A Mulher Invisível

Tem uma frase no filme Histórias Cruzadas que marcou a minha vida e deu forma ao que eu percebo quando me sinto invisível, mesmo quando todos olham pra mim! Não vou falar de dor, porque a tristeza não é o sentimento que tem me visitado ultimamente, mas, noto que a minha vida, e a de tantas pessoas se perdem em meio a multidão de rostos sem expressão. De volta ao filme, a personagem negra Aibillen Clark, ressalta para Skeeter, uma mulher branca que está fazendo entrevistas sobre como é ser empregada no Mississipi nos anos 60, que no dia em que se marca a data da morte do seu filho ela mal consegue respirar, mas que para os brancos é apenas mais um dia comum. E me sinto assim sempre! Para a multidão hoje foi apenas mais um dia, mas pra mim, todo dia é um novo dia, é uma nova chance para tentar me aceitar e lutar para me tornar a mulher que eu quero ser. E percebo nesses dias, em que a minha conquista se faz invisível, o quanto a minha dor ainda não é considerada legitima.

Um dia um amigo muito amado, comentou comigo sobre minhas amigas e como elas são paqueradas; e como também sabem paquerar e gostam de namorar, e o que acontece é que ele sempre se esquece de mim, sempre! Às vezes, em meio as nossas conversas eu me perguntava: com quem ele pensa que está falando? Porra, eu sou mulher, e com M maiúsculo, e não pela amizade, mas sim por uma série de questões muito mais complexas, ele sempre se esquece de mim. Não por acaso, sou negra, e não por acaso das minhas outras amigas que também são negras, a que tem a pele mais escura, o nariz mais largo e o cabelo mais crespo.

Comecei a perceber que seu esquecimento estava, ainda que ele mesmo não perceba, relacionado diretamente com a cor da minha pele. Então quando compreendi isto, notei que os demais homens que, quando passavam por mim e falavam com minhas amigas, mas simplesmente se esqueciam de me desejar um bom dia, estavam necessariamente seguindo a mesma lógica. E eu pensava: o que eu tenho de errado? Me olhava no espelho, me maquiava, passava um batom mais forte ou tentava ser mais simpática;mas lá estava eu, esquecida, e como era comum, eu me culpava e pensava, a culpa é minha não sou tão boa.

Na sexta-feira passada, lá estava eu: linda, arrumada, maquiada, educada e inteligente, no Sarau do curso de psicologia dos desconstruídos da minha universidade, e a sensação era a mesma. Com as minhas amigas, eu ria, dançava, paquerava… E mais do que tudo isso eu observava, olhava os casais, os beijos e ficava assustada como é incrivelmente fácil me tornar invisível. Porra!É muito fácil invisibilizar uma mulher negra. Então as paqueras começaram e eu, a mulher invisível, lá continuava. Os homens “desconstruídos” olhavam e eu olhava de volta, mas os olhares mudavam de direção e iam parar na minha amiga cuja pele é mais clara, o cabelo não é crespo e o corpo é delineado. Os olhares iam parar na branquinha com discursos maravilhosos, mas que lá estava gozando incrivelmente do seu lugar de privilégio e eu, só observava.

O que acontece é: de tanto ser invisibilizada eu acabei assumindo o papel da mulher invisível, e o meu corpo começara a se curvar, o meu olhar foi baixando e a minha autoestima se desgraçando e pronto…. Lá estava a adolescente insegura reaparecendo dentro de mim. E essa adolescente só queria chorar, mas com todo conhecimento que já possuo olhei para ela e falei, não tem nada de errado com você, você é linda! Eu sou linda, nós somos perfeitas. E já invisível aproveitei para ir embora, pensei comigo mesma, sou boa demais para continuar em um lugar onde as pessoas não me veem, e saindo em direção ao ponto de ônibus, lá estava eu, a me lembrar do filme Histórias Cruzadas, e pensando: hoje tive que superar e lutar para continuar sorrindo, mas para o resto das outras pessoas era apenas mais um dia comum.

Naquela sexta-feira, foi o dia em que finalmente entendi os motivos da minha solidão, entendi o porquê meu amigo falava comigo como se eu não fosse uma mulher desejável, entendi o porquê dos homens não me cumprimentarem, compreendi o que me tornava invisível e, mais importante do que isso, eu decidir não mais ser invisível. As nossas festas desconstruídos da porra toda, não estão desconstruídas coisa nenhuma, as coisas continuam como tem de estar. E eu findo este texto um pouco desiludida, mas também muito mais lúcida e segura de mim mesma.

O caminho para afirmação não é fácil, envolve dor, aliás, é esta dor que me impulsionou a escrever. Talvez, ainda velada, talvez mais curada, mas é a dor que me acompanha, me motiva e que faz de mim a mulher não mais invisível que luto pra ser. Quero ser vista, notada, comentada, quero minhas pautas na ordem do dia. E isso não é um recado para os homens, porque se tem uma coisa que eu aprendi a agradecer nessa invisibilidade é a graça de não ser vista por maus olhos.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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