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Agora é que são elas: pode a subalterna falar-escrever?

Agora é que são elas: pode a subalterna falar-escrever?

Não foi mero jogo retórico a célebre frase “ o lixo vai falar”, da pensadora e feminista negra Lélia Gonzalez, em “Racismo e sexismo na sociedade brasileira”. É necessário falar, é necessária a construção de um novo sistema de escritura. Novo, mas antigo e que já vem de longe. Rosane Borges questiona silêncio e tutela, dialogando com escritoras e feministas como Jurema Werneck, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e Judith Butler.

Por Rosane Borges, no Á beira da Palavra

“E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos) que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa”

(Lélia Gonzalez)

Este artigo é fruto de um convite-provocação, na atmosfera da campanha #Agora é que são elas, do articulista da Revista Fórum, Allan da Rosa, para que eu, junto com outras mulheres, ocupasse o espaço tecido por ele na referida revista. Uma vez aceito o convite, optei por produzir um texto que funciona como uma espécie de metalinguagem, ou seja, escolhi falar da própria campanha, situando-a num lugar político capaz de perturbar o lugar hegemônico dos homens, preferencialmente os brancos, autênticos habitantes do espaço público, responsáveis, numa sociedade marcada pelo racismo e sexismo, por definir a dinâmica do reconhecimento daquelas e daqueles que podem falar, de acordo com a gramática do poder. Dialoga com escritoras e feministas, tais como Jurema Werneck, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e Judith Butler.

Redes sociais e as campanhas mobilizadoras

A proposta lançada pela feminista Manoela Miklos, cuja ideia é fazer com que homens que escrevem em jornais, revistas e congêneres cedam seus espaços de fala para o exercício da voz feminina, teve adesão imediata. Ao longo desta semana, mulheres de diversos matizes e posições políticas mandaram à letra: da chamada grande imprensa à miríade que compõe as mídias digitais, testemunhou-se uma sinfonia de vozes muito bem orquestrada (este artigo é um exemplo), instituindo e/ou reafirmando acesso à soberania negada.

Não é mais novidade que a Internet, com as redes sociais na dianteira, tornou-se quase um habitat natural de campanhas e desafios que convocam temporariamente o engajamento das pessoas. Quem não se lembra do desafio do “balde de gelo”, que consistia em solicitar a participação de celebridades para que se autoinfligissem um banho de água gelada e, ato contínuo, doassem dinheiro para o desenvolvimento de pesquisas sobre a esclerose lateral amiotrófica? Espelhando-se em gente famosa, pessoas comuns mimetizaram o ato, o que garantiu visibilidade planetária ao combate à doença, até então desconhecida para muitos.

Poderíamos enxergar na proposta-desafio lançada por Manoela algo que vai além daquelas ações abrigadas sob a rubrica da solidariedade, como as do “balde de gelo”, alvo de diversas críticas mundo a fora. Esses desafios normalmente pautam-se por uma gramática moral defensora da ajuda ao outro, o vulnerável, o frágil, sem exigir que aquele que presta ajuda perturbe o seu lugar de estabelecido, hegemônico, favorecido. Em suma, na dinâmica desses desafios, os lugares dos que ajudam e dos que são ajudados permanecem imperturbáveis, intactos.

“Nossos passos vêm de longe”

Como pensar essas questões (para além da boa vontade das almas caridosas) num momento em que se reeditam, nos espaços públicos de expressão da fala e da escrita, expressões machistas, misóginas e racistas? De que forma as mulheres que não tiveram historicamente poder de fala podem instaurar, a partir do “Agora é que são elas”, renovado diálogo com homens, sujeitos legitimados pelo sistema machista-racista, para o exercício da fala-escrita no espaço público?
Há muito a tradição teórico-política, principalmente aquela que irradia dos movimentos feministas e dos movimentos negros, nos legou um ensinamento irretorquível: a via central para o processo de emancipação passa pela evasão do sítio do silêncio.

Não foi por acaso que a narrativa de muitas escritoras do campo literário foram avaliadas a partir de reflexões orientadas pela noção de sintoma em virtude da presença de sujeitos-narradores na voz masculina em suas obras. Marguerite Yourcenar, Clarice Lispector, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras e Nélida Piñon foram algumas delas. Também não foi mero jogo retórico a célebre frase “ o lixo vai falar”, da pensadora e feminista negra Lélia Gonzalez, partícula que integra a epígrafe deste artigo. Em Racismo e sexismo na sociedade brasileira, Lélia apresenta um conjunto de reflexões que nos leva a pensar na importância da fala no espaço público, pois, considerando que as mulheres negras estão, no dizer dela, “na lata de lixo da sociedade”, é necessário falar, é necessária a construção de um sistema de escritura que realoque o lugar desse sujeito subalternizado, aprisionado pelo imaginário no lugar-função da mucama, da mulata e da mãe preta.

A frase cortante de Lélia ganha pleno sentido numa sociedade em que mulheres negras não tiveram o poder da fala e da escrita (não é à toa que a maranhense, Maria Firmina dos Reis, escravizada, autora do primeiro romance brasileiro, Úrsula, foi soterrada pelo cânone). Das bordas, das franjas dos espaços legitimados, essas mulheres souberam, no entanto, requerer e instituir pela escrita outros lugares de existência. A pensadora indiana, Gayatri Chakravorty Spivak, no seu propalado livro que inspirou parte do título deste artigo, Pode o subalterno falar?, diz que “o subalterno é aquele cuja voz não pode ser ouvida”, corresponde “as camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e de possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante. ”

O filósofo Jacques Rancière, referido em outros artigos meus, afirma que nem todas(os) podem participar da partilha do sensível e integrar de forma igualitária o “comum”, responsável por definir a política (decisões sobre estética, modos de fazer e de pensar, regras e normas, destinos da sociedade de modo geral). Amparado no contexto da escravidão grega, lembra o filósofo que: escravos não podiam participar das coisas comuns porque não compreendiam a linguagem e, se a compreendessem, não a possuíam; os artesãos também não podiam porque não tinham tempo para se dedicar a outras coisas que não fosse o trabalho; as mulheres eram sumariamente interditadas do espaço público, da política decisória: “a partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce. Assim, ter esta ou aquela ocupação define competências ou incompetências para o comum.”

O reconhecimento de quem tem a fala pública

Ora, não se participa do comum sem a mediação da linguagem, que se materializa, fundamentalmente, na fala e na escrita. Uma vez que nós mulheres negras fomos aprisionadas em lugares que nos alijaram da coisa pública, fomos subtraídas dos códigos de linguagem que traduzem e modelam o social.

No rastro de Lélia Gonzalez, reagimos aos processos de exclusão do “comum” e disputamos lugar ao centro, problematizando, a partir de olhares e perspectivas próprias, o papel da autoria. A escrita, em suas diversas modalidades (política, sociológica, literária, filosófica, antropológica, psicológica, jornalística, ensaística), é uma via de acesso prioritário para lograr êxito a essa tarefa, como dá pra ver.

De Maria Firmina dos Reis a Conceição Evaristo, de Geni Guimarães a Esmeralda Ribeiro, de Lélia Gonzalez a Sueli Carneiro, de Luiza Bairros a Jurema Werneck, de Mundinha Araújo a Wânia Santanna, de Beatriz Nascimento a Lucia Xavier, de Leda Martins a Petronilha Gonçalves, de Vilma Reis a Ana Luiza Flauzino, de Cidinha da Silva a Kiusam de Oliveira, entre tantos outros nomes de uma constelação heterogênea, o cumprimento dessa tarefa política vem sendo enfrentada com o compromisso de dotar as mulheres negras da competência da qual mencionou Rancière.
Uma plataforma metodológica, igualmente heterogênea, vem sendo adotada para dar visibilidade ao pensamento e às propostas que emanam dessas mulheres, aqui e em outros lugares da diáspora e da África. O livro de saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe, organizado pela pensadora e feminista Jurema Werneck, é um paradigma para se pensar nos processos de escritura protagonizados por quem historicamente “esteve na lata do lixo da sociedade, considerada inapta para “a partilha do sensível”. Do campo literário, podemos extrair o termo escrevivência como uma categoria, entre tantas outras possíveis, capaz de dar consistência a variações de relatos que se constituem em operador textual das formas do dito. Cunhado pela escritora Conceição Evaristo, o binômio “escrita e vivência, para ela, andam juntas”.
Nesse caminhar pelos desfiladeiros da linguagem flagra-se, portanto, uma trajetória sinuosa com balizas fundamentais, deixadas pelas escritoras e ativistas acima referidas, para que o trajeto a ser percorrido não prescinda do projeto ético, profundamente humanista, destinado a emancipar grupos subalternizados, densamente povoados pelas mulheres negras. A disputa discursiva é arena prioritária para que ascendamos ao espaço público, livre das funções sociais aprisionantes (mucama, mulata e mãe preta) que reduziram os limites de nossa existência, como assinalou Lélia Gonzalez.

A pensadora e feminista Judith Butlher, no seu mais recente livro, Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto, elabora oportunas perguntas que iluminam um programa de ação que tem no ato de falar-escrever uma plataforma importante: “o problema não é apenas saber como incluir pessoas nas normas existentes, mas sim considerar como as normas existentes atribuem reconhecimento de forma diferenciada. Que novas normas são possíveis e como são forjadas? O que poderia ser feito para produzir um conjunto de condições mais igualitário da condição de ser reconhecido?”

Podemos colher do cotidiano fatos que corroboram a lógica do reconhecimento a partir das normas que pré-definem quem pode ser considerada apta para a participação no debate público, para discutir e definir os destinos da sociedade. Vou me ater apenas a dois episódios recentes. A Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo promoveu dias atrás um debate sobre política e desenvolvimento, com nomes de várias latitudes do pensamento brasileiro, incluindo o prefeito Fernando Haddad. Pelo tema, deve-se supor que a presença de mulheres negras seria algo imprescindível. Mas nenhuma voz negra (de homens ou de mulheres) ressoou. O SESC-SP promoverá na semana que vem discussão sobre cinema e alteridade, onde serão debatidos temas sobre a construção e representação do outro, as questões que envolvem a visibilidade de grupos historicamente serão um tópico importante nesse encontro de especialistas. Também nenhuma mulher negra no painel dos palestrantes do SESC.

Tanto no primeiro quanto no segundo episódios vozes negras importantes são atravessadas como cortina de fumaça. Quando um pouco de atenção é dada a elas é como “vozes específicas”, “recortadas”, transitáveis apenas em comunidades-nicho, restritas a assuntos que interessam, supostamente, à população negra, que ingressam na arena discursiva da sociedade. O ativista do movimento negro Douglas Belchior vem apontando sistematicamente o caráter excludente dessas práticas, vistas como absolutamente “naturais”, chanceladas pela máxima que insiste em afirmar o não reconhecimento de especialistas no meio das mulheres negras para discutir assuntos que envolvem a sociedade globalmente.

Sem concessões, nem tutela

Terminemos como começamos. Como a campanha “Agora é que são elas” incide sobre essas questões? A essa altura podemos dizer que, a rigor, nós mulheres negras não precisamos de concessão de homens. O que é verdade. Relembremos novamente Lélia Gonzalez, que avançou nas malhas do espaço público sem pedir licença e sem o “benefício” da concessão. Por isso, também, marcharemos no próximo 18 de novembro em Brasília.

Podemos, no entanto, atribuir uma função política importante à campanha: ainda que temporalmente marcada, “Agora é que são elas” revela um algo a mais em relação a outros desafios que brotam das redes sociais porque tem potência para perturbar o lugar e o espaço do hegemônico. É, sem sombra de dúvidas, mais uma oportunidade para que os homens, (e não apenas os que cederam seus espaços para a manifestação do nosso verbo), detentores da primazia no espaço público, revejam as normas que atribuem reconhecimento diferenciado, no dizer de Butler. Quanto a nós? Pois bem, com ou sem a concessão deles, “o lixo vai falar, e numa boa”.

***

(Rosane Borges é Jornalista, professora do curso de especialização Etnocult, do Celacc (USP), pós-doutoranda em Ciências da Comunicação pela USP, professora da UEL)

REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? São Paulo: Boitempo, 2015.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, 223-244.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Belho Horizonte: Autêntica, 2010.
WERNECK, Jurema. O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas/Criola, 2000.

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