Angolana é a primeira estrangeira à frente da bateria da Pérola Negra

Ninguém pode dizer que ela não se impõe. “Deixe-me ser eu. Assim lhe dou um rosto até mais bonito”, diz ela em forte sotaque lusitano –incomodada com o “faz pose, desfaz pose”–, ao fotógrafo da *Folha* Eduardo Knapp.

Por EMILIO SANT’ANNA, do BLOG ALALAÔ

“Tá bom, mas deixa eu ser o fotógrafo e a gente chega a um acordo”, responde ele.

Ninguém pode dizer, pelo menos, que a angolana de Benguela não está sempre tentando.

Do alto do seu 1,63 m, Carmen Mouro, 38, é dona de um temperamento forte e –mais importante e lucrativo– de seis lojas de grife e do maior spa de Angola.

É também o que se pode  chamar de “self-made woman”, alguma coisa como uma mulher que se deu bem  graças ao próprio esforço.

Quando entrar na passarela do Anhembi, às 23h15, da sexta-feira (5), será a primeira estrangeira a desfilar como rainha de bateria de uma escola de samba de São Paulo, a Pérola Negra, da Vila Madalena, zona oeste paulistana.

É uma forma bem diferente de voltar ao Brasil. “Em 1994, meus pais resolveram sair de Angola por causa da guerra civil e viemos para cá.”

O destino foi Curitiba. A família não se adaptou e a aventura brasileira durou apenas três meses. Foram parar em Portugal –a antiga metrópole da colônia africana.

De lá, voltou para o Brasil “aos vinte e poucos”, para Salvador, onde ficou cinco anos e se formou em direito. Irrequieta, voltou à terra natal e de lá foi para a Grécia, na embaixada de Angola .

Assessora do embaixador, dominar o grego era fundamental. Dominou. Não só essa, mas outras cinco línguas também: inglês, espanhol, alemão, francês e italiano.

E antes que alguém faça a pergunta mais clichê do Carnaval, ela se adianta. “Já te respondo logo, todo angolano samba. Mas é aquele tipo bem baiano, mais com o pé no chão, sabe?”, afirma.

SEMBA?

Para além do nosso samba, todo angolano, diz Carmen, dança o semba –ritmo tradicional do país africano que, entre outros ,vai ser retratado pela Pérola Negra no enredo deste ano: “Do Canindé ao samba no pé, a Vila Madalena nos passos do balé”.

Do semba ao samba, foi um pulo. O impulso, no entanto, quem deu foi outra majestade, Camila Quintino, 34, ex-rainha de bateria da escola.

Há dez anos morando em Angola, ela apresentou Carmen à Pérola. “Ela chegou com muita humildade e tranquilidade e a escola abraçou”, afirma o vice-presidente Valmir Peres dos Santos.

De fato, sentada nos fundos do barracão da escola, ela parece estar bem entrosada. Só uma coisa a irritava, a falta de carboidrato.

Ela diz querer chegar à sexta (5) com seis quilos a menos. O peso atual, ela não revela. Mas garante estar bem distribuído nos 100 cm de quadril e 58 de cintura.

A mãe de três filhos e chefe de mais de 200 funcionários, porém, revela outra coisa que a tira do sério por aqui. “Infelizmente no vosso país existe ainda muito racismo”, afirma.

“Você entra numa loja, de chinelo, e a vendedora olha e vem te dizer ‘isto custa tanto’. Mas eu não estou a perguntar o preço!”, diz. “Se você coloca uma Louis Vuitton, já vem um monte. Aí já não é pela cor, é pela classe social.”

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