A história de Albert Woodfox talvez seja um dos maiores casos de erros da Justiça cometidos contra qualquer pessoa no mundo todo. No começo do ano, ele foi solto após cumprir 44 anos de pena, em confinamento solitário, por um assassinato que ele não cometeu.
no Extra Globo
Seu caso simboliza o horror endêmico e inegável do racismo presente no sistema jurídico e criminal dos EUA. Ao lado de outros dois homens negros, Herman Wallace e Robert King, sua história ficou conhecida como “Angola Three”. Presos no início da década de 70 sob acusações distintas relativas a crimes menores, os três trabalhavam em uma plantação sob vigilância ininterrupta.
Ativistas do grupo dos Panteras Negras, ícone do combate à segregação racial nos EUA, Albert, Herman e Robert eram encarados como criadores de problemas, o que desencadeou, em 1972, uma campanha de cunho racista que tinha como objetivo acusá-los do assassinato de um guarda da prisão, na Louisiana. Um crime que não cometeram.
Ao longo de mais de 40 anos, o caso vem sendo encarado com descrença por setores da imprensa dos EUA. Testemunhas desmentidas, provas de DNA perdidas e má conduta da promotoria sempre deram o tom da história do Angola Three. Albert, em certo ponto do processo, conseguiu provar que uma das supostas testemunhas oculares era…cega. Já a outra, um companheiro de prisão do trio, foi oferecido um perdão de pena, além de cigarros e um bolo de aniversário como recompensa pelo depoimento.
Albert, Herman, e Robert alegaram, durante décadas, que haviam sido alvos de discriminação e corrupção. Mas apesar de seus protestos, foram jogados na solitária por tantos anos.
Robert foi solto em 2001 após um apelo de seus advogados, em que se declarou culpado de uma acusação menor (e anterior), depois de ficar 29 anos confinado na solitária. Herman foi solto em 2013 após 42 anos de detenção também na solitária – três dias após ganhar a liberdade, morreu. Ele sofria de câncer no fígado.
Albert permaneceu lutando para provar sua inocência e, em 2014, a Justiça confirmou por unanimidade que sua condenação havia se baseado numa denúncia fundamentada por preconceito racial. Ele também conseguiu diminuir sua pena pelo crime cometido anteriormente e foi solto em fevereiro deste ano. Por 44 anos, viveu em uma cela com 1,83m por 2,75m sem contato humano algum, à espera de justiça.
Em recente entrevista ao jornal britânico “Independent”, Albert desabafou: “Nunca recebi um pedido de desculpas oficial do governo americano e realmente não espero recebê-lo. Nenhuma desculpa vai me devolver 44 anos de vida. Nenhuma desculpa vai compensar a dor e o sofrimento que tive de suportar”.
Após sua libertação, Albert tem palestrado em universidades, ao lado de Robert King, sobre a experiência do homem negro diante de uma sociedade extremamente racista. “Tenho estado bastante atarefado, com a vida muito corrida. Mas o trabalho de conscientização que estamos fazendo é muito mais importante que qualquer tempo de vida pessoal”, afirma Albert ao “Independent”.
O ativista acredita que os EUA pouco avançaram na luta contra o racismo desde 1972. “Não houve progresso. Nenhum, na verdade. Essa foi uma de minhas surpresas quando ganhei a liberdade. As condições encontradas nos Estados Unidos há 44 anos são as mesmas de agora. Lá, na prisão, tinha contato com TV, revistas e jornais, logo, fiquei sabendo, por exemplo, da eleição do primeiro presidente americano negro. Lentamente comecei a perceber que o racismo flagrante na América não havia mudado em nada. Talvez meno explícito, mas ainda tão cruel e destrutivo”, comenta.
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