segunda-feira, setembro 20, 2021
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50 anos de What’s Going On, disco absoluto de Marvin Gaye que ditou rumo da soul music

De acordo com Smokey Robinson, artista ícone da Motown Records, What’s Going On, de Marvin Gaye, é o disco mais importante da história. A Rolling Stone EUA, em sua lista de “500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos”, publicada em 2020, colocou o trabalho de Gaye na primeira posição dizendo que “com a obra, artistas negros sentiram uma nova liberdade para ultrapassar os limites musicais e políticos em suas artes.”

What’s Going On foi lançado em 21 de maio de 1971, há exatos 50 anos. A princípio, a obra de Marvin Gayeencontrou resistência do fundador da Motown Records, Berry Gordy Jr., por achar que a letra de protesto contida na música título – lançada em 10 de janeiro como single – seria arriscada demais comercialmente, e deu ao músico apenas um mês para gravar o álbum inteiro. Gaye, firmemente aceitou.

Na época, Marvin Gaye estava insatisfeito com a própria carreira e caminhando por lugares escuros e contemplativos. Sua amiga e parceira de duetos, Tammi Terrell, tinha acabado de falecer aos 24 anos devido ao um tumor cerebral, e o músico vivia atormentado pelas histórias de guerra contadas por seu irmão, Frankie, que lutou no Vietnã, e por questões como a pobreza dos guetos norte-americanos, injustiças sociais e com o ambientalismo.

Segundo a Rolling Stone EUA, o cantor disse o seguinte ao jornal Detroit Free Press sobre What’s Going On: “Eu trabalho melhor sob pressão e quando estou deprimido. O mundo nunca foi tão deprimente como agora. Estamos matando o planeta, matando os nossos jovens nas ruas e indo para a guerra em todo o mundo. Direitos humanos, esse é o tema.”

Com tantas insatisfações e contestações para expor, Marvin Gaye optou por uma mudança radical na sonoridade que o levou a territórios inexplorados jamais vistos na soul music. Em “What’s Going On”, canção que leva o nome do álbum, incorporou elementos sofisticados de jazz, música clássica, percussão e foi além de qualquer outro artista da Motown.

Com ajuda do arranjador David Van De Pitte e do baixista James Jamerson, o cantor criou na música a atmosfera sonora cinematográfica perfeita para protestar contra as malezas do mundo. Suingue, leveza e fluidez performados por seu incrível vocal improvisado em torno da melodia principal dão o clima ao perguntar inconformado e repetidamente: “What’s Going On” [O que está acontecendo?].

Na sequência, vem “What’s Happening Brother”, música em que Marvin Gaye assume a voz de um veterano do Vietnã (assim como o irmão do cantor) perplexo com a mudança na América e em busca de trabalho. “Mercy Mercy Me (The Ecology)”, outro clássico, é uma ode ao meio ambiente enquanto “Flyin’ High (In the Friendly Sky)” aborda o vício em drogas.

A obra se encerra com o lamento jazzístico de “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler).” À medida em que o álbum vai se encerrando, o groove melancólico continua quase que eternamente na mente do ouvinte.

What’s Going On foi um sucesso absoluto que atingiu o primeiro lugar da lista de R&B da Billboard e, além da faixa título, colocou outras duas canções [“Mercy Mercy Me” e “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)]” no Top 10 Pop Hits da Billboard .

Meio século depois, What’s Going On permanece guiando gerações musicais posteriores. É impossível não ouvir John Legend, Seal, Leon Bridges e Charles Bradley e não sentir a presença de Marvin Gaye. Até artistas de rock como Lenny Kravitz, The Afghan Whigs, Black Pumas e Gary Clark Jr. foram diretamente influenciados. E nem citamos os discípulos Prince e Michael Jackson por motivos óbvios.

Outra afirmação clara é que What’s Going On abriu caminho para diversos estilos afro-americanos como o hip-hop e o R&B moderno. Frank Ocean, Moses Sumney, Kendrick Lamar e The Weeknd são bebedores sedentos da fonte de Marvin Gaye.

Por fim, temas sociais e pessoais do cantor abordados no trabalho também fazem com que What’s Going On seja atemporal. Em 1984, Marvin Gaye foi assassinado aos 44 anos pelo próprio pai após uma discussão. No entanto, não há como não pensar que se estivesse vivo e olhando para o mundo agora, seguiria se perguntando: “What’s Going On.”

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