terça-feira, outubro 26, 2021
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A trajetória e a obra do artista Sebastião Mendes de Sousa

Na madrugada de 14 de setembro de 2016, parte da fachada da Igreja de São Benedito no Centro de Teresina, capital do Piauí, desabou. Um pináculo, feito em adobe, despencou da torre sul sobre o teto da Igreja que logo foi interditada. As obras de reconstrução da torre e do teto duraram longos 4 anos. Durante esse período um debate foi reaquecido: como a história de um templo católico desse porte, o terceiro da capital recém-criada, dedicado a um santo católico negro, erguido com a contribuição financeira e de mão de obra de uma irmandade negra dedicada ao mesmo santo, é contada e sustentada apenas na passagem do Frei e engenheiro italiano, Serafim de Catânia, pelo Piauí? 

Considerada um dos marcos de expansão urbana da jovem Teresina, a pedra fundamental da Igreja de São Benedito foi lançada em 1874, quando a capital recém havia completado 20 anos, mas as obras só foram encerradas após 12 anos, em 1886. O “Fortim Negro”, assim batizado pelo historiador Fonseca Neto no posfácio do livro “O Turco e o Cinzelador” de Enéas Barros, erguido sobre um antigo cemitério de negros escravizados e libertos, foi inscrito em 27 de dezembro de 1938, no Livro de Tombo Histórico e Belas Artes, passando a compor a lista dos bens culturais de natureza material reconhecidos como patrimônio cultural nacional pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e reina até hoje altivo e imponente no Alto da Jurubeba.

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Igreja de São Benedito, Teresina – Piauí. Fonte: Foto nº39867 de autoria de Paulo Barreto, consultada no Acervo Fotográfico do Arquivo Noronha Santos/IPHAN. Cx 0372. P.0003. Env. 02.

Diferentemente da narrativa oficial, centrada no esforço e empenho do capuchinho italiano, o imaginário popular e as narrativas orais dão conta de outros sujeitos envolvidos na construção do templo negro. Trata-se da Irmandade negra de São Benedito que teria ao longo de mais de dez anos angariado fundos para construção de um templo próprio e de um artista, “mulato”, responsável pelas obras das portas e que teria ali mesmo, no canteiro de obras da igreja, posto fim a própria vida. As portas são novamente motivo de atenção no processo administrativo para o tombamento da igreja, onde fica explícito que a motivação do acautelamento se dá especificamente por conta delas: “características e observações: especificamente às respectivas portas”.

O que de especial possuem as portas? A principal, a da entrada da Igreja, é feita de madeira jacarandá com almofadas entalhadas em motivos florais, folhas e flores em alto relevo. Já as portas laterais são de cedro, com as duas folhas almofadadas e talhadas em motivos de folhas e florais. O valor artístico das portas já era destacado mesmo durante sua construção, como publica o Jornal do Commercio de 25 de maio de 1878: “as obras de marcenaria são primorosas e elegantes […] feitas sob o risco e plano do piauiense Sebastião Mendes de Sousa”.

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Operários durante obras de restauro na porta central da Igreja de São Benedito, entalhada em jacarandá por Sebastião Mendes de Sousa em 1878. Fonte: Foto nº39873 de autoria de Paulo Barreto, consultada no Acervo Fotográfico do Arquivo Noronha Santos/IPHAN. Cx 0372. P.0003. Env. 02.

Sebastião Mendes de Sousa, piauiense, “mulato”, santeiro e escultor, é o “jovem artista” que nas narrativas orais aparece quase como uma personagem dos contos machadianos, onde uma pessoa torturada por um amor desesperançoso ceifa a própria vida, o que supostamente também teria acontecido com ele. A história de vida de Sebastião é coberta de desconhecimentos, vazios e sobretudo silenciamentos. O volume de informações encontradas é pouco, confuso e disperso em textos literários, memoriais, documentos oficiais e relatos orais.

Sebastião viveu no Rio de Janeiro boa parte da sua vida adulta. Não tendo sido encontradas ainda informações sobre os seus primeiros 18 anos, não há certeza sobre sua idade, local e ano de nascimento. O requerimento de admissão de matrícula no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro enviado à Câmara dos Deputados no ano de 1870 nos oferece algumas pistas sobre isso. A primeira é que ele não possuía certidão de idade, por “não ter sido encontrado o assentamento do seu batismo”, e ser esse o motivo de solicitação do requerimento. E a segunda é que foram anexados ao pedido, para fins de comprovação, um atestado de três pessoas residentes na cidade do Rio de Janeiro que testemunharam ser ele “de idade de 20 anos, natural da província do Piauí”.

A primeira menção a Sebastião Mendes de Sousa é a petição feita em seu nome à Assembleia Provincial do Piauí, em 23 de julho de 1868, publicada em jornais da época sem informar do seu teor. Conforme sessão transcorrida em 31 de julho do mesmo ano, a petição foi aprovada com a condicionante de Sebastião “matricular-se no colégio de educandos, e ficar sujeito a todas as penas impostas”. A publicação do texto após aprovação aconteceu em 18 de agosto de 1868, assim ficamos sabendo teor da petição que deu origem a Resolução 630, que “concede uma subvenção a Sebastião Mendes de Souza e Philomeno Juleff Portela Richard, para cursarem os estudos de belas artes”. 

Em 1870, o jovem santeiro Sebastião Mendes partiu rumo à Corte para iniciar seus estudos artísticos na Academia Imperial de Belas Artes. Tão logo chegou, realizou sua matrícula em 21 de outubro de 1870, e passou a frequentar as aulas da Academia possivelmente na condição de ouvinte. Ao final do seu primeiro ano na cidade do Rio de Janeiro foi condecorado com duas premiações: a menção honrosa em desenho de figura, no Liceu de Artes e Ofícios e a medalha de prata em desenho figurado na Academia Imperial. Esse percurso de frequentar as duas instituições parecia algo comum em virtude do perfil dos sujeitos que compunham esse meio artístico, da qualidade do ensino oferecido e dos turnos distintos em que eram ofertados. A Academia dedicava seus cursos diurnos às lições artísticas enquanto o Liceu oferecia formação técnica noturna. A trajetória de Sebastião nos permite entender que essa circulação acontecia entre alunos e professores. O seu professor de desenho figurado em 1870, no Liceu, por exemplo, era o já aclamado pintor brasileiro, Victor Meirelles, também professor da Academia Imperial do curso de pintura histórica. 

Ao que parece, Sebastião Mendes permaneceu ligado tanto ao Liceu como a Academia Imperial ao longo dos 12 anos que residiu no Rio de Janeiro – com um intervalo de pouco mais de 1 ano no Piauí. Com uma trajetória de destaques, é possível especular quais relações ele mantinha com a geração de 1870 e 1880. Formada por artistas negros e brancos, como Rodolfo Bernadelli e Estevão Roberto da Silva, ficaram conhecidos por fazer parte de uma vanguarda das artes no Brasil que buscava romper com alguns cânones da tradição acadêmica e que, posteriormente, ocuparam cargos de professores e diretores na Academia Imperial. Sem correr o risco de uma análise apressada e colocar Sebastião como um componente desse grupo de vanguarda artística, pois faltam elementos para isso, quero especular, a partir de sua própria obra e trajetória, as marcas do convívio com essa geração. Além de terem compartilhado salas de aula e mestres, e possivelmente outras formas de sociabilidade, a suspeita se amplia quando nos deparamos com as palavras de Luiz Schreiner em discurso proferido em 5 de dezembro de 1884 no Instituto Politécnico. Disse ele que Sebastião parecia acreditar que teria sido “chamado pela providência para reformar a arte no Brasil”. 

A valorização do trabalho artístico de Sebastião é percebida mais no presente, mas já era destacada durante sua formação. Por ora, interessa as premiações e destaques que Sebastião recebeu pelo seu trabalho e suas habilidades no Piauí e na Corte. Como já adiantado, ele terminaria o ano de 1870 com uma menção honrosa pelos trabalhos do ano em “desenho de figura”, curso ministrado por Vitor Meirelles. O prêmio foi entregue pelo próprio imperador na solenidade que marcava o 14º aniversário da Sociedade Propagadora das Belas Artes. Consta no registro de matrícula nº 45 de Sebastião Mendes de Sousa na Academia Imperial outras premiações. Além do controle de presença, não foram registradas faltas ou quaisquer outras penalidades no mês de outubro e novembro, dois únicos meses letivos que ele cursou naquele ano.

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Detalhe na porta central da Igreja de São Benedito, almofadas com motivos de folhas e flores em alto relevo, obra de talha em jacarandá. Fonte: Foto nº19310 de autoria de Paulo Barreto, consultada no Acervo Fotográfico do Arquivo Noronha Santos/IPHAN. Cx 0372. P.0003. Env. 02.

Briquet de Lemos recupera a notícia do jornal A Nação de 1873 que relata um evento onde Sebastião teria recebido, na presença de Pedro II, uma medalha de prata pelo curso diurno de desenho figurado da Academia. O autor nos informa ainda de outra notícia de jornal, desta vez do Diário do Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1874, que Sebastião fora aprovado plenamente no curso de história da arte. Receberia a pequena medalha de ouro pelo curso de estatutária em 1874 e no ano seguinte, em sessão solene da Academia Imperial de Belas Artes, ele voltaria a estar na presença do imperador, recebendo de suas mãos a medalha de prata pela mesma matéria. Completados cinco anos de curso, Sebastião, ao que sabemos até o momento, foi premiado em quatro desses anos.  

Em 1876, um ofício da 2ª Diretoria do Ministério do Império ao diretor da Academia autorizava despesas com remessa de esculturas do aluno Sebastião Mendes de Sousa. Ao que tudo indica, o escultor piauiense estaria mandando possivelmente as esculturas produzidas durante o curso e que resultaram nas medalhas de 74 e 75. Há no acervo da Academia Imperial informações sobre os ofícios enviados aos presidentes de província do Maranhão e Piauí a respeito de remessa de esculturas. Sem encontrá-los, não sabemos ainda quais obras foram enviadas e nem obtemos pistas para tentar descobrir o paradeiro atual. O envio das obras produzidas talvez não fosse uma atitude isolada, e parece testemunhar as relações de negociação e dependência que esses alunos possuíam com aqueles que os auxiliaram e que estruturavam o século XIX. 

O entalhe das portas do templo negro de São Benedito feitas por Sebastião entre 1877 e 1878, parecem ter sido produto do agrupamento de suas dívidas – moral, financeira e temporal – com a província que subvencionou sua formação acadêmica como escultor. A já citada Resolução nº 630 decretava que o pensionista deveria, após concluídos os estudos, viver por 6 anos na província, prestando alguns serviços. Em fevereiro de 1877, após sua formação e as inúmeras conquistas citadas, Sebastião inicia seu retorno à província do Piauí. Chega a São Luiz do Maranhão a bordo do Vapor Pernambucano, permanecendo no Piauí até abril de 1878 quando retorna para a Corte convocado pela Diretoria do Liceu. Essa informação desfaz a narrativa que o jovem escultor teria falecido em terras piauienses dentro do canteiro de obras da Igreja de São Benedito, vítima de um ato suicida.

Em 1881, já de volta à corte, Sebastião aparece atrelado às obras do Palácio do Comércio projetadas pelo engenheiro-arquiteto e fundador do Liceu de Artes e Ofícios, Francisco Joaquim Bettencourt da Silva. Na década de 1880 o “ornamento” ganhava novo ânimo sob a voga do ecletismo, impulsionado ainda pelo grande número de profissionais formados ao longo de duas décadas pelo próprio Liceu e pela Academia Imperial. Sebastião aparecia ao lado de León Després de Cluny como responsável e colaborador na construção da maquete do Palácio do Comércio [Hoje Centro Cultural Banco do Brasil], prédio com linhas neoclássicas e considerado marco histórico da modernização da área central do Rio de Janeiro. O jornal Gazeta de Notícias de fevereiro de 1881 destacou a contribuição do “Sr Sebastião Mendes de Sousa, piauiense, antigo discípulo do Liceu de Artes e Ofícios, artista de muitas habilitações e grande futuro”. Em março o mesmo jornal voltaria a comentar sobre as obras e destacava que Després e Sebastião, responsáveis pela maquete em gesso, eram “já bastante respeitados pela importância de seus trabalhos”.

Pelo exposto, é possível dizer que a vida do escultor piauiense na corte atravessa e é atravessada pela história do Liceu, da Academia Imperial e do círculo social em torno das artes. Assim como sua chegada em 1870 marcou o início de uma década de ouro para o Liceu, o ano de sua morte, 1882, é também um ano emblemático. Na mesma noite de 11 de outubro de 1882, enquanto alunos/as, professores, diretores, pessoas de destaque social e artístico, além de algumas autoridades comemoravam o primeiro ano do pioneiro curso profissional feminino, naquele mesmo prédio, Sebastião Mendes de Sousa retirava sua própria vida.

Os esforços de “pessoas de cor”, nos termos da época, para romper com os limites impostos ao exercício pleno da cidadania passavam por negociações com canais e sujeitos de poder e prestígio. Sebastião parecia ter consciência dos desafios de ser produto desse jogo de filantropia, benevolência e dependência de uma elite política, econômica e cultural. Soube negociar e tensionar quando preciso. Sua trajetória pode nos ajudar a compreender um pouco sobre a “experiência negra” no século XIX e o amplo contexto de racialização das relações de trabalho e sociabilidade. 

O que se esperava desses artífices e desses artistas de pele escura medidos pela racialização dos seus corpos e do seu conhecimento? Havia uma expectativa racializada dos seus trabalhos e da arte produzida por eles no meio artístico, que não reconhecia nesses artistas trabalhos refinados, com conceitos e técnicas formais e acadêmicas. Os artistas negros, como Sebastião, procuraram esculpir suas próprias vidas nas brechas e nas imperfeições da superfície social, não somente para sobreviver, mas para sonhar e arquitetar oportunidades quase impossíveis de serem gestadas.

Assista ao vídeo do historiador Francisco Phelipe Cunha Paz no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF03HI06 (3º ano: Identificar os registros de memória na cidade (nomes de ruas, monumentos, edifícios etc.), discutindo os critérios que explicam a escolha desses nomes; EF08HI12 (8º ano: Caracterizar a organização política e social no Brasil desde a chegada da Corte portuguesa, em 1808, até 1822 e seus desdobramentos para a história política brasileira); EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados)

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais).


Francisco Phelipe Cunha Paz

Historiador, Mestre em Preservação do Patrimônio Cultural/IPHAN e Mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação. Historiador da Associação Religiosa e Cultural Ilê Axé T’Ojú Labá; E-mail: phelipecunhapaz@gmail.com; Instagram: @phelipepaz_

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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