Yoshiaki Nakano: Livrar o Brasil da mentalidade colonial

Luiz Antonio Cintra

Yoshiaki Nakano não está preocupado com a crise que desde 2008 abala as chamadas economias centrais. Para o ex-braço direito de Mário Covas, hoje diretor do Instituto de Economia da FGV-SP, o cenário de pesadelo na Zona do Euro pode poupar a economia brasileira, ainda que haja nuvens carregadas no radar. Como em outros momentos da história nacional, diz Nakano, que cita a segunda metade do século XIX como exemplo. “Foi a crise dos anos 1880 que gerou migração, resolvendo os problemas que permitiram o início da industrialização brasileira.” As preocupações de Nakano concentram-se na capacidade de o País realizar as reformas que ele julga necessárias, a começar pelo desmanche dos instrumentos de indexação, tarefa adiada governo após governo desde 1994.

Carta Capital: A inflação subiu ao longo do ano e o Banco Central levou muita bordoada do mercado. Qual a sua avaliação?

Yoshiaki Nakano: Temos um problema que precisa ser resolvido, que é acabar com a indexação. Com isso a nossa meta não precisaria ser de 4,5%, poderia ser muito menor, sem incorrer em custos absurdos para se chegar a ela. Na minha avaliação, pelo menos essa é a minha leitura da mudança do BC, desde o fim de agosto: finalmente estamos chegando a praticar uma política de metas de inflação correta. Quando o sistema de metas de inflação foi implantado chamava-se Política de Meta de Previsão de Inflação. Quando se toma uma decisão sobre os juros hoje, o efeito vai ocorrer lá na frente, não para trás. Aqui no Brasil, digamos que em 12 meses você tem os efeitos importantes daquela medida. Então é preciso prever a inflação com seis a oito meses e comparar com a sua meta. O que nós inventamos? Novamente uma jabuticaba. Usamos a inflaçãopassadaacumuladaem12mesespara comparar com a meta, o que é um absurdo total. Para mim, desde o momento da implantação, escrevi dizendo que estava errado. Se você analisar o período recente, claramente a inflação no Brasil acelerou a partir de outubro de 2010. O preço das commodities começou a subir e foi ajudado também porque, com a recuperação da economia, o setor de serviços, com o câmbio apreciado, também ajudou… De outubro a abril, a taxa de inflação subiu, antes vinha mais ou menos a 0,35%, 0,40% ao mês, ou seja, dentro da meta. Aí houve um salto porque as commodities começaram a subir, e a inflação mensal foi para 0,75%, mais ou menos, isso até abril. Em maio, o preço das commodities lá fora começou a cair e voltamos para o patamar médio de maio até outubro, de 0,35%. Se você analisar o 0,35%, que é a média mensal, dá menos que 4,5% (ao ano). Então, rigorosamente, nós estamos dentro da meta. Se você pega a inflação passada, a inflação de outubro do ano passado, novembro do ano passado, você está com 6,90% e alguma coisa. E as pessoas estão olhando para esse 6,95%, só que isso não faz sentido.

CC:Porquê?

YN: Precisa olhar para a inflação do ano que vem, olhar lá para frente. Se você pegar a inflação mais contemporânea, vai ver que está dentro da meta, mas todo mundo continua gritando. Esse é um grande erro conceitual. Você vai perguntar por que se manteve esse sistema. Por uma razão muito simples. Se você olha para 12 meses, a inércia da taxa acumulada é muito maior do que a de cada mês. E o que acontece? Se a inércia é grande, precisa manter os juros altos por um período maior. E há ainda outra razão. Para os juros altos terem uma inércia muito grande no Brasil é que existe esse sistema de metas, que eu espero que o BC tenha realmente resolvido mudar. Particularmente porque o Tombini não é banqueiro, ele é economista. Se é economista, tem de minimamente entender o que é meta de inflação. Se você está olhando para frente, a sua reação não é atrasada. No Brasil, sistematicamente, quando a inflação de 12 meses sobe, a reação já está muito atrasada, porque você tinha de estar olhando lá para frente. E se você tem uma reação atrasada lá para trás, na hora de abaixar você também se atrasa. Acho que o BC, em 31 de agosto, rompeu com esse paradigma errado, incorreto, absurdo que tinhamos. E está se tornando mais prospectivo e mais ágil. E a inflação nos próximos meses acumulada vai cair porque está saindo (do índice acumulado de inflação) um outubro (de 2010) de 0,77% e entrando um outubro de 0,40%. Então vai cair nos 12 meses (acumulados). E isso, por razões erradas, acalmou o mercado também. O BC para mim agora está ganhando independência e autonomia. Porque a autonomia do BC não é só em relação à classe política, é em relação também ao mercado. Por isso é que o mercado chiou, um monte de artigos e gente dando entrevista dizendo que o BC tinha quebrado um protocolo. O que é o protocolo? Os economistas de banco projetam “tá, tá, tá”, o tesoureiro de banco toma uma decisão e aí o jornal publica uma pesquisa das instituições financeiras mais importantes. Um aposta que (o corte dos juros) vai ser de 0,25%, outro de 0,50%. Qual a maioria? (Digamos) 0,50%. O BC ia e abaixava 0,50%. Só depois de agosto, pela primeira vez, pegou quase todo mundo de surpresa. Porque aquele sistema em que o mercado impunha uma sistemática ao BC foi rompido.

CC: Acabou a moleza?

YN: Não, não, o mercado se adapta rapidamente. Começa a olhar para frente também.

CC: O senhor está otimista com 2012?

YN: Estou, mas lógico que para ficar otimista é preciso fazer aquelas mudanças que eu disse (desindexar a economia, melhorar a gestão pública, reduzir o Custo Brasil). Se fizermos essas mudanças, o Brasil poderia entrar em uma situação parecida com todas as crises internacionais anteriores. É muito interessante observar o seguinte na história do Brasil. O Brasil de certa forma deslanchou nas últimas décadas do século XIX. Criou-se então um projeto para construir uma sociedade moderna, urbana. Foi a crise dos anos 1880 que gerou migração, resolvendo os problemas que permitiram o início da industrialização. Durante a Primeira Guerra, expandimos; durante a Segunda Guerra, expandimos. Com a crise de 1930, finalmente mudamos o polo de crescimento, do dinamismo de fora de uma economia exportadora, e nos industrializamos. Então o Brasil foi bem nos momentos de crise. A lógica disso é complexa, mas muito evidente e clara.

CC: Qual é essa lógica?

YN: O Brasil ainda tem uma mentalidade colonial, valorizamos aquilo que é do exterior, do Primeiro Mundo. Nós não pensamos com a nossa cabeça, importamos as coisas etc. e particularmente as ideias. Quando o mundo entra em crise, entra em crise todo um modelo, todo um pensamento, todo um conjunto de ideias. A teoria econômica, ortodoxa, convencional, prevalecente entrou em declínio. Então, o que é preciso fazer nos momentos de crise? O Brasil precisa pensar com a própria cabeça e olhar para dentro. Aí você vai descobrir que tem potencial de crescimento, problemas que precisam ser resolvidos, e deixa de olhar para uma miragem. Aquilo em que eles acreditam e desenvolvem vale para eles, não para nós. Então você tem nesses momentos de crise internacional um momento de crise também do pensamento econômico, de um modelo econômico, da estratégia de crescimento daqueles países… Hoje ninguém está querendo copiar alguma coisa da Europa ou dos EUA, que estão em crise em termos de pensamento. Então você vai ter de pensar com a própria cabeça. Essa é a grande mudança que permitiu ao Brasil avançar. Você deixa de priorizar a globalização e passa a priorizar os problemas de interesse doméstico. E enfrentar os problemas domésticos mais para valer. Porque o dinamismo não vai mais vir de fora, tem de ser aqui de dentro. E aquelas coisas de Consenso de Washington… isso já foi lá pra baixo. Então, na verdade, essa crise está derrubando um tipo de hegemonia política e ideológica de um pensamento que existiu. Isso abre espaço para você pensar o País.

CC: E como o senhor avalia o pré-sal?

YN: Neste contexto atual de crise, talvez seja muito importante. Agora tem outro fator, que é também muito importante e foi importante na transição de que falamos, do fim do século XIX e início do XX, para finalmente mudar o modelo em 1930. É que os países emergentes estão crescendo. Os países desenvolvidos é que vão declinar. E a estagnação, a crise dos países desenvolvidos, já está gerando imigração. A imigração não vai vir dos desempregados do mundo emergente, mas de gente qualificada do mundo desenvolvido, e isso já está acontecendo. Sei de empresas que estão trazendo engenheiros de Portugal, da Espanha. Então o nosso problema de qualificação vai ser resolvido pela vinda eventualmente de imigrantes, de gente qualificada. E isso vai obrigar os brasileiros a reagir. Se você demanda aprendizagem, as instituições que conseguem fazer o aluno aprender vão ser valorizadas. As que não fazem isso vão lá pra baixo. Esse pode ser um fator que dê impulso à produtividade e eficiência no Brasil. Essas coisas acontecem nesses momentos de crise, como aconteceu na década de 1870, em geral na Europa, a vinda maciça de imigrantes. E lógico que aí você precisa reduzir a burocracia de imigrantes no Ministério do Trabalho, que é um absurdo.

CC: o senhor acredita que a inclusão das classes emergentes tem fôlego para se manter nos próximos anos?

YN: Acho que tem. Na verdade, acho que

o fundamental não foram os programas sociais. O que os programas fizeram foi importante, não estou desmerecendo. Mas o fundamental foi a mudança demográfica. Lá na década de 1970, a taxa de natalidade começou a cair. No inicio da década de 1980, já caiu. E a partir de 2004, a população jovem, de 18 a 24 anos, em termos absolutos começou a cair. Tinha 35 milhões, hoje deve ser de 33 milhões ou 32 milhões. A populacão está envelhecendo. Então é na base da pirâmide que o salário, está subindo. Acho que a imigração vai vir, mas não vai reduzir o salário porque vai vir gente de nível mais elevado e que tem salários melhores. Os emergentes também estão crescendo e têm essa imigração para disputar. Essa mudança demográfica mudou a dinâmica do mercado de trabalho. Em um conjunto enorme de setores, corno o custo de mão de obra era tão baixo, contratava-se gente muitas vezes de maneira informal. Agora teve não só de formalizar como pagar mais, então passa a ter a preocupação com produtividade. Basta ver o que acontece no mercado da construção. Se olhássemos uma obra, a ineficiência saltava aos olhos, viam-se trabalhadores tropeçando uns nos outros. As empresas agora têm de pagar mais, tem de ter menos gente, e vai ser necessário incorporar tecnologias com maior produtividade. E isso já está acontecendo. Prédios que levavam quatro anos para ser construídos agora são erguidos em 20 meses. Lá fora, constrói-se em seis meses. Esse tipo de avanço tecnológico está vindo e virá para todos os setores. Empresário que é empresário vai olhar e ver que existe um monte de oportunidades que ele pode fazer. O cara que estava despreocupado com inovação, que reclamava que o trabalhador custa caro, vai ver que não adianta, se ele não pagar mais não consegue.

CC: Há como elevar a produtividade por aí?

YN: Há um espaço infinito para aumentar a produtividade. Criamos um circulo virtuoso: saímos de uma situação de economia com excesso de trabalho e estamos passando para uma economia normal, com uma dinâmica de mercado de trabalho diferente. O círculo virtuoso em que se aumenta o salário e o empresário tem de aumentar a produtividade para manter a margem de lucro. Se você paga um salário maior, o mercado é maior, então surgem novas oportunidades de crescimento. Em outras palavras, estamos finalmente criando no Brasil uma estrutura produtiva sem aquilo que Celso Furtado e (Raúl) Prebisch chamavam de insuficiência dinâmica. Porque o que caracteriza a estrutura produtiva dos países desenvolvidos é que ela própria, seu próprio funcionamento, é capaz de gerar estímulos dinâmicos. A própria operação do sistema gera crescimento. Se você está na fronteira tecnológica, isso se dá através de inovações. O nosso problema não é inovação, é gerar demanda. E criamos um sistema em que a própria operação do sistema gera demanda sem pressão de custo. O salário sobe, a produtividade sobe, o custo unitário do trabalho está caindo, a margem de lucro se mantém. É possível autofinanciar os investimentos e expandir. Tem um circulo virtuoso que pode durar algumas décadas, é uma oportunidade histórica, mas têm coisas que travam: juros altos, câmbio destrutivo, falta de investimento em infraestrutura, falta de poupança do setor público etc. Se você mudar isso, o potencial de crescimento da economia é outro. Se conseguir fazer ajustes e elevar a taxa de investimento a 24% ou 25% do PIB não há razão para a economia brasileira não voltar a crescer 7%.

 

 

 

 

Fonte: Viomundo

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