Após anos de luta pela emancipação feminina no campo, Covid ameaça direitos conquistados

Quando os primeiros casos de Covid-19 foram registrados no Brasil, em março, eles se concentravam nas metrópoles, principalmente São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Com o aumento gradual dos infectados, o vírus começou a se espalhar por outras capitais e criou uma rota de contaminação para o interior do país, o que levou, inclusive, pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) a elaborarem um estudo sobre a “interiorização do vírus”.

“Somente a partir do final de maio que os municípios tipicamente rurais, com cidades-sede com poucos habitantes, começaram a ser atingidos. Daqui para frente, eles serão sim mais impactados. Há agora uma preocupação do acesso que a população desses lugares terá aos serviços hospitalares para atendimento de casos mais graves que exigirão internação em UTI. Tratam-se de regiões que não possuem hospitais e terão de deslocar pacientes por ambulância até centros distantes (em alguns casos, mais de 200 km)”, prevê Raul Guimarães, professor titular do Departamento de Geografia da Unesp de Presidente Prudente.

Michela Calaça, agrônoma e dirigente do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), aponta possíveis riscos para a população rural: “Ao mesmo tempo em que os que ainda moram no campo ficam isolados uns dos outros e mais protegidos da Covid, essas pessoas têm que vender o que produz e comprar o que não produz. Se o Estado não dá condição disso ser feito com segurança, o risco para as famílias agricultoras é grande”.

Na América Latina e Caribe, as agricultoras familiares, camponesas e indígenas produzem 45% dos alimentos que consumimos, de acordo com dados da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).

No Brasil, a agricultura familiar, responsável por 70% do alimento que chega às mesas da população, sofre os impactos da pandemia com o fechamento de muitas das feiras onde os produtos são comercializados e de escolas que compram esse alimento para as merendas por meio do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Outro programa governamental importante para fomentar a produção das mulheres do campo e com cada vez menos investimento é o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar), que garante 5% dos recursos para a compra de produtos de associações ou cooperativas com no mínimo 70% de mulheres participantes.

Apesar da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmar que o PNAE continuaria normalmente em meio à pandemia, muitos agricultores que dependiam do programa para escoar a produção reclamam que não conseguem vender.

É o caso de Vera Alice de Lima Forte, agricultora de Adrianópolis, no Paraná. Produtora de bananas, está como estoque parado.”Boletos não pegam vírus, continuam chegando. Estou sem internet por falta de pagamento, a luz também já está vencida. Essa pandemia gerou um transtorno”, conta. Vera também não conseguiu ainda receber a segunda parcela do auxílio emergencial concedido pelo Governo Federal.

Vera Alice de Lima Forte, agricultora de Adrianópolis, no Paraná (Foto: Silvana Martins)

Para as mulheres camponesas, o baque econômico traz também a perda da autonomia conquistada às duras penas por meio do reconhecimento tardio do trabalho exercido por elas. “Esse trabalho das mulheres, tradicionalmente feito nos quintais e para o autoconsumo da família, sempre foi invisibilizado. A produção para o consumo próprio não é contabilizada pelo Censo, não é considerada renda, não entra para o PIB. A economia clássica ignora essa produção. A economia feminista é que passa a valorizar isso. Criamos uma caderneta agroecológica, entre 2016 e 2020, para mapear e calcular o quanto é produzido por agricultoras. Essa pesquisa demonstrou a importância da produção das mulheres na renda das famílias”, diz Elisabeth Cardoso, coordenadora técnica do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata e integrante da coordenação do Grupo de Trabalho Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

De acordo com Lucilia Freitas, presidente da Associação de Pescadores e Pescadoras de Remanso (APPR), na Bahia, muitas mulheres voltaram a ficar em posição de dependência dos maridos com a crise econômica: “Elas têm voltado a ficar à mercê dos companheiros e voltaram a fazer  atividades que há anos não faziam, como trabalhar em casa de família, lavar roupa para outras pessoas. Sem falar que pedir dinheiro para o esposo e ouvir aquela frase ‘Para que você quer dinheiro? Traz o troco’. Isso quando você já está acostumada a comprar o seu shampoo e agora tem que pedir para fazer isso. As mais velhas estão isoladas dentro de casa porque são grupo de risco e acabam se entristecendo. O convívio com outras mulheres, conversando e relembrando histórias, as renovava  diariamente. Hoje, se veem sem essa troca”.

Na falta de locais de venda e no enfraquecimento dos programas governamentais, as agricultoras agora dependem dos chamados “atravessadores” para conseguir escoar a produção, que se aproveitam da crise para diminuir os preços. “Se o produto está parado, não temos alternativa e vendemos por um valor mínimo”, diz Lucilia, que também fala dos danos psicológicos que a crise provoca: “Estamos sufocados, limitados. Sentimos o estresse e o nervosismo de nos vermos sem alternativas, a incerteza em saber até quando isso vai acontecer”.

A agricultora Lucivanda Rodrigues da Silva, de Governador Valadares, Minas Gerais, conseguiu se virar fazendo entregas a domicílio. Na chácara onde vive com o marido e os dois filhos, produzem de tudo: frutas, verduras, legumes, leite e peixe. Foi justamente entre uma entrega e outra que sofreu um acidente de moto na estrada e quebrou o braço. A filha, que trabalhava com ela, quebrou a perna. “Eu estava entregando todo dia até sofrer o acidente. Uma moto bateu na gente e caímos. Eu tinha uma reserva então consegui comprar remédio para mim e minha filha. Tenho 700 reais ainda e não sei como será daqui pra frente. Meu companheiro, que não tem habilitação, recebe aposentadoria. Estou tentando o Auxílio Doença, mas com o INSS parado, não saiu ainda. O problema é que eu e minha filha nos machucamos então nenhuma das duas está trabalhando. Devo ficar de 6 meses até um ano sem levantar o braço”, diz Lucivanda.

A agricultora Lucivanda Rodrigues da Silva, de Governador Valadares, Minas Gerais (Foto: Silvana Martins)

O filho é o único da família que não trabalha na roça. Com um emprego numa empresa de dedetização e outro como vigilante em um condomínio residencial, tampouco consegue ajudar nas entregas. “Na zona rural vivemos afastados e a Covid ainda não chegou. Mas meu filho trabalha fora e vai a outros estados. De ontem para hoje ele se sentiu mal e foi para o hospital. Está com febre, coceira no nariz, e já ficamos preocupados. Não tem como isolá-lo em casa se estiver contaminado. Cada um tem seu quarto mas é só um banheiro para todos”, conta ela.

Lucivanda ressalta a importância do trabalho para garantir sua autonomia na dinâmica familiar. Hoje ela também é dirigente do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e coordenadora do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Diz que o contato com o MMC, em 2004, foi fundamental para “se libertar”. “Sou uma mulher antes e depois de conhecer o movimento. Nunca fui vítima de violência física por parte do meu companheiro, mas sim de todas as outras formas de violência que você possa imaginar. Eu não tinha direito a nada, nem a roupa. Ele pisava em mim, me humilhava. Minha família vive no Pará e passei quase nove anos sem vê-los. Só consegui viajar para lá porque o MMC organizou uma vaquinha e comprou passagem para mim e meu filho, roupa, sandália. Quando comecei a trabalhar por minha conta, vendendo nas feiras e para o PNAE, e ele percebeu que eu não ia desistir, meu companheiro mudou completamente. Hoje ele ajuda com a comida e a cuidar da casa. Foi com o meu dinheiro que eu consegui tirar a minha habilitação, comprar uma moto e sair na BR para vender meus produtos. Só a gente sabe o valor que isso tem”.

Segundo Andrea Butto, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e ex-diretora de Políticas para Mulheres Rurais da Secretaria-Executiva do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário, as maiores dificuldades enfrentadas pelas agricultoras são o trabalho não remunerado e a falta de acesso a terra e políticas públicas. “Há um desmonte das políticas para as mulheres rurais, como o Programa de Documentação da Trabalhadora Rural. Vimos, por exemplo, como a ausência de documentação civil foi impedimento para uma larga parcela da população poder obter o auxílio emergencial”. A falta de documentação é também um empecilho na hora das mulheres solicitaram políticas de crédito e assistência técnica.

Gabriela Costa*, agricultora do Rio Grande do Sul, aderiu às entregas de porta em porta para contornar as dificuldades com a pandemia. Ela e o marido plantam uma variedade de verduras e vendem três vezes por semana. A agricultora tem duas filhas que estão estudando de casa. Segundo ela, a escola manda entregar uma vez por semana os temas a serem estudados. Não há aulas online, já que muitos na comunidade rural não têm acesso à internet. “Não entendemos todas as orientações, mas vamos levando”, diz.

Vera também recebe em casa as atividades escolares para o filho. Só quem tem acesso à internet consegue se comunicar com os professores em caso de dúvidas – o que não é o caso dela.

Michela chama atenção para a situação de trabalhadoras rurais do semi-árido brasileiro. Diz ela que o programa do Governo Federal de construção de cisternas está praticamente parado e que na atual  conjuntura muitas famílias estão sem água. “No Nordeste está chovendo bastante esse ano, mas não tem como armazenar água. A dificuldade é de produzir alimento até para consumo próprio. Tem um número imenso de mulheres passando fome. Em geral o homem sai e vai tentar trabalhar em outro lugar. Às vezes volta, às vezes manda dinheiro, e outras, não. Quem acaba lidando com a fome e falta de água são as mulheres”, finaliza.

*A pedido da entrevistada, protegemos sua identidade


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