segunda-feira, dezembro 5, 2022
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A grande mudança, depois do feminismo, é acolher mulheres trans e travestis

Não faz uma década, o Dia da Mulher era uma data parecida com o Dia das Mães. Maridos, namorados, empresas, lojas, seu gerente do banco… todos se organizavam para te dar uma lembrancinha na data. A mensagem era no estilo: você, que lava a louça, faz bem seu trabalho com um salário menor do que o colega homem, traz dinheiro para casa, cuida das crianças, renova a chapinha e pinta as unhas toda semana, se mostra sexy e carinhosa, você definitivamente é uma guerreira e merece um prêmio por isso: uma rosa vermelha! Você tinha de carregá-la para casa como um prêmio chato de consolação. Murcho.

Muita coisa mudou. Mulheres não querem mais rosas vermelhas. Em vez disso, elas querem salários justos, divisão de tarefas em casa, querem não se sentir obrigadas a ser docinhas ou gostosas. Querem até se proclamar feministas, agora que entenderam o termo —direitos iguais, não mais do que isso.

Eu testemunhei essa mudança e agora, no dia 8 de março de 2022, me pergunto: o que vem a seguir? Muitas coisas vêm por aí, coisas sobre as quais não me atrevo a opinar, porque estão na mão de outras gerações. Mas algo me diz que a próxima grande mudança, depois do feminismo, é a acolhida de mulheres trans e travestis pelas mulheres cis. Faz sentido para você? Vamos ver, depois de ler essa entrevista com Melissa Cassimiro, qual vai ser sua opinião.

Melissa é travesti. Tem 40 anos. É advogada, consultora em diversidade em uma multinacional, o Carrefour, e percussionista no bloco de Carnaval Ilú Obá de Min, formado só por mulheres que celebram suas antecessoras de origem africana. Há 20 anos, começou sua transição, há seis declarou sua identidade no trabalho e, desde então, diz que sua missão é “fazer com que sua inclusão e de outras meninas trans sejam cases de sucesso para engajar a inclusão de trans e travestis nos espaços de trabalho dentro do mundo corporativo”.

Vamos ouvi-la?

Você se sente incluída na comemoração do Dia da Mulher?

Não espero que ninguém pense como eu, mas me sinto, sim, e, de forma legítima. Espero que as diversas mulheridades possam ser incluídas e celebradas no Dia das Mulher, o que compreende as mulheres trans e travestis. Afinal, acredito que nós devemos seguir juntas e não criar cercados dentro de cercados que nos categorizam e oprimam. Não gosto de pensar no mundo como sendo binário, onde apenas duas realidades possam existir. Homens e mulheres, por exemplo.

Mas se nossas instituições reconhecem o masculino e o feminino, acho importante que estejamos juntas nessa luta. Não gostaria de imaginar uma sociedade onde os direitos, negados por tanto tempo às mulheres cis, continuem sendo negados às mulheres trans e a travestis. É importante que estejamos juntas para que furemos a bolha.

Quando se faz parte de grupos minorizados, as conquistas só são possíveis por intermédio da coletividade. Não existem vitórias sendo corporeidades únicas ou exceção.

Muitas pessoas, inclusive feministas mais antigas, não reconhecem mulheres trans e travestis como mulheres…

Essas pessoas usam argumentos, que considero ultrapassados, para justificar a exclusão. Por exemplo, o argumento biológico, que determinaria o gênero da pessoa. Ora, já sabemos que a identidade de gênero, a maneira como a pessoa se identifica, vai muito além do sexo atribuído no nascimento. Nós, humanos, somos muito mais complexos do que isso, por isso a beleza da diversidade e a beleza de podermos nos conectar com as nossas diferenças. Se pessoas assim ouvissem nossas histórias, entenderiam que somos mulheres. Somos mulheres porque somos, independentemente do corpo que ganhamos ao nascer.

Você se apresenta como travesti e não como mulher trans. Por quê?

Tanto as mulheres trans como as travestis e as pessoas não binárias estão dentro do guarda-chuva da transgeneridade. Transgênero é ir além do gênero que foi designado ao nascer, diferente das pessoas cisgêneras, que se identificam com o sexo de nascimento. E me posiciono como uma travesti. Digo isso tudo para explicar por que me posiciono assim para honrar aquelas travestis que lutaram para abrir espaços para que todas nós tivéssemos lugar na sociedade. Estou também abrindo um diálogo para ressignificar uma palavra que foi estereotipada e colocada de pejorativa no passado.

Se antes, travesti, no estereótipo social, queriam vincular à marginalidade, hoje a palavra travesti tem que estar vinculada ao imaginário de mulheres que podem ocupar qualquer espaço. Me definir como travesti é um posicionamento político de alguém que nasceu nos anos 1980 e quer honrar mulheres como Roberta Close, Rogéria, Claudia Wonder e tantas outras que batalharam por nós.

Mesmo sempre se entendendo como mulher, você só iniciou sua transição aos 34 anos. Qual o motivo?

Foi estratégico. Quando a gente é de um grupo minorizado, precisamos ser estratégicos, planejar os passos. Meu grande alicerce sempre foi o trabalho. Eu nunca pude ficar desempregada, porque não podia voltar para casa, então observei o ambiente e me comportei de acordo para sobreviver nele. Só quando me senti segura, provei meu valor como recurso da empresa, comprovei minha capacidade de entregar resultados, é que cheguei na área de Diversidade e Inclusão da antiga empresa e informei sobre a minha transição de gênero, iniciada lá atrás, e que assumiria a minha identidade de gênero naquele espaço.

Mas quando declarei meu processo de transição, já tinha colocado seios fazia um ano. Usava binder [faixa que homens trans costumam usar para esconder os seios] e um colete grande para disfarçar o corpo. Naquela empresa, fui a primeira funcionária assumidamente trans da América do Sul em uma multinacional presente em 109 países. Minha transição serviu para a empresa criar parâmetros para o uso do nome social no crachá, para o uso de banheiros etc. Quando saí, já éramos mais de 30.

Sempre digo que essa é minha missão: posso ser a primeira, mas não quero ser a última. O fardo de ser pioneira é enorme, mas o legado que a gente deixa é mais do que gratificante.

Isso me lembra as entrevistas que eu fazia com as mulheres cis que ocupavam cargos de executivas nas empresas e eram pioneiras também. Elas falavam algo bem parecido…

Da mesma maneira que elas, nós ainda precisamos mostrar que somos capazes. E mostrar em dobro. Apesar de o erro ser inerente à humanidade, nós não podemos errar. Temos que ser perfeitas. Esse é o tipo de preço a pagar. Eu paguei ficando doente depois de jornadas excessivas de trabalho. Hoje, tento cuidar mais de mim. Continuo atenta à responsabilidade que tenho na minha posição, a de abrir caminho para outras, já que a empregabilidade de pessoas trans apesar da evolução nos últimos anos, segue sendo baixa. Apenas 10% das pessoas trans estão no mercado de trabalho, segundo um estudo da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Pessoas trans têm baixa empregabilidade porque passam por ciclos de opressão que recaem em afeto, acesso, empregabilidade e até no reconhecimento da nossa humanidade. Muitas foram expulsas de casa muito cedo, o ambiente escolar não foi acolhedor pois não suporta corpos dissidentes. Poucas conseguem chegar à graduação, apesar dos avanços. Então, me sinto responsável, sim, com as mulheres trans e travestis do presente e do futuro.

Que bom. Um corpo dissidente precisa ser um corpo vivo, não é? Mas, apesar da baixa empregabilidade e da baixa expectativa de vida para pessoas trans, dá para notar uma mudança…

Sem dúvida. Existem dois fatores importantes que desencadearam essa mudança de percepção das mulheres trans e travestis na sociedade brasileira. O primeiro fator foi desencadeado pela mídia de massa: ela nos deu visibilidade. Novelas e reality shows foram fundamentais para nos dar um novo papel, que não é mais caricato, pejorativo ou marginal. Glamour Garcia [atriz trans contratada pela Globo] na novela, Linn da Quebrada no “BBB”… Essas meninas estão ampliando o olhar de milhões de pessoas. Eu as parabenizo, porque sei que não é fácil, mas a mudança que elas estão provocando é enorme e beneficia a todas.

O segundo fator: as empresas abraçaram a causa. Entenderam que a diversidade enriquece a todos e que não há mais retrocesso. E, aqui, quero registrar que a Transemprego [plataforma que conecta pessoas trans a vagas de emprego criada pelas empreendedoras Marcia Rocha, Maitê Schneider e Laerte] teve uma importância crucial para essa mudança. Cada empresa que a Transemprego sensibiliza, cada vaga que ela oferece, cria um espaço para a gente dizer: estamos aqui, estamos capacitadas para exercer essa função.

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