sábado, novembro 26, 2022
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A desvalorização da Vida Negra: uma violência simbólica com consequências reais

Os negros são as maiores vítimas da violência no Brasil. A posição social do negro contribui largamente para esta estatística, uma vez que são a demografia mais afetada pela desigualdade socioeconômica. Contudo, há razões para acreditar que não apenas a sua condição socioeconômica, mas também o preconceito racial contribua para esta estatística, o que nos urge para a necessidade de uma mudança do paradigma racial.

por Eliabe Ribeiro Vidal via Guest Post para o Portal Geledés

O brasileiro está acostumado a ver o corpo negro violentado. Não causa choque. Não é novidade. Isto vem acontecendo desde o século XVI, com o início da escravidão negra no Brasil, quando seus corpos eram abatidos, às vezes até à morte, para provocar sua submissão. Com o fim da escravidão, a discriminação racial e a vulnerabilidade social do negro perpetuaram sua exposição à violência.

À altura em que as mulheres e os homens de pele negra foram libertos, ideias negrofóbicas permeavam a sociedade brasileira. A inferiorização do negro ajudava a aliviar a consciência moral dos opressores, servindo como justificativa para as crueldades cometidas contra os mesmos. A ciência afirmava a inferioridade biológica do negro. No âmbito político, tomaram-se medidas que visavam o embranquecimento do país – proibição da entrada de imigrantes africanos, incentivo à imigração europeia, ausência de políticas públicas direcionadas à população negra.

A religião afirmava que os negros eram amaldiçoados pela “maldição de Cã”. Havia, portanto, uma continuidade entre o físico e o simbólico: entre a cor da pele e a capacidade moral, intelectual e estética do negro livre – ideia que penetrou o imaginário popular e, de forma sutil, parece permanecer lá até os dias atuais, deixando um legado determinante na forma como o negro é representado culturalmente.

Numa sociedade racista, os negros não são indivíduos, mas um coletivo. O indivíduo negro representa o coletivo negro e, portanto, as representações artísticas, midiáticas e culturais do negro influenciam a forma como os negros se percebem e são percebidos. As imagens do negro às quais somos repetidamente expostos influenciam como os negros veem a si mesmos e como são vistos pelos outros.

O cinema e a televisão brasileiros retratam os negros repetidamente como pobres, criminosos e violentos ou como uma “exceção” vivendo num contexto pobre, criminoso e violento, sendo afetado mais ou menos pelo ambiente em que se encontra inserido.

A pobreza, numa sociedade capitalista, contribui para a desvalorização da vida negra, enquanto o crime e a violência desumanizam-na. Além disso, a grande mídia muitas vezes falha ao representar o negro como o protagonista da violência, mas não como a principal vítima dela. Embora os indicadores sociais demonstrem que muitos negros realmente vivam com a pobreza, o crime e a violência, esta representação midiática repetitiva falha em muitas vezes não contar a história completa.

Como nos alertou a autora nigeriana Chimamanda Adichie em sua famosa palestra “O perigo de uma única história”, os estereótipos não são perigosos por serem falsos, mas por contarem apenas um lado da história e nos privar de outros referenciais. Esta representação repetitiva do negro reduz a diversidade de papeis que os mesmos podem assumir, privando-os de uma construção de identidade diversificada e plena de possibilidades.

Os negros são também constantemente sub-representados numericamente nestes veículos de informação, o que diminui não só a possibilidade de diversidade representativa, como também contribui para o estranhamento racial e para a mídia da brancura como norma e modelo de humanidade.

A indústria midiática às vezes justifica o uso de estereótipos com a desculpa de que “o que é familiar tende a ser mais rentável”. Contudo, os negros têm contribuído cada vez mais para os lucros das grandes empresas, e, cada vez mais conscientes e resistentes ao racismo, desejam se ver representados de forma diversa em filmes, séries, novelas, jornais, entre outros veículos midiáticos. Além disso, quando o que é familiar contribui negativamente para a sociedade, é hora de se introduzir um novo paradigma. Sim, é necessário denunciar a pobreza, o crime e a violência que assolam a população negra e a mídia deve indubitavelmente servir a esta causa, mas não limitar a experiência negra a ela. A demanda da população negra é por um novo paradigma, pela ressignificação de valores simbólicos, que valorizem a estética, história, culturas e, principalmente, as vidas negras.

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