A única rua do mundo com dois prêmios Nobel da Paz

É a Vilazaki Street, no famoso bairro negro de Soweto, onde viveram Desmond Tuto e Nelson Mandela

Os guias de viagem gostam de se referir à Vilakazi Street, no famoso bairro negro de Soweto, sul de Johannesburgo, como “a única do mundo com dois Nobel da Paz”. Não é mentira. Ali viveram dois símbolos sul-africanos da luta contra o apartheid: o bispo Desmond Tutu, premiado em 1984, e o ex-presidente Nelson Mandela, em 1993.

 

A casa de Tutu, pintada de verde-acinzentado, é uma das primeiras da rua de 11 quarteirões, à esquerda. Destoa de todas as outras por ter os muros altos, jeitão de bunker. Ele ainda passa temporadas nela.

 

A morada de Mandela, brilhante em seus tijolinhos vermelhos aparentes e com apenas três cômodos, fica do outro lado da rua, um pouco mais acima. Hoje é um museu.

 

Do lado de fora, as paredes ainda guardam os projéteis disparados pela polícia nos anos 50. Dentro, no chão da sala, se vê a marca do muro que o então “perigoso terrorista” construiu para se proteger dos tiros. Por muito tempo, Mandela dormiu (ou tentou) na cozinha, atrás desse muro.

 

Microcosmo. Mas é atravessando a rua para o lado de Tutu novamente que se tem a noção de que a Vilakazi hoje é mais do que o abrigo de dois Nobel da Paz. Talvez seja um microcosmo da África do Sul desses tempos de Copa, com suas feridas que vão muito lentamente se fechando e, no entanto, ainda levarão gerações para cicatrizar.

 

Bem em frente à casa de Mandela mora Celina Mkhabela, de orgulhosos 67 anos e funcionária aposentada de uma tecelagem. Sentada à porta de sua casa de 10 metros de frente e antena de TV por satélite no telhado, vestido multicolorido, gorro vermelho e meias de lã, ela tem um jeito curioso de contar o tempo.

 

“Desde quando eu vivo nesta casa? Não me lembro. Mas sei que estava bem aqui quando Madiba foi preso e também quando ele voltou de Robben Island”, diz. Madiba é o apelido carinhoso pelo qual os sul-africanos negros chamam Mandela.

 

Na ensolarada tarde do último sábado, enquanto apreciava um interminável desfile de carnaval que entupiu a Vilakazi, Celina remexia lembranças: “No dia em que Madiba voltou, tinha mais gente na rua do que hoje. Chegavam em ônibus e mais ônibus. Para vê-lo, escalaram meus muros e subiram no meu telhado, que ficou bem estragado; foi um prejuízo”, ela gargalha.

 

Ela diz que a vida melhorou, comparando os dias de hoje com a época “das leis duras contra nós”. “Trabalhávamos em condições horríveis, mais horas, e ganhávamos muito menos do que os brancos. Hoje temos até uma Copa do Mundo, que trouxe emprego e um carnaval à minha porta.”

 

A Copa trouxe mais do que isso, interrompe Phumzile Motikoe, a única mulher entre os quatro filhos de Celina. “O Mundial aproximou brancos e negros”, ela está certa disso. E cita um episódio recente, que para ela já se tornou emblemático. No dia 29 de maio, o estádio de futebol do Orlando Pirates, time de Soweto, recebeu a final do Super 14, torneio de rúgbi entre equipes da África do Sul, Nova Zelândia e Austrália. O rúgbi é a paixão nacional dos brancos sul-africanos. Eles são vidrados nisso. A decisão deveria ocorrer no Loftus Versfeld Stadium, em Pretória, casa dos Blue Bulls. Mas, com a arena cedida para a Copa do Mundo de futebol, o jogo foi levado a Soweto. E o que se viu ao final da partida Phumzile diz que não vai esquecer jamais.

 

“Foi fantástico. Nossa rua ficou cheia de brancos como nunca antes”, diz ela, por trás de suas lentes de contato verdes. Como muitos moradores da Vilakazi, Phumzile tem aguçada consciência política e, apesar da indisfarçável pontinha de ressentimento, diz sonhar com uma África do Sul realmente igual para todos. “Os brancos têm medo de nós. De dentro de seus carros, eles nos olham como se fôssemos leões do Kruger Park prontos para devorá-los.” No dia da final do rúgbi, porém, estavam todos lá, subindo e descendo a Vilakazi, sem armaduras. “Vi muitos deles dividindo o mesmo copo de cerveja com os negros.” Para Phumzile, graças à Copa seus compatriotas brancos, principalmente os jovens, “estão tendo oportunidades de ver que os negros não mordem”.

 

Mas o desfile vai chegando ao fim e Celina se despede para ir à reunião semanal do Clube de Mães de Soweto – moradoras do bairro que se reúnem para discutir problemas familires e se ajudar umas às outras.

 

Ela pega sua maletinha de couro, olha em volta, as pessoas se dispersando, e vira-se para a filha: “Pode até ser, só que hoje todos esses brancos que vieram aqui são turistas estrangeiros. Conheço os nossos pelo jeito de andar e se vestir. E não vejo nenhum.”

 

 

Fonte: Estadão


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