Espelho, espelho meu… Na bolinha dos olhos, há alguém mais preto do que eu? O colorismo como elemento de divisão da negritude e da luta antirracista no Brasil

Ao menos nos últimos dez anos, ocorre um fenômeno em meio ao universo intelectual e militante do movimento negro brasileiro, que é a retomada de postura de se buscar definir quem é ou não “preto de verdade”. Com uma postura racialista subjetiva de se considerar negro de fato, quem se enquadra numa escala de cores de tons retintos. Usando argumentações chulas, que sempre foram empregadas pelos movimentos racistas e por setores intelectuais hegemônicos, que sempre promulgavam não existir negros de fatos no país, pois biologicamente seriamos um povo miscigenado, não racialmente puro, não havendo por isso, sentido em haver a busca pela constituição de identidades, de pertenças coletivas negras. Classificando assim, as lutas e reivindicações dos movimentos negros enquanto formas de se importar os preceitos raciais e posturas racialistas que não inerentes ao nosso modelo civilizatório socialmente harmônico e racialmente democrático.

Uma parcela de – pretensos (?) -novos militantes negros que desconhecem ou renegam todo um conjunto de práxis, de lutas e historicidades do movimento negro no país. Em especial, após a constituição do novo movimento negro em final dos anos 1970, em que dentre os embates e tensões internas comuns a qualquer fenômeno de representação coletiva, chegou-se a premissa de buscar a construção de uma identidade negra, até como maneira de enfrentar e refutar os efeitos ideológicos de alienação gerados pelos discursos laudatórios freyrianos de miscigenação, procurando atuar na defesa da conscientização racial, de que qualquer pessoa de descendência africana, não importando o seu grau de melanina, é uma pessoa negra em diáspora. Tal premissa se tornou a base política ideológica que pautou desde o “Movimento Negro Unificado” (MNU), passando pela “União de Negros pela Igualdade” (UNEGRO) e demais coletivos artísticos e políticos negros que se deram a partir dessa práxis de conscientização racial, sendo o mote de protesto contra as comemorações oficiais governamentais do centenário da Abolição da escravidão em 1988. Ao subverter a lógica racista de embranquecimento da miscigenação, no sentido desta se dar enquanto elemento característico da afrobrasilidade. De novas identidades negras que se deram e se constituíram em diáspora, devido aos processos miscigenatórios (físicos/biológicos e culturais) que aqui ocorreram. Uma incorporação dos denominados mulatos/pardos como racialmente conscientes e orgulhosos de sua negritude, se autodeclarando e se posicionando enquanto pessoas negras, para desespero dos defensores de nossa mítica democracia racial.

Não sendo por acaso que ano após ano, década após década, estar havendo um aumento da porcentagem das pessoas que se declaram negras nos censos populacionais do IBGE. Fora, incontáveis militantes, ativistas, intelectuais, artistas e desportistas que se colocam, se posicionam socialmente e politicamente enquanto pessoas negras, ciosas e promulgadoras de suas negritudes, combatentes das contradições e opressões de nossa estrutura racista. Uma realidade que se faz revelar, nítida, a quem olha sem viseiras o mundo ao seu redor. Havendo uma série de produções intelectuais, artisticas e documentais que comprovam tal realidade.

O que aumenta o nosso espanto ante a percepção de estar havendo uma atuação sistematizada de determinados grupos que se postulam como verdadeiros negros, que adotam um discurso de pureza e superioridade racial – reverberando falas e conceitos utilizados inclusive por grupos extremistas totalitários neonazistas e neofascistas – para assim desautorizar, desqualificar as práxis reivindicatórias ou contestatórias daqueles que eles não consideram serem negros de fato. Agindo com uma crueldade e acidez, que não é empregada ante os embates cotidianos racistas que cercam e matam as populações afro-brasileiras, mas que se mostra impiedosa aos que não se qualificam ante a sua subjetiva definição de cores autênticas negras.

E tal atitude de desqualificação se dá em especial quando as vítimas são mulheres ou pertencentes a população LGBTQI+, sendo comum os ataques pessoais, vis e canalhas, sempre com a intenção de desumanizar essas pessoas, reduzindo-as e taxando-as como “paçocas”, “leite com chocolate”, “pouca tinta”, “afrobege”, “afroconveniente”, “fantasma”. O que revela uma postura, no mínimo questionável, de atacar sistematicamente, com um instrumental verborrágico e pretensamente argumentativo. Reverberando aquilo que de mais reacionário e ultrajante que existe, e de certa maneira validando as intenções de grupos ideológicos abertamente racistas, misóginos e homofóbicos! Para que não paire dúvidas sobre essa parte do texto, estamos situando e tensionando o uso por pretensos militantes negros, que utilizam conceitos, expressões e conceptualizações de cunho ultrarreacionário, para se inserir a seara política da negritude brasileira. Qualquer dúvida é só fazer uma comparação básica nas páginas de pesquisa, ou na deep weeb, para atentar a essa situação. Uma realidade, um fato que nos faz indagar não as críticas que teoricamente devem ser realizadas ante a qualquer grupo social, político ou cultural, enquanto inerentes aos processos de debates civilizatórios a qualquer tipo de sociedade. Mas o porquê dessa ação só se dar com determinados grupos em específico e, em especial, utilizando como material de verbalização de suas discordâncias, expressões e narrativas oriundos de grupos radicalmente contrários e antagônicos as causas negras e de negritude? Qual a razão para se agir assim? Falta de background teórico ou de arcabouço intelectual? Baixa autoestima? Alienação histórica e social? Algum tipo, de pós-modernismo político filosófico ultrarradical? Ou, vontade mal disfarçada de se tornar de fato sujeito um agente opressor da História?

Isso, sem contar uma busca em desqualificar toda produção histórica e política das populações negras no Brasil, por uma perspectiva bibliográfica, balizada por uma (re)leitura torpe e enviesada, que não admite o contraditório ou a divergência. Por vezes agindo como os mais ciosos e sabedores de todos os meandros e pormenores de determinadas obras, muito mais que as próprias autorias originais. É uma verborragia pautada pela fala de “na verdade, o autor/a autora quis dizer é isso”, o “correto é aquilo que eu compreendi, e não aquilo que está realmente escrito/dito nos textos ou em depoimentos”. É sempre a prevalência do “eu acho”, do “eu sei”, sobre toda uma série de conhecimentos e saberes já a décadas constituídos, ou ante textualidades e argumentações precisas e referendadas por pesquisadores e militantes. Que ao não serem legitimados pelos portadores da verdade absoluta, são desqualificados como se nada fossem. Um processo de deslegitimarão que sempre se dá aliado a ataques coordenados, visando atingir a própria condição humana do seu alvo inquisitório.

Dessa forma agindo como se fossem guiados por uma certeza divina, sobre humana, que os balizam em uma infindável busca em apontar quem é ou não negro de verdade no Brasil, quem pode ou não falar em nome da negritude brasileira, quem pode ou não exercer a luta antirracista de fato. Como se o espelho mágico da rainha má da Branca de Neve tivesse vindo parar em terras tropicais brasileiras, ao qual só os verdadeiros negros e escolhidos, possuem acesso e podem consultá-lo? Em que através da pergunta: “Espelho, espelho meu… Na bolinha dos olhos, há alguém mais negro do que eu?” Se dão as respostas que direcionam as lutas e os caminhos da verdadeira luta afro-brasileira! É a isso, a que estamos sendo expostos em pleno século XXI? 

No momento que apesar de todas as diferenças ideológicas e políticas, deveríamos estar unidos e focados em agir coletivamente, em combater o processo de genocídio que ceifa cotidianamente as esperanças, as vidas, da população negra no país? A quem interessa fomentar uma divisão que nos enfraquece e só fortalece a quem quer nos matar? De tez com maior ou menor pigmentação, quem acaba na vala ou no caixão, aos montes, é a juventude negra! Criminalizada, julgada, condenada e executada pelo tribunal de rua, pois para o Estado opressor e assassino, instrumentalizado enquanto representante dos piores valores e anseios de nossas elites nefastas, é negro todo aquele morto pela sua sanha assassina. O Estado diferencia quem é ou não negro, através de seus mais variados e diversos filtros, numa seleção macabra que ao final resulta em corpos negros, negritudes encerradas, chacinadas e jogadas nas calçadas da vida ou nos gavetões gélidos dos IMLs. Não existindo “mais negro” ou “menos negro”, “negro de verdade” ou “negro de mentira”, apenas corpos negros dos mais variados tons, TODOS negros, vitimados pelo nosso racismo estrutural.

E ante tudo isso, em vez de somar forças e esforços ante um inimigo comum, opto em atacar os meus? Desqualifico e desumanizo aos de minha pertença? Aos que são mortos como eu? Por serem simplesmente quem são, numa sociedade que nunca os aceitou de? O que se ganha agindo assim?

Repito, insisto, são implacáveis, sarcásticos e mordazes com sujeitos políticos e atores sociais negros aos quais possuem discordâncias pretensamente ideológicas, mas se revelam tremendamente educados, quando não omissos, silenciosos, perante as cada vez mais decorrentes manifestações e expressões de ódio contra as populações de origem afro na nossa sociedade. Não repercutem nenhuma oposição as narrativas e ações da extrema-direita que se avolumaram nas últimas décadas, atacando diretamente as lutas antirracistas e de negritude. Não se posicionam ante aos ataques sistêmicos sofridos pelas religiões de matriz afro. Ficam mudos perante os ataques as representações legislativas negras. Não se posicionando nem para emitir notas protocolares de solidariedade…

Ideologicamente se posicionam como “nem de esquerda, nem de direita”, se colocam publicamente como panafricanistas ou negro ativistas. Mas só tensionam e confrontam negritudes políticas identificadas a esquerda. E nunca á direita… Amam criticar e desmoralizar, por vezes até com o uso de fake news, de Mano Brown a Sílvio Almeida, de Sueli Carneiro a Lélia Gonzáles, pelo simples fato de causar controvérsia, angariar views e ganhar notoriedade. Numa ação política visando ganhar nome e espaço no debate nacional, mas que reserva o aquietar-se ante ao campo de intelectuais ou políticos da direita como Fernando Hollyday, Guto Zacarias, Hélio Lopes. E não se posicionam publicamente em processos eleitorais, pois são “apolíticos” no sentido de que classificam a política tradicional como um jogo de cartas marcadas. Mesmo assim, só interpelam e criticam os políticos e governos de esquerda. Se aliando em discursos e ações a grupos que sempre se posicionaram contrários as pautas e reivindicações negras, como, dentre outros, o MBL, DEM, PL. O que nos faz, novamente indagar, a quem interessa esse tipo de prática política em meio ao conjunto intelectual e político afro-brasileiro? O que de positivo já surgiu dessa decorrência?

A existência de divergências e alteridades é salutar e bem-vindo a qualquer expressão humana, ainda mais na política. Em vista que o consenso, em geral, gera produções amorfas e conformistas de interpretação e contestação social. Pois é em debates e contradições, quando não conflitações, que geram novas perspectivas, novas concepções de lutas. Mas daí, revisar purismo racial, pretensa neutralidade ideológica e validação, além de reprodução, de ideologias racistas, misóginas e homofóbicas, para atacar suas contrapartes do movimento negro é de uma tacanha política sem tamanho. Que espero se dê por uma imaturidade intelectual decorrente da pouca vivência militante de fato – e não em espaços (pretensamente seguros) virtuais – dos adeptos dessas normativas. E não por razões outras, as quais não me atrevo, ainda, por discorrer…

Não estamos com isso desconhecendo ou negando que pessoas negras com maior pigmentação, com maior melanina em sua epiderme, sofram maiores violências em suas vidas diárias pelo sistema racista ao qual estamos inseridos. De quanto maior for a manifestação de traços negróides em uma pessoa, maior será a sua dor e maiores são as suas chances de morte. Isso é indiscutível e já é posto pelo movimento negro brasileiro a décadas, desde pelos meados dos anos 1970, fazendo parte basilar do melhor da produção historiográfica e sociológica afro-brasileira, como atesta o conceito de racismo de marca tão bem trabalhado, por exemplo, na obra de Clóvis Moura. Mas nos faz enquanto incompreensível, utilizar uma paleta de cores conceitual e distorcida, para negar e ridicularizar a negritude de outra pessoa, como forma de validar e legitimar a sua. Como se quanto mais pigmentada for a pele de uma pessoa, está automaticamente chancelada a sua legitimidade e representação de negritude, de consciência racial e práxis política negra. Pois sendo assim, por essa concepção míope e de pouco alcance reflexivo, Fernando Hollyday é mais verdadeiramente negro que Renato Freitas, Carlinhos Brown é mais negro de verdade do que Mano Brown. Ou de que, o exercício de uma verdadeira negritude se dá com a primazia de lideranças negras masculinas e aparentemente hetero, em detrimento aos protagonismos das mulheres negras e populações lgbtqi+s e das pluralidades reivindicatórias, e de direitos, que se dão cada vez mais a partir destas existências.

Tantas lutas e batalhas, tantos percalços e dificuldades para construção de uma ação conjunta e minimamente identitária, no sentido de pertença e hereditariedade, de valorização e manifestação orgulhosa, pública de nossas ancestralidade e historicidade, para tudo se balizar pelos olhos de pretensos portadores de uma negritude autêntica, exclusiva e superiora? Regida por uma premissa colorista mesquinha? Enquanto persegue e visa destruir unicamente os nossos? Para deleite dos nossos reais inimigos, ao mesmo tempo em que poupa e “passa pano” aos nossos verdadeiros algozes? 

Que raios de negritude é essa? Que negro ativismo é esse? Que panafricanismo é esse? Que têm ojeriza as pluralidades, que se baseia em sectarismos, A realidade é muito mais complexa e perigosa do que um roteiro de “Pantera Negra”! Louvam Wakanda, enquanto zombam dos sonhos reais de Palmares, ao se aliar com aqueles que historicamente se alimentam de nossas dores e mortes! Reproduzindo alegremente, prazerosamente, falas de ódio e desprezo contra nós mesmos, para delírio de quem deveriam, de fato, estar combatendo!

É para isso, foi por isso que chegamos até aqui? Toda a caminhada de lutas e embates do movimento negro brasileiro, se deu para chegarmos a isso? Sinceramente, eu espero que não… Pois somos muito melhores do que isso! 

Reflitam jovens, e nem tão jovens assim, reflitam, conheçam nossas ancestralidades, desfrutem de nossas sapiências e saberes. Aprendam com os passos dos que vieram antes de nós e que nos trouxeram até aqui! Não sejam semeadores de discórdias ou intrigas, pois esse tempo, a muito já se foi! E que ele nunca mais retorne! 

Nosso inimigo é outro… Nosso, inimigo é outro!

Paz entre nós, vitória para nós!

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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