A lucidez de Roger Machado, treinador do Bahia, ao expôr as raízes do racismo no futebol brasileiro.

É notória a escassez de treinadores negros no futebol brasileiro. Atualmente há três deles entre os 40 clubes que disputam as séries A e B do campeonato brasileiro.

Por Marcos Sacramento, do DCM

Roger Machado (Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia)

Um deles é Roger Machado, do Bahia, que junto com Marcão, do Fluminense, vestiu a camisa do Observatório da Discriminação Racial no Futebol durante o jogo entre as duas únicas equipes com técnicos negros nesta edição do Brasileirão.

Após a partida, na entrevista coletiva, Roger comentou a ação feita a convite do Observatório. O resultado foi uma síntese das consequências do racismo estrutural na sociedade brasileira, verdadeiras barreiras no acesso aos negros a espaços de poder.

“Não deveria chamar atenção dois treinadores negros na área técnica, depois de ser protagonistas dentro do campo. Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção. Na medida que a gente tem mais de 50% da população negra e a proporcionalidade que se representa não é igual. (…) A estrutura social é racista, ela sempre foi racista, porque nós temos um sistema de crenças e regras que é estabelecido pelo poder. E o poder é poder do Estado, das comunicações, da Igreja e quando esses poderes não enxergam ou não querem aceitar e assumir que o racismo existiu e precisa haver uma correção nesse curso, muitas vezes dizem que estamos nos vitimando. A verdade é que 10 milhões de indivíduos foram escravizados, mais de 25 gerações. Passou pelo Brasil colônia, pelo império e só mascarou na República. Nós precisamos falar sobre isso”.

O futebol brasileiro, sob o aspecto levantado pelo Observatório ao propor a campanha com os dois treinadores, funciona como uma representação da estrutura da sociedade.

A base, composta pelos jogadores, tem muitos negros, dos quais há aqueles que se tornam estrelas. No comando, predominam os brancos.

Mas mesmo as estrelas como Daniel Alves, o maior salário do futebol brasileiro (R$1,5 milhão), são subordinadas aos técnicos e dirigentes. Estes dois segmentos são compostos em sua maioria por homens brancos.

Daniel Alves pode ser o ídolo badalado e com currículo vitorioso, mas dentro e fora de campo segue as ordens do técnico Fernando Diniz e do presidente do São Paulo, Carlos Augusto de Barros e Silva, ambos brancos.

A relação não seria problemática caso não fosse regra, inclusive no futebol mundial. Na última Copa do Mundo de futebol, apenas a seleção do Senegal era conduzida por um treinador negro, Aliou Cissé.

Só este padrão justifica o ostracismo do técnico Andrade após ser campeão brasileiro pelo Flamengo em 2009. Demitido no ano seguinte à conquista do título, apesar do índice de 76% de aproveitamento, não conseguiu se firmar na elite do futebol.

As raízes desta disparidade racial foram expostas de forma bem didática na entrevista de Roger Machado. Como o problema é estrutural, somente políticas públicas ou ações praticadas pelos detentores do poder no futebol serão capazes de virar o jogo.

Mas com o cenário político atual e o futuro nebuloso que este nos leva a imaginar, é mais fácil a Desportiva Ferroviária bater o Flamengo do Gabigol no Maracanã que os homens brancos no poder se preocuparem em enegrecer as galerias de técnicos e dirigentes do futebol brasileiro.

 

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