Cultural, esta história é contada por meio de sons, cores e música. Diferente de outras abordagens, o projeto se distancia de estereótipos e não se restringe ao Carnaval. A curadoria do estilista Renato Carneiro e o trabalho da equipe de coordenação formada por nomes como Sueli Carneiro e a própria Val Benvindo, exalta justamente o aspecto de unificação do bloco afro.

O Ilê é Carnaval também, temos uma visibilidade muito grande, é super importante, mas não é a única coisa. É Carnaval, mas também é política quando a gente sai cantando e contando as coisas com os temas que a gente faz. A gente fala de estados brasileiros com relações africanas, nações africanas, personalidades negras, então quando fazemos isso, estamos fazendo política, comunicando o que a gente quer.  O próprio povo preto precisa e merece ser empoderado e chegar no poder. Só se empoderar não adianta , a gente precisa chegar no poder. E é isso que a gente tenta fazer.

Tudo começa com uma mulher negra, Mãe Hilda Jitolu (Imagem retirada do site Hypeness)

O Ilê Aiyê foi fundado a partir dos ideais da líder religiosa negra Hilda Dias dos Santos. Conhecida como Mãe Hilda Jitolu, a ialorixá ficou marcada pela ação social e a luta pela expansão dos laços entre brasileiros e africanos e foi decisiva na formação do bloco.

Foi ela a responsável pela criação da Escola de Alfabetização, em 1988, incentivando filhas e filhos de santo a estudarem. A ação de Mãe Hilda serviu de estímulo para, em 1995, a execução do Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê, que começou a atuar nas escolas públicas do bairro da Liberdade, em Salvador.

“Temos vários projetos sociais. Tem a Escola Mãe Hilda, o Band’erê, projeto com grupos da terceira idade e até ações culturais, como a Noite da Beleza Negra, os ensaios do Ilê, A Semana da Mãe Preta. Acho que o que faz o bloco ser admirado é essa ambição que o Ilê cumpre. Aonde a gente vai e o que a gente faz, faz com que as pessoas entendam a importância do Ilê e vejam que vai muito além de Carnaval”, reflete Val Benvindo.

A partir de Mãe Hilda, o Ilê foi criando corpo, sobretudo com a atuação de dois nomes, Antônio Carlos do Santos, o Vovô do Ilê e Vivaldo Benvindo, atual diretor de arte do Ilê Aiyê.     

A expressão da força da cultura negra é o trunfo máximo do Ilê Aiyê. Como um bloco de Carnaval, utilizou a cultura para reforçar a importância das ações afirmativas em favor de negras e negros, sendo uma das entidades precursoras do movimento negro brasileiro.

“A importância do Ilê é enorme. Eu cresci ali dentro como uma mulher preta. Dentro dos bastidores do Beleza Negra, ouvindo as canções e entendendo o quanto eu era bonita, podia ser o que quisesse e posso e devo ser amada. Então, pra mim, a construção é 100% genuína”, comemora Val.

O Ilê Aiyê é também a reafirmação da religiosidade negra brasileira (Imagem retirada do site Hypeness)

Se hoje em dia ser negro no Brasil é um desafio repleto de obstáculos, imagine na há mais de 40 anos. No auge do Movimento Black Power nos Estados Unidos (que serviu de inspiração ao Ilê), o Brasil vivia o ápice da ditadura militar.

Eram tempos de repressão constante das liberdades. Naquele período, ser negro no Brasil era desafiador. Mais, era resistência. Trançar os cabelos, usar dreads ou desfilar com símbolos da negritude ou da religiosidade afro-brasileira era reprimido pela polícia e associado à marginalidade.

Não para o Ilê. O bloco desfilou pelas ruas da Liberdade – bairro periférico com uma das maiores densidades negras de Salvador, cantando o seguinte:

“Somo crioulo doido, somos bem legal
Temos cabelo duro, somos black power
Somo crioulo doido, somos bem legal
Temos cabelo duro, somos black power”

“Imagine, naquele momento, um grupo de jovens negros da Liberdade, cantando ‘que bloco é esse’ e ‘eu sou lindo’? Os caras ficaram assustados. A gente chegou a ter ensaios suspensos e desfile acompanhado pela polícia”, recorda Vovô do Ilê.

Ocupação Ilê Aiyê destaca outro aspecto do Ilê, a presença feminina. Ela se dá pelo protagonismo dentro do Candomblé, como o exercido por Mãe Hilda Jitolu, mas também na afirmação da autoestima.

Durante a visita, o público conhece um pouco deste universo por meio de fotografias e roupas usadas pelas participantes da Noite da Beleza Negra. A festa acontece há 39 anos, Senzala do Barro Preto, sede do Ilê no Curuzu.

“Têm muitas meninas que frequentam o Ilê desde muito novas e estão nos projetos sociais e outras que descobriram o Ilê mais velhas, mas que colocam na conta do Ilê esse discurso de se descobrir negra. Então, eu acho que é essa a missão do Ilê mesmo. Empoderar o povo e aqui eu não falo só de mulher, mas de povo preto mesmo. De homens e mulheres que constroem suas comunidades pretas no Brasil todo e que relatam a importância do Ilê para a sua construção de identidade negra”, pontua a jornalista e uma das consultoras da mostra.  

O evento seleciona a Deusa do Ébano, mas sem práticas comuns de concursos de beleza tradicionais. Aqui, a ideia é celebrar a raça negra. Por isso, o concurso propõe a autovalorização para desconstruir o discurso racista. Corpos, mulheres e ideias de beleza plurais são os elementos centrais.

“Se não fosse o Ilê, eu provavelmente não seria quem eu sou. Talvez eu me descobrisse negra muito mais tarde e passasse por esse processo que várias meninas negras passam. Mas eu sempre soube meu lugar, sempre fui a aluna que sabia que era preta, tinha orgulho de ser preta e que não aceitava nenhum tipo de discriminação”, ressalta Val.

Deixa eu curtir o Ilê

Os tambores do Ilê Aiyê têm espaço garantido na mostra. Presente em desfiles comemorativos e no Carnaval, claro, eles tocam ritmos inspirados no Candomblé e outros sons da diáspora africana.

Como tradicionalmente acontece, a função social está atrelada com a expressão cultural. Em 1992, nasceu a Band’Erê, envolvendo jovens e crianças em um trabalho vasto de conhecimento da cultura negra.

Pode-se dizer com segurança que tanto a Band’Erê, quando o Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê contribuíram para a instauração da Lei 10.639/03, que oficializa a obrigatoriedade do ensino de África nas escolas.

“O Curuzu virou um ponto de convergência e outra coisa mais interessante, dentro da sala de aula os alunos perguntavam. Quem é Dandara? Quem é Akotirene? Quem é Zumbi? Vão lá no Curuzu procurar saber. Então, houve uma migração de estudantes de escola pública e privada para virem ao Curuzu saber quem são essas personagens que a gente tanto cantava. Não estava na historiografia, os professores não sabiam por conta da gente não ter na nossa formação o conhecimento da história de África e da resistência negra aqui no Brasil. Quem descortinou essa história foram, realmente, os blocos afro”, pontua Arany Santana, Secretária de Cultura da Bahia.

Ocupação Ilê Aiyê fica em cartaz no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, até o dia 6 de janeiro. A entrada é franca. Saiba mais aqui.

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