A natureza da catástrofe

Eu sou uma filha de Oxum. Fui escolhida por Xangô como Iya Egbé no Ilê Axé Opo Afonjá na Bahia. Sou uma das pessoas responsáveis pelo bem-estar da comunidade, onde se incluem os elementos naturais do terreiro. Amo pisar na terra vestida de mato! Amo o irôko (2), amo o apaoká (3) e abraço a cajazeira (4) junto à Escola Eugenia Anna em frente à casa de Xangô. É uma saudação marcada por um novo paradigma para o meu caminho de educadora há mais de 60 anos.

Eu aprendi essa reverência com Seu Júlio, um velho religioso que já se encontra no mundo ancestral. Todos os dias, muito cedo, ele saía de sua casa para saudar todas as casas dos orixás. Por último, abraçava ternamente o majestoso Irôko com um gesto de correspondência reveladora da tradição do lugar.

Um dia, ele percebeu que eu estava olhando. Virou-se lentamente, quase murmurando, sem soltar o abraço e disse: – Professora, eu amo este Irôko. Nunca esqueci!

Eu vi, pela televisão, o momento exato em que ocorreu o desastre ambiental em Brumadinho. Eu vi rompimento da barragem da Vale arrastando a água morta pelos rejeitos de minério de ferro, causando perdas ecossistêmicas extremas.

Danos irreversíveis ainda nos mantêm chorosos como irmãos dos que foram e dos viventes, filhos da água que nos quer vivos e unidos numa única dança com os céus, os astros, os trovões, as chuvas, as matas, o arco-íris, as montanhas, as planícies e os oceanos.

O sentimento da África diaspórica também se faz presente em Brumadinho no pranto sentido de praticantes de uma religião que tem como princípio de vida uma geografia sagrada, onde os elementos da natureza atuam criando a paisagem ancestral que enche de vida o universo que se alimenta de natureza.

A natureza é o sagrado que se move dentro e fora de cada um de nós. Se uma poça de água contém o universo, cada um de nós é um fractal deste universo. Somos e vivemos a natureza em nós. Somos a água que nos atravessa e produz equilíbrio interior quando é possível mostrar-se na sua verdade inacabada.

Acreditamos que a terra é viva e parte da natureza que também é Oxum. Somos todos filhos de Oxum. Somos a água encarnada que canta, dança, rodopia, ou enfrenta obstáculos com destreza e sabedoria. Oxum é a mãe ancestral, água que dá vida a todos os seres deste planeta. Somos ¾ de água em nosso corpo e até 30% de água nos ossos que nos sustentam. Somos todos filhos da água que envolve e protege nosso corpo como um templo sagrado.

Nos terreiros, nenhum ritual pode ser iniciado sem a presença da água que molha a terra à espera da mediação entre o sagrado e tudo que pode incluir a aproximação do axé e a vida.

A água, como se dizia nos antigos livros de química, “tempera os outros elementos”. É difícil para o mundo cartesiano, pleno da lógica capitalista, pensar a terra e as águas nas suas múltiplas formas e lugares a não ser quando se revoltam nas enchentes, levando consigo tudo que está no seu caminho, causando dores, tristezas e ausências.

O que aprendemos com cada tragédia? Onde está a raiz do problema que provoca as tragédias? Decerto que a culpa não pode ser atribuída à terra nem a água, nem aos minérios, nem as pessoas que perderam as suas vidas. E quem vai pagar por isso?

Oxum é a água que engole as sombras das árvores, tornando as paisagens risonhas e brilhantes, deixando refletir o brilho do sol. Oxum, água, lágrima, saliva, sêmen, suor que refaz, reconstrói e que se coloca como segredo nos espaços de si mesmo e do outro. Oxum, água que se esparrama em corpos distintos criando possibilidades de afetos e de outras vidas que vêm e que voltam renovando o mundo, alternando sempre.

Nós, povos de comunidades de matriz africana, somos parte de uma nação negra que se formou sobre as águas do Atlântico. Somos parte de uma nação movente, nascida sob o sol quente e causticante que queimava corpos pretos quase nus. Foi ali mesmo, nos tumbeiros, que foram se juntando os saberes ancestrais diversos, fazendo nascer o jeito preto de viver a natureza que nos fez irmãos, malungos e companheiros de toda vida, promovendo um diálogo transcultural.

Há um movimento de tensão e conflito que nos põe em contato com incertezas e uma ciranda de medo. Quem nos garante que “nada do que foi será de novo do jeito que foi um dia”? Falta atenção a terra. Enigmas sombrios compõem uma subjetividade desastrosa anunciada com maestria de quem sabe como anunciar a morte tranquila e suavemente.

Os jornais anunciam: “Atualmente, a prioridade segue no socorro às vítimas e no atendimento aos mais de 2.251 desalojados e 1.815 desabrigados”. E depois?

1 – Artigo inspirado nas pesquisas científicas da professora Dulce Maria Pereira.

2 – Árvore sagrada equivalente ao Baobá na concepção da tradição angolana.

3 – Jaqueira, árvore sagrada dos terreiros

4 – Árvore sagrada a Ogun (ekiiká)


VANDA MACHADO Doutora em Educação, graduada em História e professora colaboradora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, tem vários livros e artigos publicados ao longo de sua carreira. Tem trajetória acadêmica dedicada à história e à cultura afro-brasileira e educação das relações étnico/racial.

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