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Vitória’s e Carol’s
Créditos da foto: Caroline Coutinho

Vitória’s e Carol’s

Quando eu nasci não tinha muito ideia de como definir um tipo de cabelo. O que era crespo, liso, loiro, cacheado, preto, castanho, ruivo, castanho escuro. Nada disso fazia sentido pra mim.

por Vitória Cardoso para o Guest Post do Portal Geledés

A única coisa que eu me recordo é de lavar o cabelo todo domingo, para então trançá-lo e começar uma nova semana. Minha mãe perguntava:

– Filha você vai querer ele como? Solto com tranças, rabo de tranças, chiquinha de tranças, trança embutida?

Lembro de sempre gostar do solto com tranças, afinal era legal sentir o cabelo caindo no ombro, correr e sentir o cabelo ao vento, mas minha mãe me induzia ao rabo de tranças, para não correr o risco de pegar piolho e muito menos de “assanhar” o cabelo, pois de segunda a sexta ir para creche de cabelo solto era um grande perigo. Mas se tinha uma coisa que eu amava era colocar os tererês coloridos na ponta de minhas tranças, cada domingo uma cor, e quando já não dava mais para colocar a mesma cor, minha mãe misturava todos e deixava o meu cabelo um grande arco-íris.

Fui para o ensino fundamental, e junto vieram os apelidos “cabelo de bombril, assolan, cabelo ruim”, as frases “cabelo ruim se não está preso está armado”, “porque você não alisa o seu cabelo?”, “empresta o seu cabelo para lavar a louça? “, e de presente veio a necessidade de alisar o meu cabelo, as tranças já não eram interessantes, a comparação com a nega maluca por conta dos tererês coloridos me fazia chorar escondido. Lembro de ter uma guria na minha escola chamada Carol, o cabelo dela era liso e batia na bunda, um dia eu cheguei em casa e fiz a seguinte pergunta para a minha mãe:

– Mãe porque meu nome é Vitória e não Carolina?

Minha mãe ficou sem entender aquela pergunta, mas tentou explicar dizendo que cada um tem seu nome, e cada um carrega uma história com o seu nome. No momento eu fingi aceitar, mas o que eu queria mesmo era negar a minha história, a minha raiz, eu não queria mais ter os cabelos crespos, eu queria ter a história da Carol, eu queria ter os cabelos lisos da Carol.

Adolescência, outra escola, outros amigos, novos cabelos lisos, diversas cores, franjas, tamanho, talvez enrolados na ponta, mas as raízes sempre ali, me chamando para o formol, para o desenrolar, desencrespar. E eu? Aceitei, aos onze anos pedi para a minha mãe que deixasse eu alisar pela primeira vez o meu cabelo.

Seis horas dentro de um salão, antes de qualquer coisa era a vergonha de ficar com o crespo solto e com todas as clientes olhando para o meu cabelo e dizendo “Meu Deus quanto cabelo”, “Deve dar tanto trabalho ter um cabelo assim”, “Sorte que você alisa né?”, e sim, eu concordava e confesso que era o melhor dia da minha vida quando saia do salão com aquele cabelo longo, liso, bonito, e tudo aquilo que as clientes falavam no outro dia não acontecia, eu conseguia pentear sem “sofrer”, conseguir ir para escola de cabelo solto sem que alguém falasse pra eu lavar a louça.

Até que um dia surgiu um funk, eu estava com os meus trezes anos, onde a letra dizia mais ou menos assim: “Eu vou mandar um papo reto, essa vai para os guerreiros. Que tem uma mulher que vai no cabeleleiro. Gastou trinta reais. sabe o que que aconteceu? Ee choveu… cabelo encolheu (todinho). Ee choveu… cabelo encolheu! Vou mandar um papo reto, gatinha vê se me escuta! Se você fez escova vê se leva o guarda chuva! Ô não tô de caô, gata não tô de gracinha. Se você fez implante,alisante ou chapinha! Tome Cuidado, no final de tudo sabe o que que aconteceu ? Ee choveu! cabelo encolheu…(todinho). Ee choveu! cabelo encolheu. Para as gatinhas presentes um beijão no coração! Você que é vaidosa e vai sempre no salão. Pretinha, bonitinha, do cabelo de henê. Se tu marcar pra mim, hoje eu vou beijar você. Aham, aham-am. Hoje eu vou beijar você”.

Adivinha quem é a pretinha da música? Quem não podia sair de casa com chuva pra não estragar a chapinha? Quem era zoada e ameaçada pelos amigos de jogar água em seu cabelo para o ver subir? Eu. Além de tudo, seu cabelo vira uma referência e característica sua.

A Vitória que faz chapinha?”, “A Vitória, aquela que tem o cabelo ruim, e faz chapinha”. Outros comentários nascem ” Aí amiga não vai estragar seu cabelo, o meu também está com chapinha”, “amiga para de frescura, você está exagerando”, “faz um coque e já era”.

A relação do meu cabelo dos quinze aos dezoito foi de longas progressivas durante seis horas com as mesmas clientes, falando as mesmas coisas, repetindo as mesmas frases, e ainda mais, desvalorizando o cabelo crespo, a raiz crespa, tirando qualquer espaço para um cabelo original, sem produtos fortes. Lembro do cheiro do salão, fazia mal para os meus olhos, eu ficava com muita vontade de vomitar, o meu coro cabeludo ardia, era necessário fazer testes no meu cabelo para saber se era possível algo tão perigoso ser passado no meu coro.

Mesmo sabendo de todo esse sofrimento, e de toda essa relação que não era minha, de não combinar com o cabelo liso, do meu rosto não se adequar com um cabelo como aquele, eu fazia e de quatro em quatro meses eu estava lá sentada na cadeira, tentando me encontrar nos espaços sociais, nos espaços de ser perfeita, em um lugar que inclusive nem era meu.

Até que encontrei o meu lugar, e com dezenove anos uma amiga me levou para a Feira Preta em São Paulo. Lá eu fiquei encantada com a quantidade de cabelos crespos e assumidos. Eu não sei sentia vergonha de toda a minha vida, e a quantidade de formol que havia passado em meu cabelo, ou se agradecia todas aquelas pessoas pela resistência e orgulho de serem quem elas eram.

Voltei para casa com uma vontade tremenda de sentir o meu cabelo crespo, a minha raiz, sentir os meus cachinhos, descobrir quem era a verdadeira Vitória. Foi fácil? Não, não foi fácil, pois diferente de hoje que as meninas nascem com essa vontade de ter um cabelo crespo, quando eu resolvi assumir meu cabelo, assumir minhas raízes, não era aceitável ter um cabelo crespo, ainda mais para uma menina negra que morava numa cidade onde a porcentagem de descendentes europeus era/é muito grande. Mas diferente da guria de 13 anos que não aceitava seu cabelo e concordava com as clientes do salão, agora eu estava preparada pra me defender, e qualquer frase de efeito sobre o meu cabelo, o retorno era imediato, as olhadas tortas eram motivos pra eu passar a mão no cabelo e fazer com que ele subisse mais. Vieram coisas maravilhosas e desejos, não só de ter um cabelo crespo, mas sim a necessidade e vontade de conhecer a raiz africana, as danças, alimentações, o significado das coisas, as religiões, lenços, turbantes, meu Deus como eu amo turbantes, e ter um grande amor e carinho por essa cor.

Hoje faz muito sentido o meu nome ser Vitória e não Carol, hoje faz sentido a frase que minha mãe disse onde cada um tem sua história, não foi um caminho fácil e por mais que hoje a mídia, a moda, e até mesmo a resistência negra esteja forte, ainda existem muitas Vitória’s querendo ser Carol’s. E no meu ponto de vista o problema nem era ser a Carol, mas o motivo de querer ser a Carol, a questão não é você olhar para o outro e se espelhar, afinal muitas coisas boas e ruins acontecem em nossas vidas por motivações externas, mas nessa história, a Vitória não se aceitava como negra, não aceitava o seu cabelo crespo, não aceitava sua raiz.

 

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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