segunda-feira, setembro 26, 2022
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A vida de negros de classe média no Brasil e a perversidade branca de cada dia

Ser negro no Brasil não é nada fácil! Isso, até o racista mais voraz admitiria. Mas, tem os que afirmam que a ascensão social torna a vida de pessoas negras mais leve. Em termos de sobrevivência e acesso à bens e serviços, sim, mas as violências, essas continuam e se aperfeiçoam consoante o capital social, cultural e econômico dos espaços onde circulamos. 

Numa viagem para Goiânia, em agosto, conversei com diversas amigas negras que nasceram na classe média ou a ela ascenderam através dos estudos e da profissão. Ao ouvir os relatos, mesmo sabendo pelas minhas vivências, não deixei de provar espanto. As táticas que brancos usam para humilhar, violentar e subjugar corpos negros não cessam em nenhuma fase de nossas vidas, tampouco em lugares de privilégio econômico. Alguns dirão que racismo é questão de educação. O que dizer então da classe média branca diplomada, que estuda nas “melhores” escolas particulares, muitas delas, religiosas?

Visitei a família de uma amiga, artista de teatro, Renata, no bairro Marista, um dos mais tradicionais da cidade, onde mora, prevalentemente pessoais brancas, das classes médias e altas. Ao lado da sua casa, um condomínio ostenta luxo e onipresença. O muro da casa dela, na parte exterior, com diversos desenhos feitos à mão e as árvores que despontam de dentro anunciam resistência. Ao adentrar, logo de cara, um grande quintal com diversas plantas medicinais e frutíferas contrastava com o cimento ao redor e a uniformidade dos apartamentos. Seu pai, negro retinto, de quase noventa anos é artista plástico, primeiro professor negro do Liceo da cidade. Sua mãe, mulher branca, letrada, tem oitenta e quatro anos. Todos os quatro filhos nasceram negros retintos. No bairro, os vizinhos costumavam abordar dona Gercina da seguinte maneira: “Como admiro a senhora! Adotar este tanto de criança!” Sobre o marido, diziam ser o seu motorista. 

A família resiste à especulação imobiliária que compra casas para construir prédios. A deles, quase esmagada por um condomínio está lá, resiste. Acontece que a vizinhança, extremamente incomodada, usa das mais variadas táticas para lhes expulsar. Várias foram as vezes em que policiais bateram no portão pedindo para entrar e verificar o quintal, pois haviam recebido denúncias de que ali tinha plantação de maconha. Afinal, uma casa com vários negros e milhares de plantas, só poderia ser um antro de bandido, não é? De uma só vez, chegaram seis policiais fardados, obviamente, sem mandado judicial, sob os olhares curiosos dos vizinhos. Com muita educação, a família os conduziu entre as arrudas, ervas cidreiras, pés de acerola, goiaba e tantas outras. Nada encontraram, a não ser odores que evocavam a vida na roça e casa de “vó”.

 Outra amiga, ao entrar no elevador do seu condomínio no Setor Oeste, deparou-se com o olhar de desprezo de uma moradora que lhe questionou: “Você cuida de quem aqui?” Maria Vilma, professora, respondeu: “de mim mesma”. A mulher ficou sem graça, mas, chama a atenção o fato de que, nesses casos, brancos poderiam ficar calados ou mesmo fazerem uso do princípio da dúvida, tão necessária na vida pública e nas interações sociais com estranhos. Mas não, eles não perdem a oportunidade de tentar lembrar qual deveria ser o lugar de uma negra. Igualmente, outra amiga, Cecília, psicóloga e acadêmica, foi abordada por uma moradora do seu condomínio que disse achá-la muito parecida com a depiladora. O objetivo foi lembrá-la de ser igual a um corpo que lhe prestava serviços. E não para por aí, não. Thaise, pesquisadora de Pelotas, mulher negra, filha de promotor da justiça e de mãe advogada e professora, ambos negros, contou-me que, durante todo o ensino fundamental, morando num condomínio de classe média alta, após a escola, crianças e adolescentes a recebiam em coro na entrada do prédio, chamando-a de “macaca”. No colégio particular de elite, sendo a única aluna negra, ameaçaram jogá-la em uma fossa da cidade. As ameaças só pararam quando o pai foi até lá, pois, entre as adolescentes, estava a neta da diretora da instituição. O dinheiro não nos protege das micro agressões, pelo contrário, ele suscita ainda mais o ódio branco, regado de inveja. Dividir o mesmo espaço com quem foi construído por eles para ficar no polo oposto da hierarquia social é uma afronta imperdoável. 

As formas de violência contra este corpo vão desde abordagens violentas e humilhantes, a calúnias, como fizeram com a família de Renata e de Thaise. Esta última, quando os pais compraram uma chácara, os vizinhos brancos espalharam que o dinheiro tinha vindo do tráfico de drogas, do suposto noivo bandido que ela tinha arrumado. Em outra ocasião, quando o pai comprou uma casa em um condomínio horizontal, picharam o muro com a frase: “O rei do pó.” Brancos, sobretudo brasileiros, têm pavor à igualdade diante daqueles que colocaram na condição de lhes servir. A ascensão social de negros provoca os mais diversos afetos como ira, inveja, vingança, ganância. Uma vizinha branca perguntou à dona Terezinha, mãe da Thaise, se o marido tinha ligação com o crime organizado, pois segundo ela, ele tinha mais bens que o seu. Ela sequer cogitou analisar a realidade, pois ele, promotor de justiça, com esposa professora e apenas uma filha poderia muito bem apresentar um padrão de vida melhor que o dela, visto que ela não trabalhava e tinha duas crianças.  

Não é fácil conviver com brancos em posição de desigualdade, muito menos no mesmo patamar econômico ou superior ao deles. Brancos fixaram negros em lugares reais e imaginários, como aquele da pobreza e da servidão e, mesmo saindo deles, não aceitam o fato. Lutam contra a realidade e dedicam tempo e dinheiro para nos derrubar, para nos ver cair e para voltarmos para o final da fila. Ainda sobre a família de Thaise, os vizinhos tiveram o atrevimento de organizar a Festa do Divino, tradição católica onde passam de casa em casa para rezar e cantar, e escolheram a dela, propositalmente. Ao adentrarem, o grupo de pessoas brancas, invasivamente, passou por todos os cômodos, inclusive os quartos, como se o espaço fosse deles. Observaram, obstinadamente, cada objeto, cada canto da casa, espantados com o nível social da família negra que eles adoram ver na televisão, ligada ao crime e à pobreza. A socióloga estadunidense negra, professora universitária, Felly Nkweto Simmonds diz o seguinte: Neste mundo branco, sou um peixe de água doce que nada na água do mar. Sinto o peso da água, no meu corpo”. Para nós, é impossível escapar ao corpo e às suas construções onde quer que estejamos. 

Do jeito que a sociedade brasileira é estruturada, brancos não abandonarão a arquitetura excludente dos quartinhos de empregadas e dos elevadores sociais. Aliás, com a desculpa da segurança, estão construindo verdadeiros e próprios bunkers para se segregarem e pularem de ilha em ilha. Sim, o Brasil é feito de ilhas e, naquelas “brancas”, qualquer corpo diferente do padrão que adentre o espaço é rechaçado violentamente, vide o caso do sargento da marinha, Aurélio Alves Bezerra, que matou o vizinho negro, Durval Teófilo, com a desculpa que o confundiu com um bandido. Eles só precisam de uma desculpa para nos matar e estas não lhes faltam. 

Então, como viver nestes espaços? As estratégias que temos adotado são várias. Desde o deboche, como no caso de dona Gercina, a mãe branca com filhos e marido negros que, sempre deu a resposta que queriam ouvir, não alongando o assunto e, quando se davam conta de que o suposto motorista era, na verdade, o marido, ficavam de queixo caído. Outras preferem revidar na mesma medida: “você também tem a cara da minha depiladora”, respondeu Cecília. A raiva, neste caso, não nos é permitida, pois brancos se indignam muito mais com a raiva de mulheres negras do que com as condições que a geram. Precisamos falar entre nós sobre estratégias, pois, tudo indica que brancos não aceitam partilhar poder, espaços e afetos com pessoas negras. Patologia? Não, socialização das mais perversas. Entre nós, falemos dessa raiva, pois não podemos escondê-la, é saudável senti-la e falar sobre, pois negá-la ultraja a nossa existência. Contudo, o peso de lidar com o racismo não pode recair nos nossos ombros. Precisamos discutir mecanismos mais eficazes de punição dos racistas que, agora, colocam a culpa no “racismo estrutural” para isentarem-se das responsabilidades. No plano real, precisamos quebrar de vez esta imagem do negro ligado à pobreza, para isso, não há outro caminho a não ser a redistribuição de renda, políticas de inclusão social, quotas raciais até quando precisar e instituições que funcionem para punir o racista. Mas, enquanto elas estiverem nas mãos de brancos, é pouco provável que tenhamos êxito. 

Se tratando de pessoas brancas, conheço centenas que vivem nesses espaços e que se dizem antirracistas, mas impressiona-me que nessas horas estamos sempre sozinhas, pois “ninguém viu nada, ninguém ouviu, ninguém falou nada”, porque sabemos, brancos não se indispõem com os seus iguais. A luta, da maioria, fica no nível virtual, imaginário ou acadêmico, bem de longe e, se possível, que não comprometa a bolha branca da qual fazem parte. 

Enfim, deixo um trecho de James Baldwin, do seu ensaio “Da próxima vez, o fogo”, uma das mentes mais brilhantes de nossa história:

“Eu estava friamente decidido – ainda mais do que percebi na época – a nunca aceitar o gueto, mas a morrer e ir para o inferno antes de deixar um homem branco cuspir em mim, antes de aceitar meu “lugar” nesta república. Não tinha intenção de deixar que os habitantes brancos desta nação me dissessem quem eu era, me impedissem e se livrassem de mim dessa maneira.”

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia pela Unicamp. Autora do livro Cartas a um homem negro que amei, Editora Malê. @fabianealbuquerqueescritora

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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