A emergência de alternativas no centro da crise climática e democrática

04/05/26
A 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis foi o encontro perfeito de centenas de pessoas dispostas, engajadas, pedindo para fazer junto, chutando a porta para que as coisas sejam realizadas, para que ninguém mais morra, ninguém fique para trás, perca seu território, sua vida, sua história

O Parque Nacional Tayrona faz parte da Linha Negra, território ancestral dos povos Kogui, Wiwa, Arhuaco e Kankuamo da Sierra Nevada de Santa Marta. As colinas, praias, águas e florestas do parque abrigam sítios sagrados, e cada sítio está conectado aos outros, tanto física quanto espiritualmente. Localizada na costa caribenha da Colômbia, a reserva protege a floresta tropical seca mais bem preservada do país, juntamente com uma floresta nublada única que cresce abaixo de 1.000 metros de altitude, a poucos quilômetros de um mar de águas azuis e recifes de coral. Em uma faixa relativamente estreita, convergem formações de coral, pradarias marinhas, praias, manguezais, lagoas costeiras e colinas cobertas pela selva. No Parque, coexistem imensa riqueza biológica e cultural.

Em um dia de folga percorri com amigos cerca de 6 km de trilha para conhecer as praias de La Piscina e Cabo San Juan del Guía. Estamos vivendo por aqui um novo marco, Santa Marta além de ser o lugar de morte do libertador Símon Bolívar e estar a apenas 80 quilômetros de onde nasceu o escritor Gabriel García Márquez, foi palco de um dos momentos mais importantes dos últimos anos na agenda climática.

1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis começou no dia 24 de abril, em Santa Marta, Colômbia, como um sinal direto de que precisamos trabalhar juntos e colocar o problema no lugar de incômodo e pressão, mesmo sabendo que a produção e o consumo de combustíveis fósseis deveriam estar nas salas das Conferências do Clima da ONU nos últimos trinta anos, mas são deliberadamente ignorados.

A liderança internacional dos coanfitriões, Colômbia e Países Baixos, assim como dos Estados que participam da conferência de forma comprometida, não pode ser subestimada, especialmente em um contexto geopolítico cada vez mais violento, no qual paz, diplomacia, democracia e direitos humanos, tanto no plano local quanto global, vêm sendo colocados em segundo plano diante do lucro de alguns. A Conferência de Santa Marta se apresenta como um espaço com significativo potencial transformador, ao reunir tantos atores na construção conjunta de soluções que sejam relevantes, inclusivas e baseadas em direitos humanos. Esse processo pode fortalecer os debates públicos, em âmbito nacional e internacional, sobre a desfossilização das economias, indo além de uma abordagem restrita à descarbonização dos setores energéticos.

Assim, encostada em um poste na rua do hotel em Santa Marta, eu percebi que o mundo vai acabar, mas não no sentido literal. Dia após dia, colecionamos tragédias em nossos países, nossas cidades, e elas se relacionam profundamente com a crise climática, que é uma crise da democracia, que é uma crise central em todo o mundo. Quando me perguntam sobre as dinâmicas internacionais e os trabalhos que organizações fazem em outros espaços além da política nacional, eu tenho respostas variadas, mas tenho me dado conta de uma coisa fundamental que precisamos ter como visão de caminho profundo: estamos puxando a corda da democracia a partir de diferentes perspectivas, não importa. Vários de nós, em diferentes espaços, estamos atentos para que a democracia seja central no mundo, para que isso proteja nossos países, para que um dia a gente acorde e o nosso presidente, seja quem for, não tenha sido sequestrado por um imbecil genocida.

O fim do mundo é sutil, ele vem com genocídio como política de Estado que mata milhares de jovens negros em territórios vulnerabilizados, por meio do feminicídio crescente, especialmente contra mulheres negras e indígenas. Bairros planejados para aumentar índices de pobreza por falta de moradia digna, saneamento, segurança de dormir sem perder a vida e suas coisas por deslizamento, o fim do mundo chega por meio do medo. Todo dia alguém perde alguém.

As políticas climáticas, no fundo, expressam decisões sobre o modelo de sociedade que queremos. São elas que definem quem será protegido, quem terá acesso a recursos e quais oportunidades existirão na transição para uma economia de baixo carbono. Por isso, nunca fez sentido para mim tratar clima e democracia como temas separados. Defender a democracia deixou de ser algo abstrato e passou a ser uma condição essencial para viabilizar qualquer debate sobre o futuro, inclusive o da agenda climática.

Há alguns dias, sentindo o espírito de construção coletiva de movimentos sociais e de organizações da sociedade civil de todo o mundo, em redes, em segmentos, discordando, mas permanecendo aqui na construção política para um novo modelo de sociedade, fazia tempo que eu não via algo tão poderoso: a sensação gostosa de produção de conhecimento, sinergia de lugares e perspectivas diferentes para soluções da crise que nos atravessa e está há tempos matando milhares de pessoas. Tudo isso não foi feito na COP30; apesar de a Presidência contar a experiência da participação social com êxito, exitosa mesmo foi a Cúpula dos Povos.

A realidade de quem constrói movimento social e faz e monitora políticas públicas é completamente outra: só se faz mudança com escuta e mão na massa com todo mundo, não só com quem tem recurso ou flerta com o neoliberalismo. Isso precisa ser bem centralizado na disputa e na crítica, que é o desenvolvimento de espaços internacionais que discutem a vida das pessoas, no chão, dentro das suas casas ou do que resta das casas levadas pelas enxurradas dos eventos extremos, com os desastres que não são naturais, são políticos.

O sequestro de Hugo Chávez na Venezuela, a guerra no Irã, a pressão sobre o poder pelo petróleo no mundo adicionaram ainda mais urgência que talvez nem as evidências científicas, muitas vezes ignoradas pelos poderes capitalistas da política, por mais contundentes que sejam, tenham conseguido impor até aqui. Ficou claro que a dependência de petróleo, gás e carvão não é apenas um problema climático; eles também são um risco direto à segurança energética global, à soberania e à segurança nacional dos países.

Há algo que nós não estamos conseguindo, ou querendo, ver nesse caminho todo: o sistema, de qualquer espectro da política institucional, soltou a mão da sociedade global, da ciência, da possibilidade de construir caminhos. Ao mesmo tempo, estamos ignorando crises, guerras, possibilidades de novos conflitos e a morte de mais crianças, mulheres e inocentes, de formas diferentes e terríveis, no mundo inteiro. Além disso, a guerra arrasta tradições, fotos de famílias, histórias e relações comunitárias. A guerra é como os eventos extremos, que arrastam as pessoas para a morte, para o fim e para a perda constante de vínculo com seus territórios. Estamos assistindo a isso passivos na televisão e lendo jornais que já não conseguem formular e enfrentar o fim – mas não o fim do mundo, e sim o esgarçamento da visão de futuro, em que tudo segue absolutamente à deriva.

O tal Antropoceno universalizou a culpa, construiu uma narrativa que oculta quem realmente se beneficia e quem paga os custos da devastação, das mortes e da destruição da democracia. Estamos em caminhos totalmente contrários, e a conta vai ser paga, como é paga desde que as capitanias hereditárias chegaram às Américas. Mulheres, indígenas, negros, crianças, idosos e toda sorte de uma pobreza planejada vão desaparecer, como parte de um projeto de extermínio.

O mundo não vai acabar hoje, nem amanhã, talvez não acabe mesmo, mas não podemos deixar de nos indignar, de discordar e permanecer, de lutar e parecer piegas em nossas batalhas. A conferência foi o encontro perfeito de centenas de pessoas dispostas, engajadas, pedindo para fazer junto, chutando a porta para que as coisas sejam realizadas, para que ninguém mais morra, ninguém fique para trás, perca seu território, sua vida, sua história.

Nesse cenário, falar de democracia sem enfrentar o racismo ambiental e as desigualdades estruturais é manter uma promessa vazia. A governança climática, muitas vezes apresentada como técnica e neutra, carrega disputas profundas sobre quem decide, quem se beneficia e quem paga o preço. Não se trata apenas de reduzir emissões, mas de redefinir prioridades políticas e econômicas, incorporando os direitos humanos como eixo central no fortalecimento da democracia. As culturas se formaram a partir das nossas diferenças e da diversidade da própria natureza. Para enfrentar o futuro, precisamos reunir as experiências de todas as pessoas que habitam este planeta, em toda a sua pluralidade. É justamente nessa diversidade, na força dos movimentos populares e no protagonismo coletivo, que encontramos caminhos para enfrentar o autoritarismo atual. A partir dela, torna-se possível fortalecer a resistência e atravessar as adversidades.

Democracia é defender nossos territórios, não deixar ninguém para trás, garantir emprego digno, moradia digna, um país livre de violência no campo e na cidade. Democracia é uma transição para longe dos combustíveis fósseis que não nos empurre no abismo de mais desigualdades com a falácia das energias “limpas”, que embranquecem territórios e exterminam, de forma direta e indireta, comunidades, pessoas e histórias. Que essa Conferência, neste chão poderoso da Colômbia – de Gabo, de Simón Bolívar, de Francia Márquez, dos palenques do Pacífico, dos povos indígenas da Sierra Nevada de Santa Marta, de Botero, de bravos combatentes e grandes figuras que lutaram para garantir que a história continue viva –, inspire os próximos passos fortalecendo encontros democráticos, construções potentes e o espírito da vida e da natureza como centro de proteção e segurança.


Mariana Belmont é jornalista, pesquisadora e mestranda em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília (UnB). Nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais. Escreve mensalmente para o portal Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro Racismo ambiental e emergências climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). É assessora de clima e racismo ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.

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