quarta-feira, outubro 27, 2021
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Sou preto e não disputo migalhas com os pardos

E a miscigenação, tema polêmico no gueto,

Relação do branco, do índio com preto

Fator que atrasou ainda mais a autoestima:

Tem cabelo liso, mas olha o nariz da menina 

– GOG, Carta a Mãe África

Há muitos debates entre os negros acerca do modus operandi do racismo no tratamento dispensado às pessoas pretas e pardas, no entanto, as discussões são carregadas de sectarismo e sempre causam ressentimentos entre os envolvidos. Eu não desconsidero a importância das especificidades de cada grupo, apenas acredito que os debates deveriam ocorrer se a população negra − considerando a soma de pretos e pardos – estivesse em outro patamar de cidadania. No mínimo com o direito à vida sendo respeitado.

Ao evocar o Colorismo¹, os pretos argumentam que os pardos são pessoas palatáveis dentro da estrutura racista, em função disso, conseguem as melhores oportunidades quando comparados a eles, que têm a pele mais escura. Mas essas críticas apresentam lacunas, pois não esclarecem qual a qualidade das oportunidades. Será que a humanidade dos negros de pele clara é ao menos respeitada? Eu não acredito que as mulheres pardas acham vantajoso estarem submetidas aos olhares que as hiperssexualizam, aquela mesma situação da Mulata Exportação² no poema da Elisa Lucinda. Ou considerem privilégios o recebimento de lembretes racistas, principalmente, quando estão em seus empregos, como “beleza exótica”, “traços finos”, “pé na senzala”, entre outros. 

Antes de escrever este artigo revisitei o trabalho do sociólogo Oracy Nogueira (2006) “Preconceito racial de marca e Preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil” que aborda a dinâmica dos preconceitos raciais entre o Brasil e os Estados Unidos. As conclusões são bastante relevantes, e ajudam a perceber as nuances e comportamentos dos sujeitos negros e brancos. Para o contexto brasileiro, Nogueira caracterizou o preconceito racial como sendo de marca “quando o preconceito de raça se exerce em relação a aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia (…) diz-se que é de marca”. Muito diferente do que ocorre nos Estados Unidos, onde a descendência de certo grupo étnico é determinante para que o indivíduo sofra preconceito. Neste ponto, uma lição: não adianta importarmos as teorias estadunidenses para explicarmos o racismo brasileiro. Oracy Nogueira demonstrou a complexidade, de difícil superação, que a miscigenação criou no Brasil. Tanto que existem negros de pele clara assumindo a identidade branca e são aceitos sem questionamento. Contudo, não podemos transformar exceção em regra, mesmo sabendo que “a intensidade do preconceito varia em proporção direta aos traços negróides”.

Ademais, antes de criticarmos as supostas vantagens dos negros de pele clara, lembremos que as estruturas sociais e hierárquicas estão intactas: os negros não estão ocupando espaços de decisão, não escapam da violência policial e continuam sendo os mais desfavorecidos economicamente. Essas migalhas que causam tanta discussão servem ao racismo estrutural, criam conflitos entre os negros e caracteriza suposta tolerância a diversidade racial nos espaços de maioria branca. Nos momentos que surgir qualquer discussão, melhor seguirmos a orientação do intelectual, e importante nome do movimento negro, Abdias do Nascimento (1978) “não vamos perder tempo com distinções supérfluas”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro – Processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 1978.

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre as relações raciais no Brasil. Tempo Social Revista de Sociologia da USP, Editora da USP, v. 19, n. 1 p. 287-308. São Paulo, 2006.


¹ O termo foi usado pela escritora Alice Walker, em 1982, no  livro In Search of Our Mothers’ Garden. Em resumo, o colorismo aponta que a discriminação é baseada na pigmentação da pele. Ou seja, quanto mais escura a pessoa, maior a exclusão no convívio social.

² De Elisa Lucinda – Mulata Exportação 

Disponível em: <https://www.geledes.org.br/de-elisa-lucinda-mulata-exportacao/> . Acesso em: 03 ago. 2020


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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