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Embranquecimento e Colorismo: estratégias históricas e institucionais do racismo brasileiro

(na foto abaixo, 4 dos diversos personagens negros históricos que foram embranquecidos para o bem da aceitação branca. veja a matéria completa em http://www.vermelho.org.br/noticia/284391-1 )

Por Joice Berth, no Medium 

“Políticas de incentivo a imigração de alemães, italianos e espanhóis foram intensas no decorrer do século XIX e XX. Com o branqueamento da nação pretendia-se atingir uma higienização moral e cultural da sociedade brasileira. Clarear a população para progredir o país passou a ser um projeto de nação defendido no século XIX, mas que avançou pelo século XX. Projeto que envolvia eugenização e a higienização social enquanto políticas públicas”(Antonio Carlos Lopes Petan, 2013)

O racismo estrutural tem feito um trabalho de eliminação da população preta de diversas formas: pelo genocídio, pela exclusão territorial, pela fome, pelo apagamento e silenciamento, pela apropriação cultural, pelo epstemicidio, entre outros métodos.
O branqueamento é também um dessas estratégias. Existem diversas figuras negras que foram embranquecidas pela história única racista a tal ponto que muita gente não sabe por exemplo, que Machado de Assis era um homem negro.

Isso é um fato, não uma suposição.

No Brasil, talvez mais do que em outros lugares do mundo, a raça é uma construção social com padrões diferenciados. Por conta da miscigenação, o que chamamos de “branco” aqui não seria chamado em outros lugares do mundo. Só que precisamos nos concentrar na nossa realidade e não na vizinhança.

Fabiana Cozza não é branca. Mas aqui, no Brasil, também não é negra. Não é lida como negra e não, definitivamente não sofre as mesmas exclusões e repulsas que Dona Ivone Lara sofreu.
Ignorar isso é uma das características dos afroconvenientes. É muito mais comum você encontrar pessoas negras( ou que se consideram negras) afirmando que não existe racismo do que pessoas negras indisfarçaveis como eu. Porque óbvio, ela não era a macaca da escola… Eu não me “descobri” negra. A sociedade me “acusou” de negra desde a mais tenra idade. E desde então eu lido com isso, sem disfarce, sendo alvo inclusive das omissões e conluios que pessoas negras de pele clara, lidas como aceitáveis pela branquitude que me agride, fazem.

Como por exemplo, aceitar interpretar uma negra que com certeza, era o que ela não foi, a macaca da escola…
Acho que é um momento para uma reflexão profunda sobre a construção social da raça e suas dinâmicas, no sentido de eliminar a possibilidade da afroconveniencia como prática recorrente(vide as fraudes nas cotas raciais)e que na outra ponta também invisibilizam identidades indígenas (parece que no Brasil cujos donos verdadeiros são os povos indígenas, só se pode ser preto ou branco! Eu chamo isso de bipolaridade racial)

Porque não, não é justo e tampouco aceitável que mais uma mulher preta, invisibilizada a vida toda por não ser aceitável para os padrões brancos, seja após a sua morte, violentada novamente pelo apagamento da sua característica fenotípica real.

Faz parte do respeito a memória de uma pessoa negra, não embranquecê-la.

Faz parte do respeito a toda população negra escravizada e violentada institucionalmente, não se colocar como agente da continuidade das políticas de branqueamento sociocultural e político praticados há mais de um século.
Eu acho que aliás, deveria ter uma lei, impedindo isso, o branqueamento premeditado de figuras negras, pra encerrar esse capítulo vergonhoso da história do racismo nacional.

‘ ahhhh mas foram pessoas negras da produção que escolheram’

Sinceramente, isso é só um detalhe…pois é mais do que fato consumado que a população negra desse país é infelizmente alienada de sua própria história e dos seus problemas mais profundos, de modos que os Holidays como sempre digo, são muitos…isso é apenas uma das resultantes das violências raciais a que fomos impostos.
Gosto sempre de lembrar que uma das estratégias de separação e incentivo a rivalidade entre negros era colocá-los uns para surrarem outros enquanto o senhor branco observava…

Essas técnicas só se aprimoraram ao longo da história e a construção do lugar do negro único aliada ao colorismo é só uma dessas estratégias.

As pessoas negras(ou que se acham negras) de pele muito clara, não inventaram essa violência chamada branqueamento. Mas podem combatê-la em respeito a si mesmo e a ancestralidade com a qual dizem se identificar.
Do contrário, daqui a pouco me colocam o Wagner Moura, que não é um homem branco mas também está muuuuuito longe de ser um negro, como a maioria das pessoas desse país, pra interpretar o Zumbi dos Palmares.
Não né…

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