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3 dos 5 indicados a Melhor Documentário no Oscar 2017 discutem questões raciais

3 dos 5 indicados a Melhor Documentário no Oscar 2017 discutem questões raciais

Conheça ‘Eu Não Sou Negro’, ‘A 13ª Emenda’ e ‘O.J.: Made in America’

por Amauri Terto no HuffPost Brasil

Depois da discussão do #OscarSoWhite, em que se criticou fortemente a ausência de atores e diretores negros na premiação de 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas apresenta neste ano avanços que finalmente começam a atender as reivindicações do movimento negro.

No Oscar 2017, cuja cerimônia será realizada no próximo domingo (26), pela primeira vez na história da premiação, três mulheres negras estão indicadas em uma única categoria. São elas: Viola Davis, Octavia Spencer e Naomie Harris. Elas disputam a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante e competem com Michelle Williams e Nicole Kidman. Entre os atores, há dois finalistas negros: Denzel Washington e Mahershala Ali.

Colando na ponta do lápis, essas indicações significam que a participação de negros subiu de 0% para 30% em relação à edição anterior. Esse número ainda está longe da equidade, mas já pode ser comemorado. Outra boa notícia é que esse não é o único cenário inédito relacionado à representatividade negra no Oscar.

Neste ano, três dos cinco concorrentes à estatueta de Melhor Documentário em Longa-Metragem discutem justamente a questão racial nos EUA – que dialoga com as tensões raciais que marcam o passado e o presente do Brasil. Aqui estão eles:

Eu Não Sou Seu Negro

Com direção do haitiano Raoul Peck, Eu Não Sou Seu Negro tem como ponto de partida as palavras e escritos de James Baldwin (1924-1987). Trechos de entrevistas, cartas e o manuscrito de um livro inacabado (com narração de Samuel L. Jackson) formam a refinada e contundente colcha de retalho da narrativa.

Já as imagens de Eu Não Sou Seu Negro combinam registros dos protestos e movimentos pelos direitos civis na década de 1960, filmes de Hollywood que acompanham os comentários de Baldwin, além de registros do escritor em debates e programas de TV – expondo sua visão a respeito da construção estrutural que é o racismo.

Em texto do site Todos os Negros do Mundo, a doutoranda em Antropologia Angela Peres descreve:

“As diversas camadas apresentadas passam por vidas sacrificadas por uma luta, Lorraine – a jornalista assassinada e esquecida, um presidente indiferente, brados e choros anônimos, entrevistas em emissoras de televisão, atores brancos e negros que interpretam o status quo, um filósofo que não sabe o que lutar para sobreviver e disputas. A sutileza do filme está em mostrar que as principais disputas não são fotografadas, são as disputas de ideias. ‘Branco é uma metáfora do poder.”

A 13ª Emenda

Dirigido por Ava DuVernay, do indicado ao Oscar Selma (2014), o filme A 13ª Emendainvestiga a manutenção do sistema escravocrata nos EUA, abolido por meio de uma emenda constitucional em 1865. O ponto central do documentário é a investigação do encarceramento desproporcional de negros no país.

Como aponta o jornal O Globo, a população carcerária dos EUA passou de 357 mil pessoas em 1970 para 2,3 milhões em 2014. Mais de 40% dessas pessoas são negras. O filme combina entrevistas com uma gama variada de especialistas, que inclui Jelani Cobb, do The New Yorker, a ativista dos direitos civis Angela Davis, o ex-Presidente da Câmara dos Representantes Newt Gingrich e Van Jones, ex-oficial da administração Obama.

Por meio desses comentários, a diretora relaciona tensões raciais históricas com episódios recentes frutos da permanência do ódio racial. Um dos trechos mais impactantes do longa apresenta vídeos de civis negros desarmados sendo mortos pela polícia – surto que teve como resposta o movimento Black Lives Matter. Ava lançou o filme diretamente na Netflix em outubro do ano passado.

Em entrevista ao The Washington Post, a diretora se mostrou orgulhosa pela estreia do documentário na plataforma de streaming. “A ideia de que as pessoas podem vê-lo a qualquer hora, em qualquer lugar, é poderosa”, afirmou.

O.J.: Made in America

O.J.: Made in America é um documentário de sete horas. Foi exibido integralmente em festivais de cinema e dividido em cinco capítulos pela ESPN, organização responsável pelo projeto. Com direção de Ezra Edelman, o filme faz uma investigação da história recente dos EUA – marcada pela tensão racial e culto às celebridades – a partir de um dos julgamentos mais famosos do país.

Astro do futebol americano universitário, Orenthal James Simpson, mais conhecido como O.J. Simpson, foi um dos primeiros atletas a abraçar o mundo dos comerciais e do entretenimento. Em junho de 1994, sua trajetória de estrela sofreu uma intensa queda quando ele foi acusado de assassinar sua ex-esposa, Nicole Brown Simpson, e um amigo dela, Ron Goldman.

O caso e seu desfecho polêmico mexeu intensamente com a opinião pública na época. Em crítica para o site Omelete, o jornalista de jogos e esportes Guilherme Jacobs descreve:

Todos os lados do confronto – O.J., a família das vítimas, a comunidade negra dos EUA, o departamento de polícia de Los Angeles – são apresentados como iguais. Seus argumentos são convincentes e tratados com a mesma seriedade. No fim das contas, Edelman apresenta todos como vilões. Ninguém sai vencendo aqui porque é exatamente isso que aconteceu. Ele julga e condena os Estados Unidos”.

Vale lembrar que os outros dois indicados ao Oscar de Melhor Documentário são: Fogo no Mar, que tem como tema principal a crise de refugiados na Europa; e Life, Animated, que mostra a história de superação de Owen Suskind, um americano que conseguiu regredir seu autismo por meio de desenhos da Disney.

O vencedor da estatueta será anunciado durante a cerimônia que ocorre no próximo domingo (26), no Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia.

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