Zelinda Barros: Ativista também cansa

POEMA DE LA PUENTE
Kate Rushin

Estoy harta
enferma de ver y tocar
ambos lados de las cosas
enferma de ser la condenada puente de todos.
Nadie
se puede hablar
sin mi
¿No es cierto?
Explico mi madre a mi padre
mi padre a mi hermanita
mi hermanita a mi hermano
mi hermano a las feministas blancas
las feministas blancas a la gente de la iglesia Negra
la gente de la iglesia Negra a los ex-jipis
los ex-jipis a los separatistas Negros
los separatistas Negros a los padres de mis amigos.
Después
tengo que explicarme a mí misma
a todos.
Hago más traducciones
que las malditas Naciones Unidas.
(…)

Por Zelinda Barros, do Revista Quilombo

Numa conversa com uma companheira feminista, ela narrou um episódio em que uma ativista, reunida com amigas/os num bar, foi discriminada por ser lésbica. As pessoas que a acompanhavam se calaram diante do fato, esperando que ela reagisse. Cansada de ser a pessoa a quem sempre recorrem ou de quem se espera uma reação em situações de desrespeito a direitos, a ativista não reagiu e permaneceu por alguns segundos sob os olhares surpresos das acompanhantes. Passada a surpresa inicial, ela revelou o seu cansaço diante dessas situações recorrentes, que não a permitem relaxar em momento algum.

Este episódio, assim como a poesia que introduz esse artigo, é importante para nos fazerem refletir sobre o quanto exigimos de nós mesmas, sobre o modo como lidamos com quem pretendemos que nos represente e sobre as armadilhas envolvidas nessa relação, pois, sob o pretexto de que “Fulana/o me representa”, geralmente tendemos a nos acomodar esperando que outras pessoas lutem por demandas coletivas que também dependem da mobilização de nossos esforços individuais.

Pessoas com histórias de superação são admiráveis. Quando utilizam suas histórias em prol das lutas pelo bem comum, mais ainda. No entanto, há limites. A forma como as relações que envolvem representação política ocorre em nossa sociedade é extremamente perversa para quem se destaca em lutas coletivas. Histórias de adoecimento, solidão e morte são comuns. Por outro lado, assim como não tem sentido votarmos num/a candidato/a a um cargo público qualquer e sequer acompanharmos o que faz em seu mandato, também é inútil esperar que todas as nossas demandas sejam contempladas na atuação de um/a ativista.

No campo da luta por direitos humanos, reivindicamos o pleno reconhecimento da humanidade negada a pessoas negras, mulheres, sexualmente dissidentes e outros. Por isso mesmo, é impossível que sejamos super-humanos/as. Precisamos construir relações empoderadoras que façam com que a figura da/o ativista que se destaca dos seus pares seja substituída por situações em que todos as pessoas – as do círculo de relações próximas e distantes dessa/e ativista, participem efetivamente dos processos de construção coletiva e sintam-se fortes o suficiente para também reagirem sozinhas quando forem desrespeitadas. Afinal, ter alguém que lute por demandas coletivas é uma situação cômoda para muitas/os, mas extremamente desgastante para as/os poucas/os que reagem cotidianamente a violações de direitos.

* Doutora em Estudos Étnicos e Africanos, Pós-doutoranda na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Pesquisadora do Coletivo Angela Davis – Grupo de Pesquisa em Gênero, Raça e Subalternidade

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