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Aos que amam mulheres negras

“As mulheres negras sentem que existe pouco ou nenhum amor em suas vidas”
bell hooks

por Caroline Anice  para o Guest Post de Geledés

Sabemos: podem demorar anos, décadas ou talvez uma vida inteira para conseguirmos afirmar que, enfim, conhecemos o amor. Enfim, o amor se apresentou a nós, sem o peso dos balaios que carregamos por anos no caminho para a feira com passos duros; sem a violação dos nossos corpos pelos senhores de nossas vidas; sem o açoite que corta a carne  —  da pele e do coração.

Pode demorar uma vida inteira.

E pode, quem sabe, nunca acontecer.

Não é difícil ouvir de mulheres negras histórias repletas de dor e sofrimento. Histórias em que o amor passou tão rasteiro sobre os próprios olhos como uma estrela cadente  — quase ninguém vê. Um fenômeno.

O amor da sociedade patriarcal é atravessado pelo racismo, pela dominação, pelo silenciamento, pela hierarquização, pela competitividade, pela romantização da dor e das abdicações do tempo-vida. O amor revolucionário, por outro lado, tem como horizonte a nova sociedade, o socialismo, onde o trabalho seja coletivo, as desigualdades possam se esvair completamente e nem existam riquezas acumuladas. Só se constrói o novo destruindo o velho e é enquanto o velho é destruído que o novo vai emergindo das suas contradições.

Seria possível então construir um amor-amor, amor-verdade, amor-camarada, amor-revolucionário em meio a uma sociedade capitalista? Podemos afirmar que sim, com toda convicção – digo que sim com toda confiança. Essa é a tarefa dos revolucionários e revolucionárias, daquelas e daqueles que acreditam em uma nova sociedade, calcada sobre valores de companheirismo, solidariedade, confiança, camaradagem, liberdade. É um desafio diário, que exige calma e paciência, sem perder a rebeldia. Endurecer sem perder a ternura.

E aos que amam mulheres negras, há um tanto de mundo para aprender e uma estrutura para apreender. As que amam as mulheres negras e as mulheres negras que são amadas ou só conhecem o desamor, há tantos outros mundos para aprender e desaprender. E essa é a grande verdade: tudo que é aparentemente simples tem uma raíz ainda mais profunda.

A gente leva uma vida desaprendendo o que é ser mulher e, para as mulheres negras, esse ser mulher está inteiramente estruturado pelo racismo. Quando estou em relação, quando existo no mundo, existo mulher negra — no meu caso, da pele clara, importante salientar para compreender que o racismo existe se configurando de outra forma sobre o meu corpo, a minha vida e minha afetividade. É por isso que escrevo com dedos, pés, mãos, peito, alma e um corpo histórico de uma mulher negra latino-americana com sua história de vida, que é somente sua, mas que não foi circunscrita na individualidade mas em sociedade. E não está sozinha: sou uma mulher coletiva.

A você, que ama uma mulher negra, entenda quando, por mais confiante que ela pareça, desabarem também suas inseguranças. A você, que ama uma mulher negra, esteja preparado para as lágrimas porque quando o choro vem, é cachoeira. É choro de quem tem uma dor engasgada na garganta, que a gente nem sempre entende, de uma vivência anterior a nós mesmas, histórica, mas que são carregadas em nossos corpos, e a gente engole, como engoliu o açoite, como engole a farinha seca. A gente engole  —  e o gosto nem de longe é bom. A gente engole por sobrevivência, engole enquanto reúne forças, engole porque sozinha até cuspir fica difícil. Nós sangramos, nós também ficamos cansadas. A você, que ama uma mulher negra, desloque-se: pare de pensar que é tudo sobre você, que começa em você e termina em você —  centro de tudo, ser humano fálico. Compreendam que se trata de um passado maior do que a sua presença e um bom passo será dado. A vocês, que amam uma mulher negra, nunca pense que o que sabe já é o bastante e que basta saber que o racismo existe.

A vocês, que amam uma mulher negra, compreendam que ela terá que imergir nas contradições para proteger-se. Por mais que confie em você, por maior que seja o seu amor, ela usará das contradições para se proteger. Se pudéssemos escolher, não nos protegeríamos porque se pudéssemos escolher não haveria o que se proteger, mas se vivemos em um mundo de contradições é ingenuidade pensar que não nos será exigido nos protegermos de alguma forma, não é mesmo? Proteger o coração, proteger-se da solidão, do abandono, da insanidade. É duro dizer, é duro pra gente também reconhecer tudo isso, mas o presente tem um passado.

Aos que amam mulheres negras, tenham decisão. Convivemos o bastante com a indecisão: precisamos de pessoas que decidam, todos os dias, estar conosco. Ninguém nasce pronto e nem mesmo nós. Aos que amam uma mulher negra, queria dizer que tenham paciência porque nossa estrada é dura e nem sempre carregaremos a razão do mundo, só escute. Aos que amam mulheres negras, queremos que entendam o que estamos dizendo, que aprendam nossas formas de comunicar porque nosso passado é de silenciamento de dores.

Aos que amam mulheres negras, beije-a, abrace-a, assuma-a. Essa não é só uma manchete de jornal, é um ato político afetivo, é o amor tomando forma, vida e cor — literalmente. Aos que amam mulheres negras, digam a elas o quanto as amam. Aos que amam mulheres negras, aprendam a demonstrar, aprendam a olhar, aprendam a escutar, aprendam a contar também sobre vocês, sobre suas angústias e compartilhar as alegrias não só quando estão juntos. Aprendam a cuidar. Amar é uma tarefa. Sonhem conosco o futuro, lembrem os combinados e os planos. O futuro é importante para nós, ainda nos é caro. Aos que amam mulheres negras, responsabilidade — não é carga, não é peso, é responsabilidade. Aos que amam mulheres negras: não somos apenas nossa cor mas somos, antes de tudo, mulheres negras e espero que você entenda o que quero dizer com isso.

Aos homens negros que amam mulheres negras: entenda que o mundo que a cerca também é seu, proteja-se, proteja-a, protejam-se, cuidem de vocês, do amor e da relação. Deem as mãos, segurem firme. Firme. Ninguém está numa bolha, limpe a poeira. Na sociedade capitalista-patriarcal-racista, querem exterminar nossos corpos, nossos sonhos e nossas afetividades. Nossa possibilidade de amar e ser amado, profunda e verdadeiramente, todos os dias.

Aos homens brancos que amam mulheres negras: vocês levarão anos, possivelmente uma vida inteira, para conhecer, entender, respeitar e aceitar tudo que sua companheira negra traz enquanto legítimo. Comece agora, nesse exato momento. Não há tempo a perder, desacelere os passos e dê as mãos — pra caminhar junto, no mesmo passo, não pra puxar pra frente — esse é o melhor que você pode fazer. Vocês vão ajustar o ritmo se tiverem o cuidado com os passos um do outro.

Aos que amam mulheres negras: enquanto estamos reconhecendo e conhecendo nossa identidade, estamos conhecendo também o amor, o respeito, a dignidade e a esperança enquanto possibilidades. Conhecendo tudo, absolutamente tudo que nos fora negado antes de nós e em nossas vivências mesmas enquanto crescemos — negadas ao próprio direito ao sonho.

Aos que amam mulheres negras, é preciso coragem para ser revolucionário.

O trabalho na casa grande e nos engenhos nunca encheu nossa barriga, não é o amor vindo desse mesmo chão que deixará nossa alma farta.

Arquivo Pessoal

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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