20 de novembro: uma disputa pela memória histórica

Por Jana Sá*

Preservar a memória coletiva como forma de libertação e construção da história. É pela disputa dessa memória que nas últimas quatro décadas se comemora, em 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra. A data foi oficializada pelo então presidente Lula em 2003, e é uma alusão ao dia do assassinato de Zumbi, um dos líderes do Quilombo dos Palmares, que se transformou em um grande ícone da resistência negra ao escravismo e da luta pela liberdade.

Celebrado pela primeira vez em 1971, a ideia se espalhou entre os movimentos sociais de luta contra a discriminação racial em oposição ao 13 de maio, que tinha uma conotação de concessão, de benesse do estado aos negros, apesar de ter sido conquistado após muitos anos de resistência. O 20 de novembro, por outro lado, foi apresentado como uma forma de mostrar o quanto o país ainda está marcado por diferenças e discriminações raciais, e busca dar visibilidade a um problema que sempre foi negado, dentro e fora do Brasil, como se não existisse.

A diversidade de formas de celebração do Dia Nacional da Consciência Negra permite ter uma dimensão de como essa data tem propiciado congregar os mais diferentes grupos sociais e como o movimento afro-descendente retomou sua expressividade no cenário político contemporâneo.

Contudo, faz-se necessário atentar para a importância em se conquistar o 20 de novembro como o dia nacional de todos os brasileiros e brasileiras que lutam por uma sociedade de fato democrática e justa, capaz de unir a diversidade dos movimentos sociais num projeto de nação que contemple a multiplicidade engendrada no nosso processo histórico.

Nesta semana, em que paramos para comemorar, através de simpósios, palestras, congressos e encontros, ou ainda a partir de feiras de artesanatos, livros, ou outras modalidades de expressão cultural, também precisamos refletir. Apesar de todos os avanços já conquistados, ainda existem poucos negros em cargos de destaque nas empresas, nas universidades ou na política. Estudos confirmam que prosseguem as diferenças históricas desfavoráveis aos negros no mercado de trabalho. A luta pela superação das desigualdades sociais entre negros e brancos na sociedade brasileira é um elemento constitutivo do movimento negro desde os tempos da escravidão. Entretanto, é preciso entender que a desigualdade no Brasil tem cor, nome e história. Esse não é um problema dos negros no Brasil, mas sim um problema do Brasil, que é de negros, brancos e outros mais.

Do ponto de vista das ações afirmativas, o país caminhou bastante nos 10 últimos anos no que diz respeito aos cenários mais positivos para a mobilidade social, o desenvolvimento pessoal, a formação profissional e as chances de concorrência e competição do homem e da mulher negra no mercado de trabalho. A modalidade de política eleita como reivindicação principal do movimento negro, na atualidade, são as políticas públicas de ação afirmativa.

Então, comemoraremos não para contrapor uma data a outra, os heróis brancos aos heróis negros, mas porque é necessário tomarmos consciência da história que está nessas datas, que traz elementos da nossa identidade. Somente desta forma seria possível contribuir para desmistificar toda a construção ideológica produzida sobre o povo negro.

A consolidação da democracia no Brasil exige o resgate dessa dívida, o reconhecimento da importância das culturas africanas na formação de nossa identidade e o direito a memória das gerações atuais e futuras da ignomínia e infâmia que foi quase quatro séculos de escravidão. Esse não esquecimento é fundamental para compreendermos as origens de nosso autoritarismo social cotidiano e construir as formas de erradicá-lo.

Ao celebrar o dia da consciência negra, faz-se necessário refletir sobre nossa responsabilidade no resgate da imensa dívida social que o Brasil tem em relação à população afro-descendente.

Fonte: Vermelho

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