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A história de João do Pulo, um ícones do esporte brasileiro

Morte tripla

A história de como um acidente acabou com João do Pulo, um dos ícones do esporte brasileiro

por Bruno Doro e Vanderlei Lima no Folhapress

O pulo de João aconteceu em 15 de outubro de 1975. Com uma breve corrida e três saltos, ele superou 17,89 metros. Para você ter uma ideia, é o equivalente a quatro carros populares – ou um prédio de seis andares. Foi um feito atlético tão impressionante que o pulo de João foi o recorde mundial por dez anos. Daí ter virado sobrenome. João do Pulo.

Essa, porém, não é a história desse pulo, mas do que aconteceu com João depois dele.

João Carlos de Oliveira nasceu no dia 28 de maio de 1954, quebrou o recorde mundial em 1975, perdeu a perna direita em 1982 e morreu em 1999. Foi um dos mais carismáticos atletas que o Brasil já teve. E morreu três vezes.

O acidente de carro

Na noite do dia 21 de dezembro de 1981, João do Pulo deixou o quartel do Parque Dom Pedro, onde servia ao Exército, em direção a Campinas. Era paraninfo da turma de educação física da PUC-Campinas. Voltou para São Paulo de madrugada.

À 1h45, na via Anhanguera, uma Variant amarela mudou de faixa e invadiu a pista contrária. Colidiu de frente com o Passat de João. Estavam no carro o recordista mundial, seu irmão Chicão e um amigo, Luiz César Costa, o Estilingue. O motorista da Variant, João Mariano da Silva, morreu na hora. Os três que estavam no Passat ficaram feridos, mas sobreviveram.

ABC Photo Archives/Getty Images

Tira do camburão ou deixa morrer?

Os relatos de quem fez o primeiro atendimento são chocantes: “Os policias jogaram os três no fundo de um carro e o recado que eu recebi foi o seguinte: ‘Tem três camaradas no camburão da polícia em estado muito grave. Querem saber se devem tirá-los do camburão ou esperar morrer’. Então, o recado foi esse: três pacientes extremamente graves, praticamente mortos. Eu disse que estava correndo para o hospital”, lembra o neurocirurgião Núbor Orlando Facure, um dos primeiros a atender João do Pulo no hospital Irmãos Penteado, em Campinas.

Então maior atleta olímpico brasileiro em atividade, João do Pulo foi tratado como indigente no hospital até 9 horas da manhã, quando a imprensa começou a chegar ao hospital. O quadro era preocupante. “Chegou para mim um paciente alto, forte e que respirava mal, com a mandíbula quebrada, fratura na perna, trauma de crânio. Eu corri atrás de tudo, mas foquei no crânio, que é minha especialidade”, lembra Facure.

Naquele momento, João do Pulo estava em coma.

Maior atleta do país naquele momento

Para você ter ideia do que aquele acidente representava para o esporte brasileiro é preciso voltar algum tempo, para o final dos anos 1960 em Pindamonhangaba. O garoto alto (1,86m) e magro começou no atletismo na quadra esportiva do Colégio Juca Moreira, que ainda existe. Lá, seu primeiro treinador, Amauri Cavalcanti, lembra que não existia espaço para a potência dos primeiros pulos do garoto.

“Na quadra, o espaço era limitado. Tudo era pequenininho. Nós até fizemos uma área de salto: compramos areia e colocamos lá, afundamos um pouco. Mas ali já estava limitado porque o João pulava mais que a caixa”, conta Amauri. Ele levou, então, o garoto para treinar, depois das aulas, em um quartel do Exército que tinha “mais condições, caixa de salto, salto em altura, tinha tudo”.

Foi lá que surgiu o fenômeno João. Em um campeonato regional na cidade de Cruzeiro, ganhou três medalhas de ouro. Uma nos 100m, outra no salto em distância, outra no salto em altura. Nessa época, ainda não era triplista. Quem mudou a vida do garoto foi o professor José Roberto de Vasconcellos, o Zezé, que o levou para avaliação em uma universidade. Nela, a potência física mostrou que ele era perfeito não para a prova em que ele estava se aperfeiçoando, o salto em altura, mas para a mais nobre disciplina do atletismo brasileiro: o salto triplo.

Pode parecer uma afirmação descabida chamar o salto triplo de prova mais nobre do atletismo verde-amarelo, mas é só olhar para o que ela representa para o esporte por aqui. Adhemar Ferreira da Silva foi bicampeão olímpico, com medalhas de ouro nos Jogos de Helsinque (1952) e Melbourne (1956). Depois, veio Nelson Prudêncio, prata nas Olimpíadas 1968, na Cidade do México, e bronze nos Jogos de Munique, em 1972. Os dois foram recordistas mundiais. Quando João mudou para o salto triplo, a modalidade já tinha quatro medalhas olímpicas, algo que outros esportes só conseguiram muito tempo depois.

Foi assim que a vida de João mudou.

João do Pulo mostra medalhas que ganhou nos Jogos Pan-Americanos do México – Foto: J. Franca/Folhapress

Um salto que mudou seu nome

E como talento atrai atenção, aos 18 anos João deixou o interior e se mudou para a capital de São Paulo. Deixou o emprego de mecânico em uma concessionária da Volkswagen em Pindamonhangaba para virar soldado do exército na capital. O objetivo era seguir como atleta. Naqueles jogos regionais, João tinha chamado atenção do coronel Quirino Carneiro Rennó, que além de militar trabalhava com arbitragem na Federação Paulista de Atletismo. Foi ele que o levou para São Paulo para dar condições de treinamento à revelação.

Na capital, ele treinou por pouco tempo no São Paulo Futebol Clube, mas logo foi para o Pinheiros, onde encontrou seu grande treinador, Pedro Henrique de Toledo, o Pedrão. João foi o primeiro negro a competir pelo tradicional clube paulistano. “Naquela época, tinha uma barreira difícil no Pinheiros. Era um racismo disfarçado, hipócrita. Não aceitavam. Por fim, porque a imprensa ficou em cima e porque, no fundo, o clube também ama o esporte, o João foi aceito e ficou lá, comigo. Uma vez dentro do clube Pinheiros, Deus me livre, lá dentro sempre foi uma maravilha. Todo mundo amava o João do Pulo”, relata Pedrão.

Foi nessa época que ele ganhou a alcunha. João já tinha sido recordista mundial júnior, em 1973, com um salto de 14,75m em um Campeonato Sul-Americano. Mas o auge veio dois anos depois: aos 21 anos, ele foi aos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México e deu o pulo que ficou famoso. Foi o primeiro de seus três ouros no salto triplo no evento – ele ainda tem dois ouros no salto em distância.

Steve Powell/Getty Images

Um ouro olímpico “roubado”

Ouros que sobraram no Pan, mas faltaram em Olimpíadas. Nos Jogos de 1976, em Montreal, João competiu lesionado e, ainda assim, veio a medalha de bronze. Sua grande Olimpíada foi a de Moscou, em 1980. E lá ele se sentiu roubado: dos seis saltos que fez na final, apenas dois foram considerados válidos. Dois deles, segundo relatos de quem estava lá, acima dos 18 metros. Os dois saltos, se você acreditar no que costuma ser dito sobre aquele dia, superariam o recorde mundial.

Para você entender o que aconteceu, é preciso lembrar de duas coisas. Apesar do recorde mundial de João, o salto triplo tinha um favorito: Viktor Sanayev, que chegou como tricampeão olímpico e bicampeão europeu da prova. E os Jogos de 1980 foram disputados em Moscou, capital da União Soviética, no auge da Guerra Fria. Se você está pensando em uma conspiração, incluindo a KGB, a polícia secreta comunista, e juízes mal-intencionados, não está sozinho.

O pódio do salto triplo dos Jogos de Moscou teve dois soviéticos nos dois primeiros lugares, Jaak Uudmae (17,35m) e Viktor Saneyev (17,24m). O brasileiro (17,22m) foi terceiro e se sentiu roubado. O quarto colocado foi o britânico Keith Connor (16,87m). O quinto, o australiano Ian Campbell (16,72m). Ambos reclamam da arbitragem. A Austrália chegou a fazer uma reclamação formal à Iaaf (Federação Internacional de Atletismo) em 2015 pedindo uma revisão do resultado, sem resposta.

João do Pulo e Connor, por exemplo, tiveram saltos queimados. Campbell estava claramente longe da placa, mas seu salto foi considerado nulo no terceiro passo. A alegação? Seu pé teria tocado o chão, configurando um quarto pulo. Análise em vídeo dos movimentos não apontou esse quarto toque no solo.

“O João ganhou a prova e deram falta. Mostraram a tábua queimada e isso não foi verdade porque foi filmado. Mas ninguém comprou essa briga. Nesse aspecto, acho que o esporte do Brasil ficou devendo para o João. A minha vida profissional pegou um rumo diferente. Você imagina se eu tivesse o título de técnico do campeão Olímpico? Eu já era o técnico do recordista mundial e, a partir do momento em que você deixa de ganhar uma Olímpiada ou duas Olimpíadas, sendo o detentor do recorde, parece que você é uma pessoa que, na hora H, não faz o resultado. E isso não é verdade: foi roubado mesmo”, reclama Pedrão.

Médicos tentaram salvar o atleta e o homem sofreu

No dia do acidente na Anhanguera, João do Pulo tinha apenas 27 anos. Em dez anos de carreira, tinha cinco medalhas em Jogos Pan-Americanos, dois recordes mundiais (um deles júnior) e duas medalhas olímpicas. Naquela temporada, tinha vencido a Copa do Mundo em Roma – em uma época sem campeonatos mundiais, o ouro em Copas do Mundo era o equivalente ao título de melhor do planeta. Naqueles dias, João do Pulo era um atleta que entrava no auge de seu desempenho físico e se aproximando da maturidade dos grandes campeões.

Você teria coragem de fazer alguma coisa que colocasse em risco alguém com esse currículo? Os médicos que atenderam João no hospital em Campinas também não. E todo o tratamento foi pautado pensando em manter a chance de João voltar a pular. Mesmo que o cenário indicasse que isso seria improvável já nos dias que seguiram ao acidente.

João Carlos de Oliveira deu entrada no Hospital Irmãos Penteado, em Campinas, com fraturas no crânio e na mandíbula e traumas no tórax. Nos primeiros dias, a capacidade de respiração do atleta preocupava.

“Nos primeiros 15 dias de tratamento, ele praticamente morreu quatro vezes nas minhas mãos. Os próprios jornalistas faziam pressão pra gente não fazer traqueostomia. Se fizéssemos, o João ia perder a capacidade respiratória. Nós tivemos que manter ele acordado respirando quase quinze dias seguidos. Se ele dormisse, ia sufocar. A boca ficou amarrada por causa da fratura da mandíbula e nós não queríamos abrir a traqueia. Depois, teve que abrir, não teve jeito”, explica o médico Núbor Facure.

É que a traqueostomia pode reduzir o fluxo de entrada de ar nos pulmões. Um jogador de hóquei canadense, por exemplo, pulou na frente de um puck e teve de ser submetido ao procedimento para voltar a respirar. O acidente aconteceu em 2000. Ele se recuperou fisicamente e voltou a jogar, mas sua capacidade pulmonar era 15% menor.

Será que a perna poderia ter sido salva?

Outra questão era a perna direita, que foi esmagada pela batida e tinha uma série de fraturas – incluindo uma exposta, no fêmur. Como o quadro de João era grave, com risco de morte, os cuidados com a perna ficaram em segundo plano enquanto os danos cerebrais e de respiração eram cuidados. A perna engessada, porém, logo começou a dar sinais de alerta.

“A gente percebeu que estava com problema de circulação. Operamos para tentar ligar as artérias, mas a gente logo começou a perceber que não ia ter jeito. Pedimos uma avaliação de um ortopedista famoso na época, do Hospital das Clínicas, o Dr. Marco Martins Amatuzzi. Ele veio, avaliou o João do Pulo e falou que não tinha jeito: ia levá-lo para São Paulo para amputar a perna. Mas, ainda assim, tentamos salvar a perna. Ficamos com o João no hospital até abril de 82. Foram quatro meses para tentar. Infelizmente, não teve jeito”, lembra Facure.

Para fazer essa reportagem, o UOL Esporte ouviu três médicos que participaram do atendimento. Facure, Amatuzzi e Ronaldo Jorge Azze. Os dois últimos, ortopedistas que cuidaram do caso de João do Pulo. A pergunta feita foi simples: as tecnologias atuais salvariam a perna do atleta? As respostas foram opostas.

“Não, seria a mesma coisa. Com a microcirurgia, você podia fazer a tentativa de preservar a perna, reconstrução arterial e venosa. Mas naquele momento não era factível: o João do Pulo sofreu um esmagamento e não tinha como reconstruir o que foi esmagado na perna direita”, diz Amatuzzi.

Para Azze, a demora em cuidar da perna causou a amputação. “O João do Pulo teve uma fratura exposta muito grave. E ficou um tempão em Campinas. Quando fomos lá tentar trazê-lo para o Hospital das Clínicas, já estava infeccionado e não teve mais jeito. Nós fizemos a tentativa de reconstrução, mas a infecção continuou”, conta. “Hoje, montamos uma equipe no IOT (Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas) de microcirurgia para o pronto-socorro. Então, se hoje o João chegasse lá, você já cobre o osso e evita a infecção. Não havendo mais infecção, o retalho que nós fizemos teria salvado a perna dele. Mesmo com a infecção, em 2018 haveria possibilidade de recuperação”, completa.

Azze e a equipe de médicos do Hospital das Clínicas até tentaram, mas não conseguiram salvar a pele. Após nove meses e inúmeras cirurgias, os médicos amputaram a perna direita de João do Pulo abaixo do joelho no dia 9 de setembro de 1982. Ele deixou o hospital um mês depois, 11 meses após o acidente, já com uma prótese. Era o fim da carreira como atleta.

Folhapress

O que fazer depois?

Imagine se você fosse o maior atleta do seu país e perdesse a capacidade de fazer aquilo que o tornou famoso? E aos 27 anos, no auge de sua vida. Foi o que aconteceu com João Carlos de Oliveira em 1982.

A solução que ele encontrou foi ser político. Afinal, era o fim do governo militar, ele era militar e famoso. Lembre-se: João morreu com a patente de sargento. Foi eleito duas vezes para ser deputado estadual. A primeira, em 1986. A segunda, em 1990. Mas não era o bastante.

“Na verdade, o João do Pulo nunca quis ser político. O João do Pulo sempre quis fazer aquilo a que sempre se propôs: ser atleta. Ele gostava daquilo e, por infelicidade, perdeu a perna e estragou o homem”, conta Antônio Pedro, hoje com 69 anos, um dos irmãos mais velhos de João.

Ele também tentou ser empresário. Os irmãos – a reportagem falou com quatro dos sete irmãos que João teve – lembram que faltava talento nessa área. “A gente sempre falava pro João: ‘Você não tem tino pra negócio, você não nasceu pra isso’. Pra ser empresário, pra ter negócio, você tem que buscar conhecimento, estudar. Mas o João tinha aquela teimosia. Entrou em sociedade com amigos e só tomou na cabeça. Só foi ludibriado”, conta Ana Maria, hoje com 49 anos, a mais nova da família.

Os negócios que não deram certo foram uma transportadora e duas padarias. Os irmãos falam em problemas administrativos e dizem que o irmão foi passado para trás nos três empreendimentos. Mas, sem provas para fazer acusações concretas, nunca conseguiram confrontar os antigos sócios de João.

O ex-atleta ainda tentou uma terceira eleição, em 1998. Não conseguiu. Foi aí que ele revelou aos irmãos seu arrependimento: “Na última campanha, ele viu que ia perder e chamou os irmãos, eu e o Celso, e falou assim: ‘Agora eu vou tentar ganhar para a família. Eu ajudei os outros e não ajudei vocês'”, conta Antônio Pedro, chorando.

Um ano depois, João morreu.

A segunda morte: depressão

Sabe a frase “todo atleta morre duas vezes”? Poucos sofreram tanto com isso quanto João do Pulo. A primeira morte foi a do melhor do mundo no salto triplo, o recordista mundial da prova mais vitoriosa do esporte brasileiro na época. Foram 11 meses no hospital, lutando primeiro pela vida, depois pela perna. Ganhou a primeira batalha, perdeu a outra.

A segunda morte aconteceu 17 anos depois. Provavelmente, causada pela primeira.

Aconteceu no hospital Beneficência Portuguesa, na região central de São Paulo. As causas oficiais: broncopneumonia e cirrose, causada pela hepatite. A família, porém, culpa outra doença: a depressão.

“Ele ficou muito depressivo. Eu penso que foi a depressão que acabou levando. Sabe quando uma pessoa meio que desiste? Não tinha mais o que a gente fizesse. Ele ainda aguentou mais estes 17 anos porque tinha a família com ele. Mas conforme o tempo foi passando, ele ficou muito deprimido”, analisa Ana Maria.

“Ele entrou em depressão. Quando colocou a primeira prótese, nem queria por bermuda. Eu e outro irmão, o Chicão, que andava mais com ele, fizemos a cabeça dele pra usar a bermuda. Mas era uma depressão terrível”, conta Antônio Pedro.

Seu técnico, Pedrão, nega a tese de alcoolismo (sustentada pela doença no fígado) e reforça que foi a saúde mental a real responsável pela morte. “Ele bebia mais em companhia de amigos. Gostava de jogar truco, dominó. E essas coisas têm como endereço o boteco. Mas nada do que aconteceu na vida dele foi pela bebida. Foi mais a depressão”, diz o treinador.

“No acidente, o João tomou sangue de um monte de gente. E deram sangue contaminado. Não foi culpa de quem doou, mas ele pegou hepatite. Depois, o João começou a tomar umas cervejas. Pinga não, mas começou a beber e complicou muito a vida. E foi ficando desgostoso. A turma de psicólogos que deveria ficar com ele não ficou. Nem mesmo as pessoas do quartel”, fala Maria Helena, a mais velha dos irmãos, com 73 anos.

“Ele foi diagnosticado com hepatite e aí você vai somar com a bebida… E ele bebia como eu bebo. A gente bebia junto, pô! E pelo fato de beber, falaram que foi a bebida. Mas não é verdade. É claro que deve ter ajudado a piorar, mas ele já estava com Hepatite C”, completa Antônio Pedro.

Os filhos e a terceira morte

A perda da perna e a derrota nas urnas não foram as únicas tragédias no fim da vida de João do Pulo. Um dos saltadores mais talentosos que o mundo já viu acabou morrendo à imagem da prova em que era especialista. Morreu três vezes.

E aqui a morte é muito mais sutil do que as duas anteriores. E também envolve um ditado. Quando falam que um homem sobrevive por seus filhos, é triste ver que, no caso de João, nem mesmo a sua perda criou uma família. O ex-atleta teve dois filhos, Thais e Emmanuel. Frutos de dois relacionamentos diferentes, eles nunca se falaram.

Thais, a mais velha, tem 30 anos. É a única que se lembra do pai. “Ele gostava muito de cozinhar. E era um ótimo cozinheiro. Gostava de ficar com a família e com os amigos. Puxava uma roda de samba… Quando penso nele, vejo uma pessoa bastante alegre. O prato de comida que gostava era macarrão com carne moída. Até quando ele estava internado falava assim: ‘Amanhã eu vou fazer macarrão com carne moída'”.

O outro filho, Emmanuel, hoje com 23 anos, não conheceu João. “Eu tinha quatro anos. Não cheguei a conviver com ele. Então a memória é vaga”, conta o garoto, que mora nos EUA e tentou ser atleta – jogou basquete e tentou a sorte no salto triplo, sem sucesso. “Fiquei de 2013 até 2015 treinando e competindo. Mas a cobrança por ser filho do João do Pulo acabou pesando. Não que eu tenha parado por isso, mas percebi que o atletismo não era para mim”.

Sobre a relação entre os dois, as coisas são complexas. “Eu tive um problema emocional com o Emmanuel porque, infelizmente, o meu pai não teve a oportunidade de conhecê-lo. As coisas aconteceram judicialmente de uma maneira muito difícil pra ambas as partes. Eu não o considero como irmão, porque a gente não tem afinidade. Não é porque é filho do meu pai que a gente tem de ter contato”, diz Thais. É um discurso parecido com o de Emmanuel: “Eu não tenho contato com a minha irmã. Ela não gosta de mim e eu não gosto dela”.

A origem dessa separação é o espólio do atleta famoso. João deixou duas pensões para os herdeiros. Uma por ter sido deputado, outra por ser militar. Thais e sua mãe, Vânia, ficaram com uma. Emmanuel e Lili, sua mãe, ficaram com outra. Os outros bens que o saltador deixou, uma casa em Guarulhos, uma no litoral norte e dois terrenos no interior do estado, foram vendidos e repartidos, estão no inventário ou acabaram perdidos pela falta de pagamento de impostos.

Medalhas foram vendidas e esperam por um museu

Além disso, existiam as medalhas. Elas, porém, foram vendidas, deixando as famílias com pouco do pai campeão. O comprador foi Roberto Gesta de Mello, ex-presidente da Confederação Brasileira de Atletismo e maior colecionador de itens olímpicos do país. Ele foi procurado por Thaís e, quando soube que o espólio de João do Pulo era contestado, também procurou a família de Emmanuel para comprar a outra metade.

“A minha grande ideia é a preservação da memória do desporto nacional. Devemos inaugurar em 2019 o Museu do Esporte em Manaus, na Arena da Amazônia, que recebeu os jogos da Copa do Mundo de 2014. Será uma exposição permanente com a memória de grandes atletas brasileiros, sul-americanos e mundiais. Eu coleciono peças olímpicas há mais de 50 anos. Tenho medalhas, tochas… Com um destaque especial dos grandes nomes do atletismo brasileiro. E o João era um deles”, explica Gesta.

Até lá, as medalhas de um dos maiores nomes do atletismo brasileiro seguirão guardadas, testemunhas de uma história de glórias e tristeza que poucas vezes se viu no esporte nacional.

Jorge Araújo/Folhapress

Agradecimentos

Para a realização desta reportagem, ouvimos 20 pessoas.

Dos sete irmãos de João do Pulo, cinco ainda estão vivos – Chicão, o irmão mais próximo do ex-atleta, e que estava no carro durante o acidente, morreu depois de João. Quatro deles aceitaram contar histórias envolvendo o irmão. Maria Helena, a mais velha, lembrou a infância do garoto peralta. Ana Maria, a segunda mais nova, lembrou que era a preferida do ex-atleta. E Antônio Pedro e Celso, o caçula, lembraram com tristeza dos últimos anos do irmão. Antônio Pedro, aliás, fez um pedido: “Que arrumem o jazigo do João do Pulo no cemitério em Pindamonhangaba. O túmulo dele está largado, cada vez que eu vou lá… A prefeitura fez um bonequinho dele saltando em cima do túmulo, mas é pouco para um cara que levou o nome do país”.

Da família imediata, conversamos com Lili Norberto e Emmanuel Carrupt de Oliveira, o Pulinho, mãe e filho, além de Thaís Evelyn Fonseca de Oliveira, a filha mais velha do ex-atleta. Além das histórias contadas, agradecemos pela força de enfrentar esse assunto tão duro para as duas famílias e, principalmente, para os dois filhos.

Os professores Amauri Cavalcanti de Menezes, primeiro mentor de João do Pulo, William Saad e Luiz Antônio Silveira ajudaram com relatos sobre o início da carreira do saltador. Tentamos falar também com o professor Zezé, responsável por João se especializar no salto triplo, mas sua mulher, Carmen Lúcia Vasconcellos, explicou que uma doença degenerativa impedia o marido, de 68 anos, de dar entrevistas.

Pedro Henrique de Toledo, o Pedrão, ajudou muito ao lembrar do auge atlético de seu pupilo. Com ele, dividimos a indignação com o que aconteceu nas Olimpíadas de Moscou e repartimos o sentimento do “e se?” sobre os Jogos de 1984, em Los Angeles.

Roberto Venuto, companheiro de João do Pulo no Quartel de Guardas do Exército, no Parque Dom Pedro, falou sobre como era o atleta-soldado, lembrando dias de folga no centro de São Paulo.

Roberto Gesta de Mello, além de contar a história das medalhas, afirmou que a Confederação Brasileira tentou, algumas vezes, a revisão daquela prova das Olimpíadas de 1980, com protestos ao Comitê Olímpico Internacional e à Federação Internacional de Atletismo. Sempre sem esclarecimentos.

Ainda conversamos com três dos médicos que cuidaram com João nos 11 meses de internação. Apesar dos 36 anos que separaram os atendimentos das entrevistas, os doutores Núbor Orlando Facure, Marcos Martins Amatuzzi e Ronaldo Jorge Azze foram gentis ao relembrar o caso, relatando, em alguns momentos, com riqueza de detalhes as agruras que o medalhista olímpico enfrentou. Paulo Henrique Machado, que vive há 50 anos no Hospital das Clínicas de São Paulo, também contou um pouco sobre a recuperação do ex-atleta, da visão de um paciente, como João.

Por fim, tentamos falar com Luiz César Costa, o Estilingue, que estava no carro com João no momento do acidente, e com a ex-atleta do arremesso de disco Odette Domingos, que acompanhou João na internação em Campinas. Estilingue até hoje é dono de uma oficina de reparos em utensílios domésticos na zona norte de São Paulo. Os dois agradeceram, mas não quiseram reviver as lembranças que o caso aflorava.

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